quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Princípio de Pascal aplicado ao Renan

Todo mundo sabe que todos nós estamos sujeitos aos fenômenos da física. Seja esbarrando no sujeito ao lado após uma freada brusca do motorista de ônibus ou levando aquele choque gostoso após enfiar o dedo na tomada, a física vive nos pregando peças. E não são só peças práticas. Ela também nos ferra teoricamente, em provas do colégio e faculdade. Tais fatos fazem com que a maioria das pessoas tenham uma relação de ódio com a física. Alguns fogem à essa regra e se tornam estudantes de engenharia/masoquistas.

Pois bem. No início desse ano a física me pregou uma peça com uma de suas propriedades que, pelo que eu saiba, não costuma sacanear tanta gente por aí. Ela foi super criativa comigo. Eu poderia ter morrido! Sério! Estou falando do Princípio de Pascal. Sabe o que é? Esqueceu né? Ok, eu também. Mas pesquisei. Vamos lá.

Segundo a Wikipedia, Princípio de Pascal é o princípio físico elaborado pelo físico e matemático francês Blaise Pascal (1623 - 1662), que estabelece que a alteração de pressão produzida num líquido em equilíbrio transmite-se integralmente a todos os pontos do líquido e às paredes do recipiente.

Não pare de ler ainda, você vai entender. Observe a figura abaixo.

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Temos duas colunas líquidas. Vamos supor que sem o carro, todo o líquido está em equilíbrio (não sobe e nem desce). Se colocarmos um carro sobre um embolo gigante (algo super viável) na “boca” de uma das colunas líquidas, o peso do carro exercerá uma pressão não somente sobre o líquido que ali perto se encontra, mas em todo o recipiente, fazendo aumentar o nível do líquido lá do outro lado. Simples e intuitivo. Mas agora o que isso tem a ver comigo?

Então. No início desse ano (mais precisamente em 1º de fevereiro) meu apêndice resolveu inflamar. Eu estava comendo um churrasco na casa do meu tio quando comecei a sentir fortes dores de barriga. Quem me dera se fosse apenas uma diarréia. Bom, após ir em dois hospitais, fui operado no dia 3 de fevereiro. Operação de apencite costuma deixar o paciente internado por 3 dias. Foi o tempo que fiquei no hospital.

Como todo o paciente internado, eu precisava de medicamentos e soro. Então a minha veia do braço foi perfurada, e por ali eu recebia os líquidos necessários para me recuperar. As bolsas de soro ou remédios eram penduradas naquele suporte grandão (não sei o nome), e a ele eu ficava preso. Para todo o lugar que eu fosse (banheiro - não há muitos lugares para onde ir quando se é paciente de hospital) tinha que levar aquele treco comigo. E a bolsa ficava lá em cima, pendurada. Um saco.

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Taí um desenho que ilustra a minha situação: eu (muito chateado), o suporte (em azul) e a bolsa mais a borrachinha ligada à minha veia (em verde). Lá no hospital eu apelidei o conjunto suporte/bolsa/borracha de Maria Eugênia, inspirado pelo Kléber Bambam, que em sua participação no Big Brother Brasil 1, ficou agarrado o tempo todo com uma bonequinha feita de lata, cujo nome era o mesmo.

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Eu tinha que manter a Maria Eugênia sempre mais alta do que eu. Não podia ficar muito em pé. O ideal era ficar deitadinho para evitar o acontecimento do que vou relatar a seguir.

Em um dos dias em que estive no hospital, uma das minhas tias me ligou para saber como eu estava (curiosamente a Cris, minha tia de humor mais negro). Como eu já estava de pé (fui desobediente, ficava andando o tempo todo pra lá e pra cá com a Maria Eugênia), apenas peguei o telefone e permaneci assim. Eu e Maria Eugênia ficamos então praticamente da mesma altura.

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Em marrom, o telefone. Pois bem. Se eu estivesse deitado na cama, a Maria Eugênia ficaria mais alta que eu e o líquido da bolsa escorreria sem barreiras para dentro da minha veia. Mas como eu estava de pé, parte dos meus fluidos orgânicos (SANGUE!) que estavam numa altura maior que a da borracha fizeram pressão sobre ela. E então…

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Isso mesmo, minha gente. Aconteceu o que se chama de refluxo. E o desenho não é um exagero. O meu sangue chegou realmente até a bolsa. E eu, falando ao telefone animadamente, não estava percebendo a merda que estava acontecendo. Quando finalmente desliguei o telefone, olhei para a Maria Eugênia e fiquei em estado de choque. Demorei alguns segundos até tomar a atitude de apertar a campainha para alertar as enfermeiras. E não me contentei somente em apertá-la, eu gritei pelas enfermeiras. Patético, haha. Mas eu tive que fazer isso. Era o meu sangue, em grande quantidade, saindo do meu corpo. Não era exame, doação, nem nada. Era um acidente, e aquilo era angustiante.

A enfermeira não demorou a chegar. Quando ela entrou, não precisei explicar nada. Ela simplesmente olhou para a Maria Eugênia e fez uma cara de criança quando abre a porta do quarto dos pais e os pega transando: um misto de nojo, riso e paralisia, com a boca aberta. Quando finalmente ela conseguiu gesticular a mandíbula para falar, ela disse: “nunca vi um refluxo desses”. Uau, animador. Para piorar o meu desespero, chega uma outra enfermeira atrás, que faz extatamente a mesma cara, só que com mais deboche. As duas se olhavam, não conseguiam formular uma frase e não sabiam o que fazer. AS ENFERMEIRAS NÃO SABIAM O QUE FAZER. “Vou morrer”, pensei.

Mas ainda bem que essa paralisia foi no instante de susto somente. Logo a primeira enfermeira que havia entrado tratou de cortar a borrachinha e dar fim à bolsa. E eu ainda tive que ouvir: “e tanta gente precisando de sangue”. Vejam só. Eu ali, num acidente, meu sangue saindo, morrendo de medo, e a mulher comentando que o tal sangue desperdiçado poderia estar sendo usado para doação. Eu hein, como se a culpa fosse minha.

Enfim, é essa a história. Não aconteceu nada comigo, ainda bem. Só perdi aquele tantão de sangue mesmo, sem maiores consequências. Esse foi o único fato divertido (hoje é divertido lembrar) para contar sobre os dias em que fiquei internado. De modo geral, eu não gosto de lembrar daqueles dias, que apesar de terem sido apenas 3, foram terríveis. Mesmo tendo plano de saúde e ter ficado em quarto particular e etc, eu fiquei muito deprimido e inquieto, afinal hospital é hospital né. E física é física. Natural, porém complexa e impiedosa.

Não foi dessa vez, Pascal.

Um comentário:

Diego Martins! disse...

Pelo menos doou sangue meses depois. Quem sabe não compensou aquela perda... Rsrs.