sábado, 23 de fevereiro de 2008

Sunguinha amarela

Edward A. Murphy era um nerd. Pra começar o cara era engenheiro (para os ofendidinhos de plantão que não gostam do estereótipo, eu estudo engenharia). Mas isso é o de menos. O problema é que ele não via os fatos da vida como eventos aleatórios, coisas totalmente desprendidas de leis. Segundo o link para a wikipédia que eu botei aí em cima, seu ramo da engenharia era a aeroespacial. Então qualquer merda que dava nos foguetes, ele não ficava puto e não aceitava o fato de uma forma “tudo bem, aconteceu, porra, fazer o que né?” como qualquer pessoa. Não, ele fazia questão de buscar evidências para postular uma lei que traduzisse as desgraças que ocorriam no seu ambiente de trabalho, e de maneira mais geral, com a vida de todos nós. Como estudante de engenharia que eu sou, se a Lei de Murphy fosse mais uma lei baseada em matemática e física de maneira maçante e complicadinha como as diversas leis que eu aprendi, aprendo e vou aprender ainda no meu curso, eu ficaria com raiva desse cara. Mas não, eu diria que a Lei de Murphy é até uma forma de entretenimento, algo cômico, que todos gostam de mencionar quando acontece alguma merda em suas medíocres vidas.

Enfim, pra quem não sabe, a lei diz o seguinte: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”. Existem outras frases que formulam essa lei, mas acho essa a melhor. Legal né? É impossível não esboçar um sorrisinho ao ler essa formulação.

Partindo então dessa introdução, segue abaixo o meu conto, que é uma outra história engraçada da minha vida que eu queria contar. Como você já deve ter percebido, vai dar merda.

Um belo dia, há uns 2 ou 3 anos atrás, Karina, uma amiga e minha afilhada de Crisma, me chamou pra sua confraternização de conclusão do curso Normal de professores numa espécie de sítio (vou chamar de sítio mesmo) em Nova Iguaçu. Pra quem é da região e deseja maiores informações, fica na Estrada de Madureira, bem pra lá da UNIG.

Aceitei o convite de imediato, e no dia do tal lazer, acordei bem cedinho, arrumei minhas coisas, coloquei minha sunga amarela na bolsa, afinal toda confraternização em sítio que se preze tem que ter piscina (além de churrasco), e assim fui ao encontro da galera que ia, sem saber que naquele dia, Murphy, lá do céu (ou do inferno) olhava pra mim de uma maneira diferente.

Chegamos no sítio, um lugar bastante agradável. Um fato curioso era que aquela deveria ser uma reunião de mulheres praticamente, já que esse curso tem infinitamente mais mulheres do que homens. Mas o que mais se via lá era homem, provavelmente os namorados e os solteirões em busca de carne fresca disponível. Bom, vimos a piscina, tava calor, e então todos ficamos de trajes de banho e pulamos na água. Aí foi aquela farra padrão de sítio com churrasco e piscina. Brincadeiras de vôlei na água, comida e bebida pra galera, mulher pagando peitinho, casalzinho se pegando, música... enfim, um dia como eu esperava que fosse. Até que então eu cismo com algo.

A merda que aconteceu comigo no conto anterior ocorreu porque eu cismei com meu primo que queria dormir do lado da beliche (se não leu este conto, leia oras). E neste foi porque eu cismei com um morro que tem lá. Sim, um morro, tipo uma colina, onde ficam os bois, umas cabras, muito verde... ahh, você imagina como é. E tem foto lá embaixo dele vista do alto. Mas depois você vê. Guenta ae. Sabe, eu sempre tive espírito aventureiro e sempre gostei dele, mas dessa vez isso me causou danos. Eu queria subir o morro, numa expedição exploratória, até uma cachoeira, que segundo um pessoal lá, existia e era boa pra tomar banho. Mesmo que não tivesse cachoeira, eu queria subir o morro, porque... sei lá, sou um babaca que gosta de se cansar à toa e procurar sarna pra me coçar. Enfim, fiquei um tempão falando sobre o tal morro, numa cisma incontrolável. E acho que mais alguém também estava afim de ir, e deu coro à minha babaquice. Até que uma hora o povo decidiu partir para aquele, que seria, um dos maiores micos que eu pagaria na minha vida.

Preste atenção nessa parte: TODOS, antes de partirem, cobriram seus trajes de banho. Os muleks colocaram bermudão por cima das sungas. As meninas colocaram vestidinho, canga, saia... TODOS fizeram isso, menos quem? Adivinha? Chuta. EU, claro! Nem me liguei nisso. Afinal, só iríamos subir um morro pra tomar banho numa cachoeira e iríamos voltar depois, não é mesmo? Pra que botar bermuda? Eu hein. Fui com a minha sunga amarela somente, amarradão.

Começamos a aventura. O morro parecia mais baixo visto lá de baixo. Tivemos certa dificuldade pra subir e numa hora lá, não me lembro porque, o grupo se subdividiu em dois. Eu também não me lembro bem qual era o meu grupo na expedição. Só tenho certeza de três pessoas que estavam comigo: Juliana (irmã da Karina), Caio (namorado da Juliana) e Felipão (amigo em comum). Enfim, caminhamos na mata, pulamos arame farpado, enfrentamos cavalos, bois, dragões, pokémons... chegamos no topo do morro, passamos por uma florestinha na descida (do outro lado do morro já) e escutamos barulho de água corrente. Só que a tal parte da cachoeira boa pra se banhar ficava meio longe ainda. Caminhamos até um pouco, mas a gente se cansou, e a aventura já estava durando muito tempo e o céu ficando meio feio. Então, decidimos voltar até uma roça com um casebre que tinha do outro lado do morro, e que a gente havia passado por ela no caminho até a maldita cachoeira.

Ao chegar na roça, observamos que dentro do casebre, havia uma televisão de 29 polegadas com uma imagem bem nítida, típica de TV por assinatura. No meio do mato? Estranhíssimo. Mas tudo bem. Pedimos um pouco d´agua pro morador (ou moradora, não lembro), que trouxe uma garrafa, e a água estava mais amarelada que mijo de gente que não bebe água há dias misturado com refresco TANG de abacaxi. Desconfio muito daquele líquido ainda. Mas tudo bem, também. A gente não podia reclamar muito. As nuvens estavam se formando e precisávamos voltar. Perguntamos como faríamos pra voltar, sem ser pelo morro, já que o pique pra voltar a subir havia sumido. A pessoinha lá disse que bastava seguir uma estradinha de terra (que nos foi mostrada) até o fim, e no final dela, ficava a Estrada de Madureira (estrada principal), e assim, voltaríamos por ela até o sítio.

Muita calma nessa hora. Veja a imagem.



A seta azul indica onde é o sítio. A seta vermelha indica uma parte da cidade de Nova Iguaçu. Ou seja, um local comum, com casas, padaria, farmácia, carros, ônibus e, principalmente, pessoas devidamente vestidas, já que aquela não é área de banhista. Já ta imaginando né? Vai rindo aos poucos.

Agora veja esta mesma imagem, mas sob outra análise.


Em azul está o trajeto que seguimos na aventura. O ponto vermelho é onde paramos pra beber água, na tal roça com um casebre e uma televisão não adequada para o local. Em verde está o caminho que faríamos na estradinha de terra até a estrada principal. E em amarelo (homenagem à minha sunga), está a estrada principal.

Eu não percebia o que me esperava mais pra frente. E pelo jeito, nenhum dos meus companheiros de equipe. Ninguém comentou nada. Mas você, leitor, ta percebendo a merda que deu né. Pois é. Caminhamos, assim, felizes e conversando... até o ponto preto da figura.

Chegamos nesse local, e a civilização do nada apareceu na nossa frente. Neste exato momento eu percebi. Parei. Fechei meu olhos. Respirei fundo. Olhei pra baixo. Vi minha sunga amarela. “Aiiiii”, pensei. Gelou minha espinha na hora. Meu coração palpitou. Felipão me viu arredio. Percebeu a situação também. Câmera lenta. Ele olhou pra minha cara, e sua face foi lentamente saindo de uma postura séria e cansada, e tomando formato de “vou rir pra caralho”. Seu dedo foi apontando pra mim. Uma das meninas foi colocando a mão na boca numa espécie de “Ai, Renan, tadinhooo”.

Câmera normal. Felipão grita:

“SE FUDEUUUUU, HAHAHAHA”

Eu comecei a andar, com as pernas meio bambas. Não tinha jeito. Tinha que encarar. Pegamos a estrada principal e ali começou a minha via-crúcis. Agora imagine você, de sunga (ou biquíni), na Central do Brasil, por exemplo. Se fosse em Copacabana, beleza. Tem praia. É natural. Agora, naquelas condições, é obvio que iriam rir de mim até eu chegar no sítio. E foram 1,7km (pra dar mais ênfase, 1700 metros - MAIS ênsfase, mil e setecentos metros – fonte: Google Earth) caminhando de sunguinha amarela e TODOS que estavam na rua olhavam pra mim. Aí, Murphy, lógico, não poderia deixar barato. O local estava mais movimentado que de costume. Passava um ônibus e eu ouvia: “Viaaaaado”. Passava um carro: “Boiolaaaaa”. Era gente do outro lado da rua que gritava: “Uhuuuuuu”. Passei por um grupo de muleks vagabundos e um deles disse pro outro: “Se eu pego uma porra dessa, meto a porrada até morrer”. Tipo, o que as pessoas estavam pensando? Que eu fui pro mato fazer meinha e estava voltando, exibindo meu corpo magro e tentando fisgar mais macho? Ninguém merece. Foi brabo. Kombis e vans buzinavam enlouquecidamente. Mulheres gritando, caçoando sem piedade. Uma criança apontando, e sua mãe falando algo. Provavelmente o diálogo era: “Alá, mamãe. Moxo de Xunga”. “Pois é, meu filho, nunca fique assim na rua, que é muito feio”. Só sei que eu fui a piadinha do fim de tarde dos trabalhadores de estabelecimentos do local.

E aí você me pergunta: “Renan, você disse que o tempo estava ficando feio. Afinal, choveu?”. E eu respondo: Rá, adivinha? Murphy era sábio demais. CLA-RO que choveu. Não foi uma chuuuva. Mas chuviscou bem chatinho, e ficou mais frio. E eu, fiquei andando, de cabeça baixa, abraçando meu corpixo, cheio de frio, enquanto Felipão, do meu lado, ria com as zoações que eu ouvia. Lógico, eu não condeno. Faria o mesmo. Aliás, quero agradecer aqui o Felipão, que ficou do meu lado o trajeto todo, mesmo eu pagando mico, e com risco de respingar nele. O restante do povo ficou um pouco mais pra trás, porque eu estava andando muito rápido pra chegar logo. E demorou assim mesmo, viu.

Enfim, acabou o meu tormento. Cheguei no sítio. Botei uma roupa. E fiquei um bom tempo lá ainda, contando do mico pro povo que não estava sabendo (faço questão mesmo) e descansando. Até que um tempinho depois do ocorrido, eu fiquei com fome, com vontade de comer biscoito recheado. Como eu não tinha levado nada, tive que ir comprar. Dessa vez, vestido. Saí do sítio e caminhei até a padaria mais próxima, lá na civilização (Sim, ainda tive coragem de voltar lá depois, afinal, o povo deveria ter esquecido e muita gente que me viu estava só de passagem na rua naquela instante). Ao entrar no local, escolhi o biscoito, dei o dinheiro pra atendente, que me olhou estranho. Ela contou o dinheiro, meio que rindo. Pegou o meu troco, colocou na minha mão, mas sem largar, e perguntou: “Você é o menino que passou aqui ainda a pouco de sunguinha amarela?”. Todos os outros que estavam na padaria me olharam. E eu, ao guardar o troco e o biscoito, respondi: “Sim”, timidamente. E a moça então, disse:

“Deu um show hein. Hahahahahaha. ARRAZÔ”, bem alto.

Ui. Murphy fdp!

3 comentários:

Mauro de Bias disse...

Noooossa, queria muito ter testemunhado isso. Mas não tem problema, ainda vou te ver pagando muitos micos nessa vida.

Ótima história!

Paula disse...

Essa foi a melhor, Renan!
Fiquei imaginando a cena! hauhahauhau
bjsss

Daniele disse...

hahahaha Nessa você se superooou!!!
Não me contive, dei gargalhaaadas aqui.
Arrazô!!! kkkkkkkkk