sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Analisando o Funk

Afinal essas letras tão bem elaboradas também merecem uma análise profunda.

"Eu vou passar cerol na mão, assim, assim
Vou cortar você na mão, vou sim, vou sim
Vou aparar pela rabiola, assim, assim
E vou trazer você pra mim, vou sim, vou sim"

Cerol na mão - Bonde do Tigrão

 
Nesse trecho da canção Cerol na Mão, o Bonde do Tigrão passa a mensagem de que o homem é o fator atuante no início de um relacionamento afetivo através de uma interessante analogia com a típica brincadeira do universo infanto-juvenil, onde a mulher é Bonde do Tigrãoretratara como uma pipa que precisa ser abordada (cortar na mão), conquistada (aparar pela rabiola) com charme e carisma (cerol na mão) e trazida para os braços do seu conquistador.

O trecho revela ainda a ansiedade do eu-lírico no processo de conquista, típica realmente das crianças e jovens, que ao soltarem pipa, visam ganhar  as outras que estão no alto. Essa ansiedade está retratada na construção "vou sim, vou sim", e pode ser considerada também como uma necessidade de auto-afirmação e confiança para atingir sucesso com a amada. Uma outra construção interessante é "assim, assim", que mostra claramente que o eu-lírico sabe lidar com as técnicas utilizadas para conquistar.

"Sou cachorra, sou gatinha
Não adianta se esquivar
Vou soltar a minha fera
Eu boto o bicho pra pegar"

Boladona - Tati Quebra-Barraco

 
Nesse quarteto, Quebra-Barraco explicita a postura de algumas mulheres no contexto do mundo contemporâneo, em contraposição aos versos do Bonde do Tigrão. É feita uma alusão ao comportamento que é resultado da revolução feminista dos últimos cinquenta anos, onde as mulheres saem de uma posição submissa em relação aos homens e tomam partido em seus relacionamentos.
 
No primeiro verso Quebra-Barraco atribui ao eu-lírico dois adjetivos que confirmam tal postura, valorizando atributos físicos e caracterizando sua essência como mulher. O segundo verso mostra a grande magnitude do poder feminino exercido sobre os homens, de forma que esses são incapazes de esboçar reações. O terceiro verso revela uma atitude auto-confiante que é favorecida pelos adjetivos mencionados no primeiro verso. O último verso resume de maneira interessante toda a mensagem do quarteto. Nele é apresentada uma consequência da atitude avassaladora do eu-lírico do verso anterior, concluindo que este possui grande poder físico e psicológico sobre um relacionamento afetivo.
 
"Passa, passa, esfrega nela
Vem que vem com arrasta ela"

Sabãozinho - Mc Sabãozinho

banhoerótico

Utilizando-se inteligentemente de poucas palavras, Mc Sabãozinho toma como ferramenta a ambiguidade para construir uma espécie de duplo sentido em sua poesia. O título da canção nos revela que o autor retrata uma situação cotidiana, em que uma mulher está se banhando acompanhada de seu parceiro. Os versos nos levam a crer que há uma terceira pessoa presente na cena e que esta participa ativamente dos fatos, estimulando a figura masculina a pegar o sabão (aparentemente) e dar banho em sua companheira.

Mas, como é de costume, pelo menos em nosso país, as pessoas banham-se totalmente despidas. Portanto, já no primeiro verso, o duplo sentido se faz presente. Sabãozinho não necessariamente se refere ao sabão em "esfrega nela", e sim ao pênis do homem. Daí, conclui-se que, em uma situação que poderia se passar de forma completamente ingênua, o autor impõe alto teor erótico, ordenando que o homem incite sua parceira ao sexo de maneira agressiva. O segundo verso trás a confirmação desse erotismo selvagem e é baseado em uma licença poética envolvendo o "com", que não seria conveniente caso a construção estivesse inserida em um texto não-literário (informativo, científico).

"Qué bolete!?
Então toma, to-toma, toma..."

Bolete - Mc Colibri

bolete Canção aos moldes de Sabãozinho. Também com poucas palavras, porém agregando o mesmo universo infantil de Cerol na Mão, Colibri imprime erotismo selvagem em sua letra, fazendo uso do duplo sentido. Dessa vez, a ambiguidade está em bolete, o nome de uma bala (doce) famosa da marca Dori.

Colibri faz um jogo com a pergunta "Qué bolete!?", pois na realidade ele não se refere à uma bala, e sim ao seu pênis. Pensando se tratar do doce, a segunda pessoa é incitada a responder positivamente, e é aí que está contida toda a idéia do jogo literário de Colibri. A réplica da primeira pessoa é oferecer seu órgão sexual de maneira debochada para que a segunda pessoa faça sexo oral (também conhecido como felação) nele. Essa dedução pode ser retirada do verso que sucede a pergunta e diz "Então toma, to-toma, toma...".

"Pra dançar créu tem que ter disposição
Pra dançar créu tem que ter habilidade
Pois essa dança ela não é mole não
Eu tenho que lembrar, são cinco velocidades"

Créu - Mc Créu

A arte da dança e do sexo se misturam nessa brilhante composição de Mc Créu. A palavra "Créu" nada mais é do que a onomatopéia da penetração peniana em determinada cavidade feminina. Portanto, o ato de dançar créu pode ser entendido como praticar sexo. Nos dois primeiros versos, Créu explica que existem dificuldades a serem superadas para se obter o sucesso na referida "dança". No terceiro verso, ele justifica o porquê dessas dificuldades, sugerindo em "não é mole não" que é de suma importância que o órgão sexual masculino esteja ereto. No último verso, Créu melanciaquer nos mostrar que há vários ritmos diferentes que podem ser imprimidos na "dança", e que esses dependem da disposição e habilidade de cada ser humano.

Em trecho diferente do apresentado acima, Créu se mostra insatisfeito por não conseguir executar a velocidade número cinco. Porém, tem como fonte de inspiração a Mulher Melancia, moça jovem e de grandes proporções, que o incentiva a buscar cada vez mais disposição e habilidade para satisfazê-la na "dança". É uma canção famosa, por ter apresentado ao país a abundante Mulher Melancia e desafiar a todos a executarem a sua velocidade máxima.

"Sessenta e nove, frango assado
De ladinho a gente gosta
Se tu não tá aguentando
Pare um pouquinho, ta ardendo, assopra"

69 frango assado - Tati Quebra-Barraco

Mais uma belíssima composição interpretada por Tati Quebra-Barraco. A cantora é conhecida por falar de sexo explicitamente, sem uso de analogias e construções ambíguas que possam suavizar a essência ultraerótica das letras. Enquanto Mc Créu mostra diferentes ritmos que podem ser impridos no ato sexual, nesse trecho da canção 69 frango assado, Quebra-Barraco explica as diferentes maneiras de fazê-lo. Portanto, podemos considerar esta como uma canção complementar à descrita anteriormente, fechando um ciclo de consistência poética.

Nos dois primeiros versos, o eu-lírico faz alusão ao Kamasutra e mostra-se aderente à prática. Nos dois versos finais, ele mostra uma maneira eficaz de lidar com o superaquecimento genital. Tais versos ainda sugerem que o eu-lírico tenha um furor sexual mais elevado que o do seu parceiro.

"Me chama de cachorra que eu faço au au
Me chama de gatinha que eu faço miau
Se tem amor a Jesus Cristo, demorô"

(indisponível)

freiraÉ a canção mais antiga de todas as que foram mostradas. Ela nos remete à imagem da mulher brasileira religiosa e submissa do início do século XX. Porém, o elemento religiosidade é maior que a submissão ao seu parceiro. Os versos mostram que o parceiro só terá toda a liberdade com sua mulher caso siga os ensinamentos critãos.

Por outro lado, observa-se que no primeiro verso, a mulher oferece seu vigor sexual, e só depois oferece seu charme e beleza. Essa ordem inversa no processo da união homem-mulher já mostrava uma tendência do pensamento revolucionário nas mentes femininas da época, em que desejavam livrar-se de parte de sua pureza. Utilizavam porém, o cristianismo, para esconder esses primeiros movimentos rumo à liberdade.

@@@@@

Eu até que escuto e danço alguns funks. Machado de Assis e Tom Jobim iriam se amarrar...

5 comentários:

Joyce disse...

A gente vai cantar cruising e dançar funk!ao mesmo tempo

Bernardo disse...

Pela saco da desciclopedia!

Dayana disse...

Você cantou cruising comigoooooooooo!!!!:p

Bia disse...

Cheguei aqui pelo blog do diego, gostei muito deste post, me lembrei da vez que uma portuguesa me perguntou o que era atoladinha e eu fiquei sem saber como explicar..

Shin disse...

Hahaha! É cada coisa hilária que encontramos... Espero que ser engraçado tenha sido a intenção. Inteligência e brilhantismo no funk brasileiro! Hahahahaha! O texto ficou excelente, deviam repassar à "Desciclopédia".