domingo, 21 de dezembro de 2008

A periquita

Quero postar com frequência nessas férias. Segue abaixo um conto, nascido das profundezas da minha imaginação insana.

Aconteceu no interior de Minas Gerais. João Alface estava arando parte do seu terreno para uma futura plantação de mandioca, quando de longe, sua filha de 15 anos, Mariazinha, aparece correndo em sua direção aos prantos e berros.

- Papai, um moço da cidade grande mexeu na minha periquita!

João diz, espantado e em voz alta:

- Má cumé qui é?

- Sim, papai! Ela estava agitada, aí fui até esse moço, porque dizem qui ele poderia arresorvê o pobrema.

João então, nervoso, dá um tapa na cara de sua filha, e diz:

- Sua assanhada, filha duma égua! Me conta agora sua safada, o que ele fez com você!?

Mariazinha, gritando:

- Buáá, ele nem deixô eu falá muito! Já foi logo colocando os dedos dele.

- Ara, cabra desgraçado! Aparpar dessa maneira um ser inocenti. Mar bem feito! Quem manda ficar agitada!

- Ah, papai, mas eu tô tão triste! Buáá! Ele depenou ela todinha!

- Depenou!!?

- Todinha. Ela estava com uma penugem tão bonitinha. Agora tá toda carequinha! buáááá!

João cria um expressão de revolta, seus olhos ficam vermelhos de ódio, enquanto Maria continua:

- E ele ainda disse que quer observar ela mais vezes!

João, bufando, deixa suas ferramentas de aragem na terra, pega sua filha pelos braços, e a passos largos e firmes, vai até a vila, no local indicado por ela, onde se encontra o tal moço. Chega enfurecido, abrindo a porta com violência, e assim que sua filha diz quem é o rapaz, aponta o seu facão para ele, e diz:

- Que história é essa de mexer na periquita da minha filha!?

- Ah, boa tarde, senhor. Lembro da sua menina. Me mostrou a periquitinha agitada hoje mais cedo. Ela estava incontrolável - disse o rapaz, esboçando um sorriso.

- Mas é muito descarado mermo! Como cê tem coragi de dizer na minha frente que olhou a periquitinha da minha filha!?

- Mas isso não tem jeito, meu senhor. Uma hora ela tinha que mostrar para alguém.

- Mostrar pra alguém!? Qui cê tá pensando qui mia fia é, cabra da peste!? E ainda aparpou!

- Pois é, tive que usar a mão, e fazer movimentos suaves. Mas até que ela se acalmou na hora.

- Ahhh meu pai do céu! Sujeitinho abusado... tão abusado que ainda depenou todinha.

- Depenei. Após apalpar bem, descobri que tinha um machucadinho ao lado do olhinho dela.

- Do olhinho!?

- Sim. Aí depenei logo de uma vez para evitar infecção, examinei o olho, e depois tive que fazer curativo sobre ele, pois deve ter ficado dolorido. Mas quero examinar mais vezes, por alguns dias.

Nesse momento, João, transbordando em fúria, parte para cima do sujeito com seu facão. Só nao o atinge, porque o rapaz se esquiva na hora certa. O facão cai. Mas João, determinado a acabar com a raça dele, golpeia-o com socos na cara e chutes no traseiro. Mariazinha somente olha a cena, espantada. O rapaz, gemendo de dor durante o espancamento, grita:

- Mas que mal eu fiz em atender uma menina com um bichinho numa clínica veterinária!?

- Do qui cê tá falando, seu mardito!? Clínica veternária!? - Pergunta João, cessando a porradaria.

O rapaz, ainda caído e sendo segurado por João, responde, em voz alta e trêmula:

- Sim, seu maluco! Isso aqui é uma clínica veterinária se você não percebeu. E eu sou o veterinário. A única coisa que fiz foi cuidar da bichinha que a sua filha trouxe para eu ver! Agora me solta!

João então larga o rapaz no chão. Olha para sua filha, e diz:

- Minha fia, ocê tava falando da periquitinha que papai te deu no seu úrtimo aniversário?

Mariazinha responde, choramingando ainda:

periquita- Sim, papai! Há dias ela andava mais agitada que o normal. E eu não sabia o que poderia ser, uai. Aí trouxe no moço intendido que chegou da cidade grande esses dias. Mas aí ele tirou todas as penas dela, e eu fiquei muito triste. Só que agora ouvi que era apenas pra não infe.. infexi.. infenar.. in..

- INFECCIONAR! - grita o veterinário, se levantando aos poucos, todo dolorido. - Bem que meus amigos da pós me avisaram sobre as loucuras que é vir trabalhar na roça pra ganhar experiência. Recém-formado sofre, viu! E aqui está a periquita! Que saber, não quero mais deixar em observação droga nenhuma. Levem-a para casa, e tomem aqui esse papel. É a receita com o remédio para sarar o machucado, que provavelmente era o grande motivo pela agitação da ave.

João, com uma expressão de arrependimento, coloca a mão na testa suada, se dirige até o rapaz e lhe dá um abraço.

- Ó meu bom rapaz, peço discurpas por essa injustiça que fiz procê. Eu intendi tudo errado. Pra mim ocê tava bolinando mia fia. Como posso lhe pagar?

- Deveria pagar mesmo! Mas não! Nem a consulta cobrei, e não vou cobrar por causa desse mal entendido, apesar de que vai me custar várias idas ao fisioterapeuta, aiii - responde o doutor, colocando a mão na coluna.

- Ah, mas isso não pode ficar assim. Uma alma tão caridosa como o sinhô, não cobrou nada de minha fia, e ainda faço isso com ocê. Não! Vamos fazer assim. O sinhó está convidado a ir jantá em minha casa hoje. Isso mesmo, será uma honra receber o sinhô. Por favor, deixa eu tentar retribuir pelo menos um tiquinho sua generosidade e paciênça.

Tentando hesitar, mas sem conseguir, o rapaz aceita:

- Tudo bem, eu apareço. À propósito, meu nome é Daniel.

João então diz para sua filha, com empolgação.

- Minha fia, vá correndo até em casa e mande sua mãe matar o nosso maior porco, pois quero que o dotô Danier desfrute de um delicioso banquete, como forma de agradecimento e discurpas.

À noite, Daniel aparece pontualmente na casa de João. É recebido com alegria. A mãe da menina, Dona Mariazona, já ciente de todo o acontecimento, o abraça calorosamente, e mande que fique à vontade.

É servido um delicioso porco com uma maçã na boca. Todos comem, conversam e divertem-se. João conta para Daniel suas dificuldades e alegrias no trabalho com terra, e o rapaz se diverte relembrando histórias da infância e adolescência. Até que, em em certo momento, João diz:

- Mariazinha, minha fia, vai mostrar a periquitinha pro dotô. Acho que ela já melhorô bastanti desde hoje à tarde.

- Tudo bem, papai - responde a menina.

Os dois então se levantam da mesa, e deixam Dona Mariazona e João desfrutando dos últimos pedaços do suíno.

Quase uma hora depois de ausência, Mariazinha e Daniel retornam... suados, descabelados, amarrotados, e com expressão de sorriso e satisfação em seus rostos. João vê os dois, e após alguns segundos sério e de olhar fixo para eles, vira-se para a mulher e diz:

- Tá vendo, querida! Isso é qui é rapaz caridoso. Ficou esse tempo todo examinando a bichinha, preocurpado com a recuperação dela.

Ele olha novamente para os dois, e completa:

- Ára, ocês istão suados. Faz muito calor aqui na roça mermo. Deixa eu abrir as janelas pro rapaz Danier si refrescá.

E foi assim. Daniel ainda voltou mais três vezes para examinar a periquita de Mariazinha, antes de partir de volta para a cidade grande. Suou, se amarrotou, não cobrou nenhuma das visitas. Seu único pagamento foram dois frangos e mais um porco, sacrificados para alimentá-lo em cada jantar... "um rapaz tão bondoso!", repetia João toda hora.

Um comentário:

João Felipe disse...

Vc queria era morar na roça, né?