sábado, 5 de dezembro de 2009

A cabana

De todos os fatos da minha infância, o episódio da cabana talvez tenha sido o mais marcante de todos. Na verdade eu não era tão criança assim. Tinha uns 12, 13 anos na época. Mas acredito que tenha sido marcante justamente por causa dessa idade de transição.
Não posso começar a falar da cabana sem antes falar do Alan. Alan foi um moleque da minha idade que passou pela minha vida de forma rápida, mas que jamais vou esquecer. Se a história da cabana fosse um filme, o Alan seria o vilão. Um belo dia eu estava na rua brincando com o pessoal convencional da área, até que do nada surgiu um grupo de moleques que eu nunca tinha visto. Estavam de bicicleta. Um deles era o Alan, novo no bairro. Parece que um dos meus colegas da rua conhecia o grupo, o que os levou a conversarem conosco. O Alan parecia ser o líder deles. Era ele quem mais falava e o que ficava no meio de todos. Em algum momento da conversa, o Alan sugeriu que construíssemos uma cabana para podermos brincar... pura aventura de moleque.
Cabe aqui agora falar do Marcos Paulo. Posso dizer que o Marcos Paulo foi o meu maior amigo na infância. Talvez mais pelo tempo de convívio (garotos se mudavam para o bairro, outros iam embora, mas o Marcos Paulo sempre esteve lá) do que pelo sentimento de amizade de fato. Aliás, na infância ninguém fica se declarando amigo de alguém. As crianças só querem brincar e pronto. Tenho fotos minhas com o Marcos Paulo brincando aqui em casa. Bons tempos.
Enfim... eu estava meio arredio com a ideia do Alan, mas o Marcos Paulo gostou e ofereceu os fundos da sua casa para a construção do "empreendimento", desde que seus pais permitissem, lógico. Com a permissão dada, dias depois decidimos ir até a casa do Marcos Paulo e começar logo a brincadeira. Ao chegarmos lá, descobrimos por quê os pais dele aceitaram a "zona" tão rapidamente: o quintal dos fundos estava extremamente tomado por mato. E para fazermos qualquer coisa ali teríamos que capinar boa parte do terreno. Seria bom para eles. Nada que nos fizesse desanimar. Enxadas na mão, capinamos. E demorou dias. O terreno não é tão grande assim, mas sabe como é né... moleques, farra, falta de prática... demorou.
Durante esse tempo o Alan foi se tornando mais um amigo meu. Enquanto o terreno estava sendo preparado na casa do Marcos Paulo para receber a cabana, o Alan começava a frequentar a minha casa. Falava sobre cada coisa que me deixava constrangido. Uns assuntos meio pesados para a idade: sexo, crime, e outros assuntos de adulto. Não parecia ter a mesma idade que eu. Minha mãe o achava muito inteligente e gostava dele (isso porque ela não ouvia os papos estranhos dele). Mas de fato inteligente ele era. Só que a sua inteligência me assustava. Havia malícia no Alan. Apesar de me sentir um pouco incomodado às vezes, o Alan era simpático e se fazia uma companhia legal para brincar. Ele também sabia persuadir, e assim liderava, naturalmente.
O terreno havia ficado pronto. Estava bem legal. Num belo sábado de sol, cheguei à casa do Marcos Paulo, e lá estava o pai dele já ajudando a erguer a cabana. Nada de madeira. Foi feita com uma lona azul mesmo, daquelas que a gente coloca para cobrir parte do quintal quando está chovendo e queremos fazer churrasquinho. Ficou pronta no mesmo dia. Um espétaculo aos meus olhos infanto-juvenis. Era a brincadeira que mais tinha dado trabalho na minha vida. Após isso, passamos a ir na casa do Marcos Paulo todos os dias para brincar.
Nossa cabana ganhou um nome: "Toca dos Lobos". Mas parece que o nome não vingou. Ninguém a chamava assim. Nos referíamos a ela pura e simplesmente como "cabana". Ela tinha um cofre embaixo do tapete (sim, tinha um tapete!) onde guardávamos o que a gente mais tinha de valioso: um bocado de limões. Tá, na verdade colocamos limões somente para o cofrer ter algo. E fingíamos que os limões eram valiosos e pronto. Ao lado da cabana tinha uma espécie de concreto em formato de rosquinha. Na verdade um roscão. O buraco era bem maior que uma bunda. Era o nosso banheiro. Qualquer um que quisesse fazer o número 1 ou o 2 deveria usar o roscão de concreto. O André (o outro paticipante da cabana, eram 4 no total) o usou para o número 2 uma vez. De noite. Levou vela. Foi uma zoação só, coitado.
Os dias se passavam e a cabana deixava de ser apenas uma das muitas brincadeiras para se tornar uma época diferente na minha infância (ou pré-adolescência). Pela primeira vez eu participava de um grupinho fixo de amigos de rua, como se fosse um clube do bolinha. Foi na cabana que eu vi pela primeira vez uma revistinha pornô. Uma história em quadrinhos com fotos de verdade envolvendo um tio garanhão e uma sobrinha safada. Uma coisa terrível. Aquelas imagens ficaram na minha cabeça por muito tempo, haha.
A cabana começou a declinar por causa do Alan. Ele tinha uma personalidade um tanto difícil de se lidar. Não me lembro o motivo, mas parece que ele havia desagradado o Marcos Paulo, ou a mãe dele, sei lá. Só sei que brigamos com ele, e o Alan foi expulso do "clube". Ele disse que iria se vingar. E não demorou muito. Certa vez estavámos eu, Marcos Paulo e André dentro da cabana, quando um pedregulho enorme entra por uma das laterais, destrói a lona e por pouco não acerta a cabeça do André. O Alan a jogou de um outro terreno que dava vista para a cabana. Aquela pedra poderia facilmente matar um.
A confusão piorou. O Alan não nos dava sossego. Até ameaças ele fazia. Lembro de uma vez em que ele chutou o meu carrinho de controle remoto, na calçada da minha casa, com a minha mãe ali. Que abusado! Eu já estava por aqui com ele. Uma vez eu estava andando na rua, e ele veio atrás de mim cantarolando "olha o magrelinho". Não sei o que me deu naquele momento. Virei para ele e, de forma impulsiva, a única coisa que consegui fazer foi dar um soco na cara daquele moleque. O primeiro e único soco que dei em alguém. Mas nem posso dizer que foi uma briga de rua. Porque eu... bem... após ter dado o soco, eu... er... eu... corri para casa, com medo. Ah, detalhe: ele usava óculos, e dei o soco com óculos e tudo. Ficou torto no rosto dele depois :P
Após todos esses e alguns outros acontecimentos, nosso interesse pela cabana foi murchando. Até que um dia ela foi desmontada. Mas um fato ocorreu depois. Certo dia, a mãe do Alan veio falar com a minha, dizendo que o filho dela estava muito arrependido de ter aprontado tanto e que queria ter os amigos de volta. Minha mãe me chamou para falar com a moça. Humildemente ela me perguntou se eu queria voltar a ser amigo do seu filho. Disse que ele tinha alguns problemas, que o pai era ausente, que eles se mudavam muito e que o filho tinha dificuldade para manter as amizades. Eu não quis. Simplemente balancei a minha cabeça e disse "não".
Quando eu penso nisso, sinto que fui um pouco cruel em relação à minha atitude em não querer mais o Alan por perto. Afinal, a mãe dele disse que o garoto estava arrependido e muito triste. Mas naquele momento não dava. As coisas que o Alan falava e fazia davam medo, não só a mim, mas a todos nós da cabana. Ele trazia um ar pesado para o ambiente. Depois disso ele se mudou e eu nunca mais o vi. Será que hoje em dia ele é psicopata? Bom, ele tinha todos os requisitos, hehe. Mas eu espero que não. Se ele tinha realmente problemas pessoais sérios naquele tempo, espero sinceramente que tenha superado todos eles.
A cabana foi realmente uma época inesquecível. Foi através dela que eu participei do meu primeiro trabalho em equipe sem ser no colégio. Capinei, trabalhei, dei ideias, acatei ideias. Me dediquei realmente ao "projeto". Tudo isso dentro de uma época de mudanças: da infância para a adolescência. Várias conversas interessantes com esses amigos, muitos questionamentos, muitas besteiras surgiam, risadas. É incrível, mas eu ainda consigo sentir o cheiro do mato daquele terreno. Hoje em dia já não tenho mais tanto contato com o Marcos Paulo. Mal o vejo. Nos cumprimentamos nas raras vezes que nos vemos, e só. Mas qualquer dia eu ainda vou pedir a ele para ver aquele terreno novamente, só para reviver um pouco aquele momento.
Sabe... eu posso dizer que a cabana foi um divisor de águas na minha vida. Após ela eu deixei de brincar como eu brincava. Entrei no Ensino Médio e uma nova época se iniciava.

4 comentários:

Diego Martins! disse...

Quem não teve sua fase "Cabana" na infância, na vida?
Infelizmente viramos adultos e temos que encarar a realidade que esse mundo carrega.

Fernanda Vieira disse...

A adolescência é uma fase mágica mesmo.Facilmente as coisas se tornan marcantes.A minha fase mágica acabou quando roubaram minha bicicleta :( Depois disso eu não tive mais vontade de brincar na rua,porque as brincadeiras eram coaduvantes e andar de bicicleta com uma amigona minha era como se fosse o protagonista daquela fase.Boas lembranças desse tempo...

Mauro de Bias disse...

Renan ignorou a minha participação na brincadeira da cabana. Morri de desgosto.

Ok, a minha participação foi menor. Eu só participei durante a limpeza do terreno porque nesse tempo me desentendi seriamente com o Alan. Aí resolvi não voltar mais enquanto ele ainda estivesse lá. Mas pior que o cheiro daquele terreno também me marcou muito. Esquisito.

Aquela época era mesmo muito boa.

Gustavo disse...

Eu tbm tenho requisitos pra psicopata e nao sou um (ainda?).