domingo, 30 de agosto de 2009

Guerra Fria


"Mais um ano de colégio começava e Lucas estava ansioso para rever seus amigos, ou melhor, seus súditos. Bonito, inteligente e carismático, Lucas era a popularidade em pessoa. Ele dominava tanto uma complexa equação matemática na aula de álgebra quanto os dribles do futebol nas aulas de Educação Física. As meninas o adoravam, os professores o estimavam e os outros garotos o invejavam. Lucas era uma estrela, um mito e um exemplo a ser seguido.

Mas ele não poderia imaginar que o seu reinado absoluto estaria ameaçado naquele ano. Já no primeiro dia de aula ouvia-se comentários sobre um tal de David, aluno novo. David tinha tudo para se tornar também uma personalidade de peso. David era um ótimo amigo, falava bem, vestia-se bem e tinha uma postura impecável. Seu brilhantismo acadêmico, aliados ao seu charme e jeito com as meninas, logo fizeram dele uma espécie de rival natural de Lucas.

As semanas se passavam, e cada vez mais David conquistava o seu espaço e fixava o seu nome entre os demais alunos. Apesar de ser julgado como perfeito, Lucas era humano, e passou a se incomodar com a crescente influência do novo aluno em seu território. Intrigas surgiam em ambos os lados fazendo com que o mau estar fosse inevitável. As moças que gostavam mais de Lucas passaram a ser chamadas de "luluzetes", e aquelas que gostavam mais de David, de "davidamas". A cada dia que passava, o colégio se tornava mais polarizado.

De início, tentavam se evitar. Um sabia do potencial do outro. Mas algumas vezes confrontos indiretos eram impossíveis. Certo dia, em uma aula de história, os dois protagonizaram um debate quente sobre Capitalimo X Socialismo por intermédio do professor, que ficou em êxtase. Nada foi concluído. Dias depois, dividiram o pódio de 1º lugar na competição interna de natação. O coordenador achou melhor considerar empate técnico para não haver encrenca. Em uma outra ocasião, disputaram a Aninha, a menina mais bonita do colégio. Aninha não era lá um exemplo de santidade. Queria ver o circo pegar fogo. Boatos rolaram de que ela havia se amassado com os dois no banheiro da diretoria (também não tão galinha assim... foi um de cada vez). Lucas e David confirmaram o fato, mas Aninha até hoje não relevou a ninguém, e nem mesmo aos dois, quem a pegou primeiro. Portanto, mais um empate.

Lucas e David jamais haviam conversado, jamais haviam ficado perto um do outro por mais de um minuto. Na verdade, mal se conheciam. Mas as circunstâncias faziam com que tivessem ódio um do outro. Só que a vida é uma caixinha de surpresas. No 2º semestre do ano, os dois se perderam na mata, em um passeio ecológico promovido pela professora de biologia. Ficaram desesperados. Não se sabe se foi por estarem perdidos ou por terem que ficar perto um do outro. O fato é que souberam ser mais inteligentes do que orgulhosos, e permaneceram juntos no mesmo local, esperando que os guardas florestais o encontrassem. Foi tempo suficiente para que começassem a conversar civilizadamente e descobrissem várias coisas em comum. Gostavam dos mesmos jogos de videogame e ouviam as mesmas músicas, por exemplo. O assunto entre eles já fluía bem, no meio de gargalhadas ao invés de medo, quando foram encontrados.

No outro dia, no colégio, chegaram conversando animadamente. As luluzetes e as davidamas ficaram confusas, os professores estranharam ao verem os dois sentados lado a lado e Aninha achou péssimo. As provocações terminaram. Logo se tornaram melhores amigos. Estavam mais satisfeitos e a tensão havia de dissipado.

Anos depois, Lucas e David abriram uma empresa juntos. Como eram inteligentes, logo souberam fazer dinheiro. Se tornaram bons pais família. Não alimentavam mais qualquer tipo de disputa entre egos. Haviam descoberto nos tempos de colégio o que tornava o outro tão popular, e dessa forma puderam se somar. Uma soma que só fez bem a todos. A empresa ganhava anualmente diversos prêmios. Estava engajada em campanhas sociais e ambientais. A sociedade agradecia.

Era uma vez Lucas e David...
Bonitos, inteligentes, carismáticos...
...e agora ricos, mais influentes, cada vez mais amigos, e em paz."

2 comentários:

Joyce disse...

Eu acho que o Lucas é o seu alterego!
Hahahahah
Beijos

Diego dos Santos disse...

Final feliz é sempre possível! Não há caretisses.
Mas não adianta, Lucas é o cara!