quarta-feira, 12 de março de 2008

Pet Renan - Parte I

Toda criança quer ter um bicho de estimação. Se não quer, é porque não é mais criança. Se é criança, mas não quer ter um, é porque não é normal. Fato!

E eu não fugi a regra. Adorava cuidar de um pobre ser vivo indefeso. E não posso reclamar. Tive todos os que eu quis. Tudo bem que eu tinha (e tenho) sorte, afinal, minha casa tem um quintal enorme, e que há algum tempo atrás era de terra e abrigava trocentas árvores. Hoje está encimentado e só restou um coqueiro no meio, que em conjunto com a lua, forma uma visual bem legal, parecido com um oásis no deserto à noite. Ah... Imaginem como seria um oásis no deserto à noite. Eu consigo.

Mas o fato é que ter um bom quintal e um pai que é filho de mineiro vindo da roça, adepto a criação das bicharadas (meu vôzinho que já não está mais entre nós), foi fundamental para que eu tivesse um zoológico em casa. Outro detalhe é que esse meu avô morava no quintal de baixo junto com a sua segunda esposa, que eu chamo de tia e que ainda mora lá. E ela também sempre gostou de criar animais.

Para vocês entenderem melhor, aqui está o esquema dos quintais, beeeem esboçado.

O portão indicado na figura geralmente ficava aberto, facilitando o tráfego de seres.

Enfim, o propósito deste post é falar sobre as adoráveis criaturas que já viveram e ainda vivem com minha família, comendo de graça e sem precisar pagar IPTU.

Os que já se foram...

Luky

Um belo dia, meu pai chegou em casa com um filhote de cachorro preto, metade vira-lata e metade Collie, debaixo do braço. Luky foi o primeiro animal que tivemos. E eu meu primo Mauro tínhamos seis e cinco anos (eu acho), respectivamente, na época, e éramos dois pirralhos atentados.

Fácil crer que Luky sofreu em nossas mãos. Puxávamos o rabo dele, cutucávamos o bicho com pedaço de pau, e até tapa de graça o infeliz recebia. Isso fez com que o inocente canino crescesse com um trauma de criança mais que justificável. Bastava um pentelho aparecer na frente dele, que o cão mudava seu olhar calmo e sereno para um olhar de ódio mortal, doido para esganar a pobre miniatura de gente com sua sede por vingança. Ele realmente tomou raiva de qualquer criança.

Meu irmão mais novo, Lucas, sofreu esse ódio na pele anos mais tarde. Uma vez estava eu na sala vendo TV e minha mãe na cozinha, quando então Luky emite um som assombroso de quem está estraçalhando alguém no quintal. Eu e mother imediatamente corremos até o local, mas ela escorregou e caiu no chão, e eu então fui o responsável pelo salvamento do meu mano das garras do enfurecido cachorro. Lucas ganhou uma bela dentada no couro cabeludo e até hoje exibe uma cicatriz.

Luky morreu anos mais tarde, vítima de uma infecção maluca generalizada e, provavelmente, de raiva, muita raiva... de gente pequena.
Ta, ok, eu fui mal.

Tieta e Catita

Eram as cadelas do meu avô. Mãe e filha, respectivamente.

Tieta chegou lá em casa ainda filhote um pouco depois do Luky, seu futuro parceiro sexual. Tempos mais tarde, rolava acasalamento por todo o lado entre eles. E eu, curiosamente, ficava observando os dois, agarradinhos, de quatro, se amando em plena luz do dia (by Mamonas Assassinas). Numa dessas cruzadas sensacionais, Tieta embuchou, e meses depois, deu à luz a Catita e a mais uma penca de vira-latinhas.

Catita era uma verdadeira cachorra. Sim, uma vagabunda. A maior que já existiu no bairro. Ô bicha pra gostar de dar. Seu lema era: “Dou muito e para muitos”. Várias vezes ao sair de cada pra ir pro colégio, eu me deparava, no portão, com um bando de cachorros fissurados na danada no cio. Mal eu podia sair. Tinha que abrir a torneira do quintal e jogar água naqueles pulguentos infelizes. Isso quando eu não chegava lá, e Catita já estava se enrabando com um qualquer, com a língua pra fora e uma expressão de prazer que me dava nervoso.

Tipo, meu avô era da roça. Então ele não ligava pra essa coisa de castrar e nem de proteger a canina como filha. Era só a vacina anual e olha lá. Por isso, Catita ficou prenha varias vezes, e sabe-se lá quem eram os papais. Os filhotes eram dados, e então a piranha voltava a ficar livre para mais um ciclo de orgias com seus amiguinhos da vizinhança.

Tieta ficou cega, e teve um tumor maligno que lhe tirou a vida aos 13 anos de idade mais ou menos. Nos últimos dias de vida, o troço já estava tão avançado que você não via mais a cadelinha. Via só uma bola crescendo cada vez mais e parasitando o corpo da coitada. Tieta já não tinha mais um tumor. O tumor que tinha a Tieta.

Catita morreu no mesmo ano, após sua ultima ninhada, adivinhem de que? Infecção na xerequinha! Deu bicho. Claro! Nada mais obvio para uma cadela meretriz profissional. Cachorros da vizinhança uivaram por dias após sua morte.

Touché e Sacha

Eram as duas tartarugas (jabotis na verdade, mas tartaruga é um nome mais legal) da minha tia. A primeira era a mais velha, mas elas não tinham relação de parentesco.

Touché tinha um hábito particularmente bizarro o nojento. Ela comia cocô. Sim... cocô, fezes, merda... isso mesmo. Mal os cachorros cagavam e lá estava ela, fazendo o seu lanchinho da tarde, toda feliz, antes mesmo que algum humano pudesse detectar a bosta e limpar a sujeira. Isso porque ela era uma tartaruga.

A bicha gostava da coisa mesmo. Várias vezes a gente passava pelo portão que dividia os dois quintais, e encontrávamos Touché, virada com o casco pra baixo, porque havia tentando subir a escada pro meu quintal em busca do cocô do Luky, que deveria ser mais saboroso, já que ela persistia tanto. Ta, tudo bem, às vezes era eu que a virava. Mas sabe, ela era um animal feliz. Imagine você num lugar amplo, e ao seu horizonte surgisse um montinho de chocolate quase da sua altura. Era isso que acontecia. Legal não?

Sacha era mais caseira. Ficava geralmente dentro da casa da minha tia e do meu avô e era bem mais limpinha. Não tive tanto contato com ela como tive com a Touché. Alias, voltando a falar dessa ultima, não sei qual foi o fim dela. Deve ter se afogado em alguma caganeira. Já o de Sacha foi trágico.

Sacha tinha a mania de dormir na garagem, debaixo do carro. Certa vez, meu pai saiu para trabalhar, deu a marcha ré e... PLOC! Ploc? Uma pedra? Quase... Era a pobre da Sacha, meio amassada, sangrando. Horrível não? Pois é. Ela foi enterrada no quintal mesmo. Será que o casco fica como fóssil?

Peixes

Foram tantos, que não sei quantificar. Volta e meia eu voltava da rua com um saquinho plástico com água abrigando um peixinho colorido. No início, eles morriam no mesmo dia. Eu não sabia cuidar, e enchia de comida. Entupia mesmo e água ficava muito suja, cheia de partículas, e eles morriam. Depois fui aprendendo, e eles passaram a durar mais... uma semana. Tipo, eu tinha compulsão por comprar peixes. Eu ia à loja, sabia que eles iam morrer, mas comprava. E eu nem ficava feliz em ter peixinhos no aquário. Foram os bichos que eu menos gostei de ter. Isso porque era muito baixo astral chegar do colégio e ver os pobrezinhos de olhos esbugalhados, barriga pra cima, boiando na superfície.

Desisti de peixes, mas usei o aquário para...

Hamster I (sem nome)

Ah, o primeiro hamster a gente nunca esquece. Era a febre dos tais ratinhos na época. E eu, lógico, providenciei o meu. Só esqueci da gaiola. Mas isso não era problema. Usei o aquário como habitat do rato. Sim, eu criava um hamster num aquário... sem água, claro. Foi o primeiro bicho que eu me apeguei de verdade. Durou pouco tempo, pois ele cresceu, e o aquário (que já era pequeno) se tornou pequeno demais pra ele e o danado conseguiu escalar e fugir. Resultado: voltei da escola e ele já não estava mais lá. Passei o dia todo chorando e procurando-o. Acusei minha mãe e meu irmão na época, haha.

Periquitos

A criação desses passarinhos tomou uma proporção imensa. E o final dessa historia é bem filme terror.

Minha prima Ane tinha um casal de periquitos. Uma vez fomos na casa dela e meu pai perguntou: “Qual o nome do periquito?”. “Não sei”. “E da periquita?”. “Sei lá”. E ficaram esses nomes mesmo, Não Sei e Sei lá. Por algum motivo, ela deu os pássaros pra mim, junto com a gaiola. E lá fui eu com a periquita da minha prima na mão e com o meu novo periquito, todo contente.

Somou-se a Não Sei e Sei lá mais um casal dessas aves em meu lar (e agora eu sei rimar). Só que em outra gaiola. Querendo misturar logo todo mundo, numa bela manha de sábado, meu pai começou a construir o que seria, horas depois, um viveiro. Ficou enorme e bem legal. E foi pra lá que foram os casais.

Sentindo-se felizes por terem mais espaço, logo as aves começaram a procriar violentamente. Os periquitos eram a atração de quem ia lá em casa. A gente podia ver dentro de casinha de cada casal, os ovos colocados pela fêmea. E depois, acompanhávamos o nascimento e desenvolvimento deles. Era bem interessante ver a mistureba de cores que saía em cada bicho. Um deles saiu deformado. Ele não podia voar e era o mais feio. Eu o odiava. O mais bonito era um que tinha uma mistura de cor branca com azul claro. Coloquei, modestamente, o meu nome nele.

Tudo estava indo muito bem, até aquela noite...

Fomos dormir, e na manha seguinte, o susto. O viveiro tinha um buraco. Havia um periquito morto no chão, e um só com a cabeça! O mais bonito tinha sido comido ou havia fugido, e uns três se encontravam escondidos ainda lá, assustados. Provavelmente um gambá ou um gato tinha feito a festa durante a noite. Foi frustrante demais ver aquela cena terrível. Um dos três era o deformadinho... Imaginem só, ele escapou. Que lição de vida eu tomei.

Meus pais e eu ficamos desanimados e demos esses que sobraram pra uma vizinha.

Codornas

Apareceram lá em casa na onda dos periquitos. Também eram criadas no viveiro, junto com eles. Eram carecas, porque os periquitos gostavam de surfar em cima delas e ficam puxando a penugem da cabeça. Colocavam, cada uma, um ovo por dia. Minha refeição de todo santo dia naquela época era: arroz, feijão, mais alguma(s) coisa(s) e ovo de codorna.

Uma vez, fui brincar com uma delas. Jogava ela pro alto e ficava observando-a planar, batendo as asas, até pousar. Até que uma hora lá, eu joguei pro alto, e ela planou, só que atravessou o muro do vizinho. Ao perder a galinha de vista (desapareceu atrás do muro), ouvi os latidos do cachorro gigantesco da vizinha. Nunca mais a vi.

As codornas foram dadas com os periquitos restantes da terrível chacina.

Ainda faltam mais seis. Cansei de escrever agora.
Postarei depois.

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