domingo, 27 de março de 2016

Batizado

Inácio acendeu uma vela diante da imagem de São José. Pediu ao santo, chefe da Sagrada Família, que o ajudasse a enfrentar aquela situação. Madalena, sua nova namorava, estava grávida. O aborto era uma medida impensável para um sujeito maduro e religioso. Mas precisava digerir a ideia de assumir uma criança junto com uma mulher que, de certa forma, pouco conhecia. E São José entendia bem disso.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amor aprendido


Dia desses eu estava conversando com uma senhora que me disse algo muito interessante: “Eu me casei usando a razão. Eu tinha 30 anos, queria ter uma família e me sentia preparada”. Fiquei meio sem jeito, mas não resisti e a questionei sobre o amor. Ela sorriu e disse que o marido era muito preocupado com isso também e que vivia perguntando para ela, de tempos em tempos, se ela já conseguia amá-lo. E ela sempre dizia para ele ficar tranquilo, que o amor viria com o tempo. “Até que veio”, ela concluiu.

domingo, 25 de outubro de 2015

Quando você me conta as coisas


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Gosto de quando você se senta ao meu lado e envolve o meu pescoço com o braço. E, bem perto de mim, começa a me contar sobre as coisas que você fez, que viu, os seus planos, as coisas mais bobas. Gosto principalmente quando você me conta as coisas mais bobas. Porque quanto mais bobo, mais íntimos significa que somos. Só dois íntimos perdem tempo com bobagens, porque eles sabem que não haverá julgamento mútuo. E a gente não se julga nunca.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Uma família tradicional


Jorge e Fátima tinham acabado de acordar e conversavam na cama. O casal estava preocupado com o seu filho, Luizinho. Eles tinham também uma filha, Clarinha. Mas a menina mal havia largado as fraldas. Ainda não dava trabalho. Ainda. Mas Luizinho, com 10 anos, já deixava os seus pais muito agustiados devido ao seu comportamento atípico.

Jorge contou a Fátima que, no último evento do Dia dos Pais na escola, a professora havia comentado em particular com ele sobre Luizinho. O menino andava um tanto isolado do restante da turma, principalmente dos outros garotos. Fátima não precisava de mais explicações. Ou não as queria. Ficou praticamente calada. Limitou-se apenas a dizer que talvez fosse bom o menino ir ao psicólogo. Jorge não gostou muito, e saiu da cama. Tinha que ir trabalhar.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

As estátuas


Felipe estava cansado da sua vida da forma como ela era. Vivia na mesma casa desde que nascera, frequentava sempre os mesmos lugares da cidade. Até da faculdade estava cansado. Aqueles corredores frios, aquelas pessoas pouco afetuosas. Já não se sentia tão apaixonado pela namorada. Tinha um amigo de infância, Jonatas, com o qual havia brigado por pura saturação de convivência.

Aceitou viajar com os pais e irmã mais nova nas férias para um litoral distante. Pensou que poderia ser um tédio, mas resolveu arriscar. Dentro do chalé alugado, rodeado por muita natureza e pouquíssima civilização, sua mãe preparava um bolo de cenoura, receita que ele adorava desde pequeno. Mas Felipe estava com o olhar distante. Disse que iria dar uma volta pelo local, e saiu apressadamente.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A metáfora de Cinquenta Tons de Cinza

(Este texto revela um pouco alguns elementos do filme)

Não tenho nenhuma vergonha em assistir certos filmes. Fui ver “Cinquenta Tons de Cinza” sem ter lido os livros (e nem tenho vontade de lê-los), mas sabendo que ele é classificado popularmente como uma história para mulherzinhas. Não importa. Eu estava curioso, me convidaram e eu fui assistir.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Apelidos

Para mim, existem três tipos de apelidos:

Um deles é o pejorativo, utilizado para humilhar alguém. Desse eu nem preciso dizer que não gosto. Já sofri e também já pratiquei um pouco aquilo que hoje chamam de “bullying”. Acho que todo mundo já passou por isso, principalmente quando criança. No meu caso, não foi algo que me acompanhou por muito tempo. Foram brincadeiras desagradáveis, porém passageiras da infância. Mas existem pessoas que convivem com fantasmas de apelidos até hoje. Deve ser algo terrível.

Outro tipo de apelido é aquele que torna a pessoa uma espécie de personagem perante os outros. Desse também eu não gosto.  E para esclarecer esse, dou um exemplo. Certa vez, início do ano no colégio, uma menina ao se apresentar para a turma, disse: “meu nome é Fulana, mas todos me chamam de Beltrana, e vocês podem me chamar assim também”. Acho estranho esse tipo de apelido, em que “todo mundo só me conhece assim, e estão todos liberados para me chamarem assim”. Mesmo que o próprio apelidado divulgue o apelido. Eu acho um desserviço. Se eu possuo um nome civil, de conhecimento de todos, para que fazer com que todos me chamem de outra forma? Eu acho que isso afasta a pessoa dela mesma, criando, como eu disse, uma espécie de personagem perante a sociedade.

O terceiro tipo de apelido é aquele em que somente pessoas próximas te chamam assim. E que se origina de forma quase espontânea. Desse eu gosto. Você convive com algumas pessoas e, de repente, essas pessoas passam a te chamar através de um apelido, dado o nível de intimidade que elas ganharam com você. Acho muito bacana.

Aconteceu isso comigo em São Paulo. Na verdade, não ganhei bem um apelido; é apenas o diminutivo do meu nome: Renanzinho. Quando eu me dei conta, todos os meus amigos de São Paulo estavam me chamando de Renanzinho, inclusive no ambiente de trabalho. Cruzo com eles no corredor e vem um “e aí, Renanzinho, beleza?”. Raramente esse grupo de amigos me chama de Renan. E não sei quem foi o primeiro a me chamar de Renanzinho, e nem sei dizer precisamente quando surgiu. Mas eu gostei.

Um dia, me deu uma curiosidade e eu perguntei a um dos meus amigos se havia algum motivo especial para o “Renanzinho”, já que eu não sou um cara baixo. E então esse amigo me olhou, deu dois tapinhas no meu ombro e disse: “é apenas carinho, rapaz; a gente gosta de você”. E aquela resposta foi tão sincera que eu passei a gostar ainda mais do Renanzinho.

E assim eu acho bonito. Quando um apelido serve para seus amigos te caracterizarem com intimidade. Assim como acontece com nomes abreviados ou mesmo com apelidos que nada têm a ver com o seu nome. Renanzinho (assim como “Rê”, “Nanan”, “S”, e outros formas carinhosas com as quais pessoas próximas já se dirigiram a mim) indica mais proximidade com o Renan do que o próprio nome Renan. É como se meus amigos me conhecessem um pouco mais e o apelido sintetizasse uma permissão a mais. O que seria o contrário, caso eu viesse para São Paulo com um apelido antigo e falasse “amigos, me chamem de tal jeito!”. Percebam como é diferente. Nesse caso, o apelido parece me afastar (e os afastar) do Renan.

Nós carregamos a força do nosso nome de registro. Ele nos representa perante o mundo. Mas até que é legal existir um termo que nos designe de maneira especial para pessoas que são mais importantes. Principalmente quando ele parte dessas pessoas, que são movidas pelo carinho e amizade que sentem por você.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Considerações pessoais sobre 2014: um ano de rupturas


Este blog não é um diário virtual, mas neste texto eu gostaria de falar um pouco sobre a minha vida em 2014. Algumas coisas mudaram. Eu poderia dizer que tudo mudou, mas ‘tudo’ é muita coisa, e eu acho que pelo menos a gente não muda tanto assim em 1 ano. Na verdade a gente passa a se conhecer melhor, e talvez isso se confunda um pouco com mudança.

2014 foi um ano de rupturas. Houve rompimentos com coisas com as quais eu já estava acostumado e que estavam muito enraizadas na minha vida: saí da casa dos meus pais, terminei um vínculo de quase 9 anos com a minha universidade, e perdi um relacionamento. Discorro sobre esses pontos nas linhas a seguir.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A pessoa para quem você quer ligar

 

talk please

Sempre achei a troca de cartas algo muito romântico. Troquei algumas quando mais novo. Eu não estava vivendo nenhum romance na época; eram cartas de amizade. Mas, como a amizade é uma forma de amor, não posso dizer que não eram cartas de amor. Aliás, pensando bem, todas as cartas que uma pessoa escreve especialmente para outra são cartas de amor.