quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Vanessa

  vulgar
Carlos Eduardo, ou Kadu – como é mais conhecido – é um cara normal.  Não é burro, mas também não é inteligente ao extremo; está mais para bonito do que para feio, mas mesmo assim não é lá uma capa de revista; não tem manias irritantes e não tem charmes irresistíveis; não tem nenhum defeito e nenhuma qualidade extraordinária que o destaque dos demais rapazes de vinte e poucos anos. Ou melhor, tem um grande defeito: ter se envolvido com a vagabunda da Vanessa há 3 anos atrás.

Vanessa era, definitamente, uma vaca. Provavelmente ainda é, mas nem eu e nem o Kadu temos mais notícias dela. Vanessa era daquele tipo de mulher com a qual nenhum homem merece se envolver. Era fútil, fácil, manipuladora e egoísta. Dava nojo ouvi-la falar, tamanhas bobagens que aquela mulher dizia. Fora o jeito de falar, as gírias, a falta de modos. Andava excessivamente maquiada e com aquelas sombrancelhas estranhas que eu só consigo definir como “típicas de piranhas ou travestis”. Vanessa era muito escrota e, apesar de possuir um corpo moreno até bonito e um rosto mediano, seu jeito seboso e suas atitudes de puta colocavam em déficit todo o seu ser.

Kadu teve a infelicidade de conhecer Vanessa – pasmem! – na igreja. Não que ela gostasse de frequentar a casa de Deus; ela havia ido um dia porque era batizado do filho do seu então namorado, Róbson. Róbson era pouco mais de dez anos mais velho que Vanessa, tinha em torno de trinta anos na época, e era pai do pequeno Bruninho, fruto do seu casamento com Mariana.

Diziam boatos que Róbson conheceu Vanessa e começou a trair Mariana com ela na época em que esta, tadinha, estava grávida e impossibilitada de ter relações sexuais por recomendações médicas. Após longas lábias de manipulação, Vanessa teria convencido Róbson de largar sua esposa e ir viver com ela, deixando a pobre Mariana parir o filho sozinha.

No dia do batizado, Róbson apareceu na igreja diante de toda a sua família, de forma bastante cara-de-pau, com o pivô da sua separação enroscado em seu braço. Kadu não conhecia Róbson e Mariana, porém a história sobre o fim do casamento dos dois já havia chegado a seus ouvidos pouco antes da cerimônia começar por meio de uma velha beata e fofoqueira.

Próximo do fim do batizado, Kadu saiu um pouco para tomar água e deu de cara com Vanessa voltando do banheiro. Vanessa olhou para Kadu de forma direta, safada e convidativa; um olhar do tipo “estou disposta a fazer tudo o que você quiser agora” que somente prostitutas interessadas no seu dinheiro o fazem. Kadu, com aquela mente testosterônica um tanto imbecil, só conseguiu sorrir.

Vanessa puxou assunto. Quando ela conversava com um homem, parecia que iria se despir e oferecer seu corpo a qualquer momento. Talvez por isso conquistasse tantos amantes, já que de resto não havia nada que prestasse ali. Não retornaram para dentro da igreja até o fim da cerimônia. Ficaram conversando e, por fim, marcaram de sair. Vanessa depois se explicou para Róbson dizendo que estava passando mal e que por isso não havia retornado logo.

Primeiro encontro entre Vanessa e Kadu: transaram na casa dela. De tudo quanto é jeito, segundo Kadu me contou depois; coisas que ele só via em filmes pornôs; não havia ninguém na casa. Eu acreditei, pois Vanessa era daquelas que realmente não perdia tempo. Digo isso porque eu, sendo amigo dele, acabei tendo o desprazer de conhecer também a meretriz na ocasião do batizado.

Apesar de estar no paraíso, Kadu acabou descendo ao inferno pouco após sua fornicação com Vanessa. Róbson, avisado por alguém, apareceu de surpresa no quarto de sua namorada e pegou os dois ainda nús. Aos berros, partiu para cima de kadu, que ganhou alguns socos e, por consequência, um nariz sangrando. Vanessa levou um baita tapa na cara, ao som de “piranha” saído da boca de Róbson, que saiu esbaforido logo depois. Kadu tremia, enquanto Vanessa com uma expressão vazia e com o rosto marcado se recompunha na frente do espelho.

Vanessa pediu para Kadu ir embora e, enquanto saía, confuso e assustado, ele cruzou com um cara que ele nunca havia visto na vida, no quintal de Vanessa. O cara, ao vê-lo, perguntou: “minha gostosinha tá aí?”. Kadu ficou mais confuso ainda e não teve tempo de responder, pois a voz de Vanessa lá de dentro dizia: “entra Tony, tô aqui”. Era o fim da picada. Kadu saiu daquele quintal, pegou o caminho de casa e nunca mais quiser saber de Vanessa.

Meses depois, Kadu descobriu que havia contraído herpes. Bem feito. Descobrimos também, por meio da mesma velha beata, que Róbson havia voltado para Mariana, que haviam se mudado para outra cidade e estavam tentando reconstruir a vida e dar um lar decente para Bruninho. Menos mal. Da Vanessa, por sua vez, nunca mais tivemos notícia. Deve estar por aí, dando para todo mundo como sempre. Ninguém merece; ô mulherzinha à toa, nojenta, safada e fácil. Muito escrota. Era só chegar e créu. Kadu que o diga. Poxa… pena que eu nem tenho telefone dela…”

Narrativas em primeira pessoa não significam que sou eu, Renan, narrando. O narrador é também um personagem. Que fique bem claro!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bom dia… monstro?!


acordar Não gosto de acordar.

Bom, na verdade eu gosto. O que eu não gosto é da maneira que estamos quando acordamos. Você chega em casa de noite, janta, toma aquele banho gostoso, escova os dentes, passa desodorante, coloca uma roupa simples porém limpinha, e vai deitar. E aí, após a noite de sono, acorda… destruído. Não digo no sentido de mal disposto, afinal a função do sono é (deveria ser) revigorar, mas sim na aparência.

Dependendo da posição em que você dorme, sua cara amanhace vermelha, amassada e com marcas, uns relevos estranhos, como se um carro tivesse passado por cima de você várias vezes. Eu não consigo entender como algumas horas deitado e de olhos fechados podem te deformar tanto. Acho que nem um enxame de abelhas consegue tal proeza.

Seu cabelo fica tudo, menos um cabelo decente. Uma noite de sono é capaz de produzir em você os mais bizarros penteados. E nem eu que sou homem e tenho o cabelo curto escapo dos efeitos do sono sobre ele. De vez em quando eu acordo com um topete lateral. É uma espécie de moicano, só que ao invés de seguir até a nuca pelo meio da sua cabeça, segue por uma das laterais, na linha das entradas (se você tiver). Parece uma crista de galo caída ou uma onda no momento em que ela está quebrando. É uma coisa horrível.

E isso é só pra citar um exemplo. Eu tenho um roda-moinho (é assim que escreve?) na parte de trás do cabelo. Tem vezes que eu acordo e meu cabelo tá amassado, bem junto do couro. Porém o roda-moinho fica exuberante, que nem uma flor; fico parecendo uma moça. É patético.

Os olhos também são problemáticos; amanhecem pequenos, porém inchados e vermelhos. Parece que você fumou ou cheirou alguma coisa. Você abre os olhos e, até conseguir enxergar bem, ficam aparecendo coisinhas voando. E pra onde você olha, essas coisinhas te acompanham. Isso sem falar na remela, aquela massinha nojenta que aparece.

Frequentemente eu também amanheço com uma das mãos ou um dos pés dormentes. Eu devo estar dormindo numa posição muito ruim, porque é uma dormência que chega a doer e demora a passar. O cheiro de desodorante também vai pro espaço, dando lugar aquele cheiro algumas vezes desagradável de pele misturado com roupa de cama. E não é só isso. Graças a Deus eu não tenho problema com mau-hálito, mas quem aqui acorda com bafinho gostoso né?

Apesar dos pesares, o importante é que tudo na vida tem um lado bom. Se por um lado uma noite de sono bagunça com a sua aparência de uma forma que talvez nem uma festa rave e drogas consigam fazer, por outro os efeitos mentais positivos são ímpares. O sono revigora seus pensamentos e percepções sobre as coisas. É a velha história do choro que dura uma noite, porém com a alegria te esperando pela manhã.

Mas quer uma dica? Se você quiser ficar mais feliz, passe batido pelo espelho do banheiro e vá direito pro chuveiro.

domingo, 24 de outubro de 2010

Por Renan Mariano

 escritor
Já ouvi dizer (e li) várias vezes que um homem pode se considerar realizado se fizer três coisas: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Bom, eu já plantei uma árvore; na verdade um pé-de-feijão; mas não tenho culpa de a minha tia tê-lo destroçado quando ela varreu o quintal certa vez.

Ter um filho é algo complicado; envolve muitas coisas. Primeiro é preciso ter alguém com quem dividir esse sonho (ou fardo, como quiserem chamar). Segundo, é preciso ter condições psicológicas e financeiras para isso. Sou imaturo, solteiro e ainda vou me formar. Então ACHO que isso torna a realização de ter um filho complemamente inviável durante muito tempo ainda. Sobrou então escrever um livro. E é sobre isso que eu vou falar.

Ultimamente estou num pique danado para a leitura. Somando esse pique com o fato de eu gostar de escrever contos – os quais publico por aqui –, acabei desenvolvendo a vontade de escrever um livro. Não sei se é uma vontade passageira (afinal só em pensar no trabalho que deve ser pra escrever e publicar um livro já fico desanimado), mas ando pensando cada vez mais nisso. Só que esse também não é um projeto para agora, porém talvez seja algo que possa ocorrer antes do filho; se houver mesmo um filho né.

Bom, eu não sei sobre o que eu escreveria, mas eu sei sobre o que eu não escreveria: não seria explicitamente sobre mim (até porque poucos – ou ninguém - se interessariam por isso) e nem sobre nada acadêmico ou científico (já basta o meu projeto final de graduação). Seria uma história mesmo. Ficção. Com personagens, enredo, etc.

No colégio, o estilo literário que eu mais gostei de aprender foi o realismo; pessoas comuns, de classe baixa/média, grande descrição do ambiente e avaliação psíquica dos personagens, estes mostrando os seus lados heroicos e podres. Eu não gostava do romantismo e aquela coisa toda de alta aristocracia com personagens com conduta perfeita. Nem daqueles romances indianistas. Iracema é uma índia maravilhosa, gostosíssima e com hálito de baunilha; mas representa muito pouco as verdadeiras índias brasileiras, todas de peito caído. Gosto mesmo é de Machado de Assis; Bentinho alucinado achando que foi traído por Capitu e seu melhor amigo, Escobar, ao ponto de estragar a sua vida e terminar sozinho. Adultério (ou pelo menos a insinuação de um) apimenta qualquer história.

Longe de mim querer me comparar aos grandes autores. Não chego nem na bactéria da unha do pé de cada um deles. Mas se fosse para escrever uma história, seria por aí. Nada de personagens perfeitos. Eu não sou perfeito, ninguém é perfeito. Ao ler um livro, as pessas procuram se identificar. E ninguém jamais vai se identificar com um personagem perfeito.

Nossa afinidade com as pessoas se dá em grande parte devido a um defeito em comum que temos com elas. E isso também se aplica a um personagem de um livro. É aquela coisa do tipo “caraca, eu já fiz isso!” ou então “caraca, eu sou assim também!”. Pessoas com os mesmos defeitos se atraem, pois elas se compreendem. A atração por qualidade em comum também existe, claro. Mas nessa não há o fator compreensão, pois não há o que compreender, já que está tudo certo mesmo.

Não faço ideia do ambiente, do nome dos personagens e nem do enredo do livro. E nem quero me preocupar com isso. Como eu já disse, é um projeto para o futuro. Mas sem dúvida que haveria muito de mim ali. É justamente isso que faço com os meus contos. Praticamente todos são ficções inspiradas em coisas que já vivi, que já vi ou que tenho vontade de fazer; são os alter egos da história da minha vida, onde os fatos são totalmente maquiados para se tornarem mais interessantes.

Imagina só como deve ser legal ser abordado na rua por um desconhecido dizendo que gostou do seu livro. Sonhando mais alto… deve ser extremamente gratificamente saber que você escreveu um best seller! Quem sabe né? E já tô eu aqui com a minha mania de grandeza. Dá licença que eu vou ali rapidinho fazer filhos gêmeos e plantar um baobá.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Jogo dos 8 erros - VIII


Foto1 
Foto2

Área de lazer do hotel em que fiquei numa viagem a São Paulo pela empresa. Mas pena que eu não tive tempo para aproveitar nada disso. Só de graça eu me vinguei e coloquei 8 erros nessa foto =P

[Atualização] Correção: Só existem 7 erros nesse jogo, mas eu estou com muita preguiça de editar a foto novamente. Então fica com 7 mesmo. O erro que falta fica sendo o meu, pronto.

Resposta do Jogo dos 8 erros VII
>> Prédio Rio Sul aumentado verticalmente.
>> Extensão do verde no meio do cemitério.
>> Ilha duplicada no canto superior direito.
>> Duplicação de alguma coisa (não sei o que) ao lado esquerdo do Pão de Açucar.
>> Mudança de lugar do Heliponto em cima do Dona Marta.
>> Alargamento de um dos prédios que está na sombra.
>> Prédio diferente na frente do verde do cemitério.
>> Lembro não.

Resposta do Jogo dos 8 erros VI
>> Meu nome no canto superior direito (bem óbvio).
>> Brinco na menina.
>> Duplicação da imagem nos dois retângulos embaixo, que ajudam a formar a grade.
>> Bermuda sem uma bolinha.
>> Barra vertical ao lado da outra.
>> Eu praticamente sem pé.
>> Fechadura do portão duplicada.
>> Lembro não.

sábado, 16 de outubro de 2010

Águas nem tão profundas


Ouvi dizer certa vez que quando temos em torno 4 anos de idade
nosso cérebro se desenvolve ao ponto de começar a arquivar fatos em forma de lembranças, ou seja, não lembramos nada de nossas vidas que tenha acontecido antes dessa idade. Pedro não fugiu a essa regra. Apesar de muito se esforçar, ele só consegue se lembrar das coisas a partir do dia em que todos comemoravam o aniversário de sua bisavó em um sítio. Naquela época ele estava justamente com 4 anos.

No sítio havia uma enorme piscina. Pedro gostava de olhar aquela água toda junta, mas morria de medo. Não conseguia sequer chegar à beira. Todos os seus primos sentavam-se nas estiradeiras que ali existiam, menos ele. Após algumas insistências e caçoadas, Pedro finalmente decidiu tomar para si uma estiradeira, e sentou-se. Porém estava longe de relaxar. Seu maior medo era escorregar e cair na água. Não caiu. Mas talvez tenha sido essa tensão toda o motivo pelo qual desencadeou-se o sistema de lembranças no cérebro de Pedro. A partir daí, tudo de intenso que ele viveu ele consegue se lembrar.

Cerca de dois anos depois, Pedro viajou com seus pais para uma cidade pequena porém bem cuidada e aconchegante. Havia também uma piscina no hotel em que se hospedaram. Numa bela manhã de sol, o pai do menino o chamou para brincar com ele na água...

- Vem meu filho. Entra na piscina!
- Não! Você vai me afogar que eu sei.
- Deixa disso, sou seu pai.
- Mas você vai afundar a minha cabeça na água de próposito, eu vou querer sair e você não vai deixar.
- Vou não, vem com o papai vem, prometo, eu te seguro, vem Pedrinho!

Se tem uma coisa que faz a cabeça de Pedro, essa coisa se chama insistência. Pedro bate o pé por um tempo, mas geralmente acaba cedendo. Não pelo fato de ele não ter personalidade, pois isso ele tem e muito, mas sim porque muitas de suas suas negações de início são baseadas em impulsos desprovidos de qualquer tipo de razão. Ele queria entrar na piscina, sempre quis, mas tinha medo. Mas ora, era seu pai! E assim sendo, que mal poderia lhe acontecer estando protegido por ele?

A vida do ser humano é assim mesmo. A vontade é o sonho. A oportunidade é a fagulha, é o fio de esperança sobre os qual o sonho pode se tornar realidade. A insistência relativa a essa oportunidade é o fogo provocado pela fagulha, que se torna mais sedutor à medida que mais desejamos conhecê-lo de perto. E assim cedemos.

Para Pedro, desfrutar de uma grande piscina era o sonho; o fato de haver uma piscina dessas no local onde estava era a oportunidade; seu pai era a insistência. Misturados os elementos, Pedro se aproximou e, mesmo temendo, abraçou o seu pai.

Os primeiros minutos foram difíceis. O pai caminhava pela água enquanto Pedro permanecia agarrado firmemente a ele. Mergulhar nem pensar! Foi cumprida a promessa. Seu pai o protegeu sem lhe aprontar grandes surpresas, como afogá-lo de brincadeira. Foi com o menino até a parte mais funda, onde havia uma pequena cascata feita com uma parede de rochas. Ao ver o seu pai se aproximando da água corrente, Pedro gritou. Chorou. Quis voltar.

- Vamos lá, filho. Só vou chegar perto.

Pedro mais uma vez emitiu uma daquelas negações pouco fundadas. Seu pai já o conhecia bem. Ora, ele queria ver a cachoeirinha de perto sim. Insistiu. Pedro se acalmou e foram para perto. Seu pai estendeu a mão em direção à água que caía, e olhou para o menino, sorrindo.

- Olha só que legal, filho! Coloca a mão pra você sentir a água caindo sobre ela. Vai lá.

Pedro olhou para a água que caía e estendeu sua mão, mesmo temendo que o seu pai ainda lhe aprontasse alguma. Mas não. Pedro pôde tocar a água por alguns segundos sem que seu pai fizesse gracinha. E assim o menino contemplava a pequena cachoeira, tocava suas águas, e familiarizava-se com ela e com o restante da piscina.

Existem pequenas coisas que são fundamentais para que a nossa vida prossiga da forma como deve ser. Uma delas é a confiança. Ninguém faz grandes coisas sem, em algum momento de sua vida, ter confiado em alguém e ter tido confiança sobre algo. Aliás, não se faz nem pequenas coisas sem confiança. Quem não confia em ninguém não tem ninguém. Quem não se sente confiante para fazer algo não faz algo, não faz nada, nunca. Imperam eternamente o medo e a solidão.

Pedro, motivado pela curiosidade, apesar de suas negações iniciais, havia confiado em seu pai. Este respondeu positivamente, guiando o menino, ao invés de aumentar-lhe um pavor desnecessário com alguma brincadeira inesperada. Dessa forma, encontrou Pedro um meio pelo o qual pudesse começar a se sentir confiante sobre a água.

Pedro já começava a sentir mais prazer do que medo enquanto tocava na água corrente. Percebendo a gradual adaptação de seu filho, o pai sentiu que era hora de fazer uma nova proposta.

- Pedrinho, vamos entrar debaixo da cachoeira?
- Não!
- Papai vai com você. Vou estar abraçado contigo. Vamos juntos e logo voltamos pra fora da água.
- Não!
- Ah, vamos, é divertido!

A risada e a confiança que seu pai passara e o contato anterior com a cachoeirinha, tornou essa mais uma negação volúvel, como todas as outras haviam sido.

- Vou contar até três tá?
O menino não negou mais.
- 1...
- 2...
- 3 e já!

Entraram debaixo da pequena cascata. Seu pai deu um grito de alegria, sacudindo o filho. O menino permanecia agarrado a ele, de olhos fechados. Saíram debaixo da água poucos segundos depois. Pedro não riu, não chorou. De cabelo molhado e olhos arregalados olhava tudo em volta. Seu pai gargalhava, e arriscou mais...

- Agora vamos mergulhar!
- Não!
- Vamos! Mergulho contigo! É só descer e subir! Vou contar até três!
Não houve mais negações.
- 1... prende a respiração com o papai... assim só
- 2...
Prenderam.
- 3...
Fecharam os olhos.
- e... já!

Mergulharam e voltaram quase no mesmo segundo. Pedro voltou ainda mais assustado. Parecia que iria pedir para sair dali. Na verdade por um momento ele pensou. Mas não o fez. Ficou um tempo ainda agarrado a seu pai até que este mergulhou novamente com o seu filho, quase sem avisar.

- De novo, vamos...
E afundou com o menino.

Dessa vez Pedro não voltou mais assustado. Mergulharam mais uma vez. Pedro começava a esboçar um sorriso. E mergulharam novamente. Pedro já sorria. Foram sucessivos mergulhos. O menino começava a se divertir. Seu sorriso se transformava em riso.

- Vou te jogar pra trás e vou te buscar logo depois.

Pedro fechou a cara. Mas antes que pudesse reagir, foi lançado uns 2 metros a frente. Afundou. Mas logo foi resgatado por seu pai, que o tirou debaixo d'água e o levantou bem alto, deixando o menino com os pés acima da superfície e de frente para ele. O pai riu, olhando para o filho, e foi muito bem correspondido. Pedro deu uma deliciosa gargalhada, daquelas tão espontâneas que nos fazem ganhar o dia.

O menino estava batizado. Já sem medo, brincou na piscina o restante do passeio sem precisar do colo de seu pai. Pulou, riu e curtiu; jogou água nos outros; subiu nas rochas que formavam a pequena cachoeira, e tirou fotos lá de cima fazendo poses; caiu lá de cima dentro da água, na parte funda, fazendo com que seu pai ficasse alerta. Só que este nem precisou reagir. Pedro pôs a cabeça fora da superfície, rindo do seu próprio mico e esboçou um nado esquisito para voltar para a parte rasa, onde lhe dava pé. E ali ele gargalhou mais ainda. Era a prova de que o menino havia se superado completamente.

Uma das sensações mais gostosas da vida é quando superamos algo. É é uma sensação que não se desgasta jamais. Pensar que aquilo tão bobo pudesse nos amedrontar tanto nos prova o quanto mudamos para melhor, o quanto crescemos. E isso é um prazer infinito e impagável.

Meses mais tarde, Pedro iniciou aulas de natação. Anos depois, o menino ganhava sua primeira medalha de ouro em uma competição.

domingo, 10 de outubro de 2010

Vaidade


Vou dividir uma coisa com vocês. Talvez o maior dos meus defeitos seja a vaidade que há dentro de mim. Não falo daquela vaidade metrossexual de cuidados excessivos com a aparência, mas sim de vaidade de espírito. Taí uma coisa que eu acho que ninguém sabia; mas creio que bons observadores conseguem captar.

Minha alma não se contenta com o "fazer o bem sem esperar nada em troca". Sinto-me feliz quando tenho a oportunidade de ser solidário; entretanto, parte dessa felicidade está relacionada à gratificação recebida. É quase uma condição necessária para a satisfação. Praticar solidariedade não-gratificada pode não me tornar insatisfeito com o ato, mas pode me levar à indiferença. Contudo, se na palavra "solidariedade" o "não esperar nada em troca" está inerente, talvez isso significa que, no fundo, eu seja menos solidário do que acredito ser.

Quando eu falo em gratificação, não quero dizer que eu gosto de fazer as coisas por dinheiro. Não me interpretem mal; nada disso. Não falo em ambição ou interesse, mas sim em vaidade pura mesmo. Receber um grande elogio é uma ótima forma de retorno. Aliás, devo admitir que receber elogios está longe de ser algo dispensável para mim. E isso se torna contraditório quando é levada em conta toda a minha timidez, que fica ali, escancarada, diante de um. Não consigo não ficar sem jeito ao receber elogios, mas também não consigo viver bem sem eles. Nos períodos em que os elogios estão em falta, procuro formas de "descolar" algum, como um desempregado em busca de um bico ou um mendigo que aceita qualquer moedinha de 10 centavos.

Sou um tanto megalomaníaco. Gosto de sentir que tenho certos poderes. Jamais amarrarei uma capa no pescoço e pularei de um lugar alto achando que vou voar. Não beiro à loucura. Mas a sensação de que posso alguma coisa, mesmo que fútil de certa forma, me faz muito bem. Gosto quando percebo que estou chamando a atenção pela a aparência tanto quanto pelo jeito de ser. A minha razão diz que o que importa é quem você é por dentro; mas me fere imaginar que alguém desaprova meus atributos físicos. Ligo, e ligo muito.

Procuro respeitar todo o tipo de opção que as pessoas fazem na vida e a maneira como elas são. Não sou fresco, não ando de nariz empinado, não desdenho ninguém. Gosto das pessoas, gosto de trocar experiências. Dou valor a tudo aquilo que é fundamental para a minha sobrevivência. Mas não me contento com o básico. De simples, creio que eu tenha muito pouco.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Trago a pessoa amada!


Não, não virei feiticeiro. E nem poderia. Ultimamente eu ando tão ocupado que, mesmo se eu fosse chegado num despacho, estaria em dívida com os orixás. Imagina então fazer trabalho para os outros. Tudo bem que isso poderia até me garantir uma renda extra, mas eu prefiro não mexer com coisas obscuras; então é melhor eu continuar com a faculdade, que já estou quase terminando. Se bem que eu faço Engenharia Eletrônica né; de qualquer forma eu lido com o obscuro há quase 5 anos. Enfim.

Vou confessar que eu leio horóscopo de vez quando. Não que eu acredite, mas acho interessante. Afinal, quando se está no banheiro, sentado na privada, tudo o que está escrito num jornal velho parece interessante. Mas digamos que eu tenha um "carinho" especial pelo horóscopo. Não me custa nada ler, e me diverte associar as coincidências que às vezes ocorrem. "Áries. O momento não é propício para investimentos arriscados". "Caraca, maneiro, realmente ando sem grana; não tô podendo gastar, hihihi".

Horóscopo faz parte das coisas que eu leio enquanto estou no trono, junto com piadas, colunas de fofoca, tabelas de campeonato, etc. Quando há caneta por perto, rola também um Sudoku ou Palavras Cruzadas.

Leio bastante aquela Canal Extra no banheiro. E, ao passar pela página do horóscopo, não consigo deixar de notar a simpatia que sempre vem contida na página adjacente. Por muito tempo eu nunca me interessei em ler aquele troço. Até que um dia eu li, e aquilo passou a me chamar atenção.

Uma das simpatias diz respeito ao que se deve fazer para a união sentimental: "Refogue 500g de grãos de feijão fradinho na cebola ralada, camarão seco triturado e dendê. Ponha numa tigela amarela o feijão refogado. Deixe amornar e enfeite com uma flor de girassol grande (...)". A coisa continua, mas só pelo início já dá pra achar graça. É um tal de "fazer arroz", "refogar aipim", "ralar batata", "temperar com azeite de dendê" que mais parece uma receita culinária. Não me admiraria se a Ana Maria Braga começasse a ensinar simpatias ao invés de ensinar a fazer pratos. A diferença entre as duas práticas é quase nula. O problema é que ela talvez poderia aderir à prática do sacrifício e depenar e assar o Louro José para fazer oferenda. O que de fato seria uma solução, não um problema. Papagaio chato da porra.

Outra coisa que me chama atenção são os muros com propagandas do tipo "trago a pessoa amada em 3 dias". É mais ou menos igual à "perca 20Kg em 1 semana". Tem gente que acredita. Mas deixa eu falar com você, pessoa obsessivamente apaixonada. Vou te dar um toque: o seu amado(a) não vai cair nos seus braços em 3 dias, ok? Se ele estiver no Japão, por exemplo, a feiticeira não vai aproximá-lo de você em 3 dias má nem à base de dezenas de galinhas pretas degoladas. Mas caso ele(a) esteja mais perto, e caia na sua por intermédio de algum feitiço brabo, qual é a graça? É tão mais interessante alguém estar com você por gostar de você do jeito que você é do que através de alguma amarra satânica.

Emprego, fortuna, sucesso, amor... tudo isso depende única e exclusivamente da forma como você se porta no mundo e de alguma sorte eventual. O resto é bobagem. Todo mundo sabe que, para manter uma união sentimental, uma colher de respeito, uma dose de carinho e uma pitada de compreensão são muito mais eficazes do que 500g grãos de feijão fradinho na cebola ralada.

domingo, 5 de setembro de 2010

Amiga


Guilherme chegara na hora marcada. 20h30. Cecília admirava a pontualidade do seu namorado. Deu-lhe um beijo discreto, enroscou seu braço no dele e, carinhosa, perguntou sobre o dia do rapaz. Andavam pela rua e conversavam amenidades, quando foram interrompidos por um grito:
- Cecília! Cecília!
Cecília virou-se e viu a moça se aproximando, esbaforida.
- Oi Letícia! O que houve?
- Amiga, preciso imediatamente do meu livro de Anatomia. Já terminou de usá-lo?
- Já sim. Fique aqui que eu pego pra você.
Cecília se afastou, sendo acompanha pelos olhos de Guilherme e Letícia. Quando estava longe o suficiente, Letícia iniciou:
- E então, quando vamos sair novamente?
- Não estou pensando em repetirmos isso - disparou Guilherme.
- Como assim? Não gostou?
- Gostei, mas não acho certo.
- Por que?
- Ora, Cecília é minha namorada e sua amiga! Sonsa!
- E acha certo ficar preso a ela?
- Acho certo cumprir honestamente com um compromisso que eu mesmo quis assumir.
- Acha certo negar seus desejos?
- Não sei. Não quero parecer leviano.
- Você está sendo leviano. Comigo. Com meus sentimentos.
- Ah, poupe-me.
- Não vou poupá-lo. Não aceito ser usada.
- Mas não foi.
- Então tenho esperanças?
- É você quem está dizendo.
- Você não presta!
- Olha quem fala!
- Nojento!
- Falsa!
- Covarde! Conta pra ela! Duvido!
- Contar que a amiga dela é uma safada? Bem que eu queria.
- Sempre tem uma resposta pra tudo, né?!
- Sempre.
- Canalha!
- Safada!
- Safada, mas bem que você gostou.
- Não posso negar.
- Que safado!
- Gostosa!
- Admito, sou louca por você!
- Fique quieta, ela está vindo!

Cecília se aproximou, sorridente.
- Aqui está, amiga. Muitíssimo obrigada!
- De nada, fofa.
- Sem esse livro eu não seria nada na prova de hoje.
- Que bom poder ter ajudado.
- Você não faz ideia do quanto!

Uma sorriu para a outra. Letícia deu meia volta, enquanto o casal seguia pela rua em sentido contrário. Segundos depois, Letícia olhou para trás, ao mesmo que tempo que Guilherme. Olharam-se. Encararam-se. Sorriram. Sorrisos esses que eram preço da ingenuidade de Cecília. Ou, no mínimo, o valor da locação do livro de Anatomia.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Luz

Às vezes tudo o que precisamos é de um pouco de luz.

Eu acho que todo o jovem minimamente consciente vive preocupado com as obrigações que o cercam e que o desafiam em prol de um futuro promissor. Não sou exceção. Cada vez mais eu me preocupo. Não me sinto preparado para algumas coisas que devo cumprir. E o mais curioso é que quanto mais nos sentimos despreparados, mais as coisas aparecem com grande força, nos amedrontando.

Conciliar obrigações e vontades não é nada fácil. A serenidade se faz indispensável. É um exercício de aceitação das coisas que não podem ser mudadas. O jeito é subir no nosso barco, ajustar a vela e deixar o vento soprar. Apesar das tempestades que deixarão tudo parecer horripilante, a luz do sol sempre vem para tornar a navegação um prazer.

sábado, 24 de julho de 2010

Jogo dos 8 erros - VII


rio1

rio2

Com uma paisagem perfeita dessas, fica difícil ver algo de errado. Mas garanto que tem!

sábado, 10 de abril de 2010

O pingente

Douglas acordou animado. Era fim de semana e pela janela aberta podia ver que o sol brilhava. Tomou um banho demorado e sentou-se à mesa com sua família para tomar o café. Contrariando sua frequente aversão às interações matinais, Douglas estava alegre e tagarela, contando seus planos para a noite. Mal havia terminado de falar, quando sua mãe lembra que havia chegado algo para ele mais cedo.

- É presente de aniversário atrasado de sua avó de Minas – disse ela.

Douglas abriu um largo sorriso. Adorava receber presente, qualquer tipo de presente, não importando o tamanho ou valor. Ficava visivelmente satisfeito. Fazia uma festa. Certa vez, quando mais novo, ganhou de sua tia um simples carrinho comprado em camelô. Não era seu aniversário nem nada. Ela apenas passou na feirinha, viu o carrinho, pensou no sobrinho e comprou para ele. Douglas arregalou os olhos, pegou o carrinho e saiu correndo pela casa gritando e mostrando pra todo mundo. Não costumava agradecer formalmente, do tipo “obrigado”, mas recompensava o presenteador pela empolgação. Quando se é criança, o simples fato de curtir plenamente o presente já é o melhor dos agradecimentos.

- Vou passar a comprar algo pra esse menino toda a semana! – disse a tia, na ocasião.

O embrulho enviado por sua avó era pequeno, e Douglas não demorou muito para abri-lo. Ou melhor, rasgá-lo. Douglas tinha um sério problema de falta de paciência. Possuia a ansiedade de uma criança apesar de já ter passado dos 20.

- Um pingente! – exclamou Douglas – é de prata, uma estrela!
- Coisa de boiola – comentou a irmã adolescente.
- Pois eu achei de muito bom gosto – disse a mãe.
- Bonitão – completou o pai.

Douglas rapidamente correu até o seu quarto e pegou um antigo cordão de prata que possuía, mas que raramente usava. Lavou-o, adicionou o pingente, e colocou o cordão no pescoço.

- Tô bonito?
- Tá lindo! – disse a mãe.

Seu pai o alertou sobre o bilhete que havia chegado junto com o presente. Nele, lia-se: “Querido neto, esse pingente foi usado por seu bisavô, meu pai, durante muitos anos. É uma peça única, feita pelo próprio, que como você deve saber, trabalhava com confecção de jóias. Te amo muito! Feliz Aniversário!”. Douglas ligou para a sua avó, agradecendo. Quando se é adulto, agradecimentos através de palavras tornam-se indispensáveis.

A noite havia chegado e Douglas deciciu sair com seus amigos. Claro, usou o novo acessório. Foram à boate. Douglas era tímido, mas vez ou outra se arriscava com alguma menina que o interessava. E com aquela estrela no peito então, ele estava com uma confiança acima do normal. É curioso como um pequeno detalhe em nosso visual mexe com a nossa autoestima.

- Eu tenho namorado, desculpa – explicou a menina a quem ele abordou.

Douglas se conformou. Foi dançar com os outros, mas não demorou muito para ver a mesma menina aos beijos com um amigo solteiro de um amigo que havia ido junto com eles. Sem dúvida, ele não era o namorado dela. Pensou que havia sido dispensado por um motivo nobre. Mas não. Seus “amigos” o sacanearam a noite inteira. Entristeceu-se.

Já estava amenhecendo, quando todos saíram da boate. Douglas foi para casa, mas antes de ir dormir para acordar só depois do meio dia, verificou sua caixa de e-mail. Havia uma pauta de notas. Eram as notas da prova final de uma matéria da faculdade na qual ele estava com muita dificuldade. Foi reprovado. Seus olhos ficaram marejados. Foi dormir.

Acordou mais cedo do que o previsto, às 10h. Na verdade, foi acordado. Sua mãe disse que a sua avó, a mesma que o presenteou com o pingente, havia falecido. Infarto fulminante.

- Não acredito! – exclamou ele, que chorou ainda deitado na cama.

Viajaram para Minas no mesmo dia para o velório e enterro. Douglas passou a viagem inteira sem falar uma palavra. Lacrimejava vez ou outra.

No velório, um senhor que aparentava muita idade se aproximou dele.

- Você é o famoso Douglas, né? – perguntou o velho.

- Sim.

- Sua avó gostava muito de você. E digo mais… – o velho começou a sussurrar – você era o neto preferido.

Douglas deu um sorriso amarelo e triste, e perguntou:

- Desculpe, mas… quem é você?

- Um antigo amigo da família – respondeu o velho – Eu e o seu bisavô, o mesmo que fez esse pingente aí que você está usando, fomos melhores amigos um do outro. Ele foi muito querido para mim.

- Sem dúvida alguma essa estrela era muito mais adequada para ele do que para mim – disse Douglas, demonstrando amargura pessoal.

- Meu jovem, vou te dizer uma coisa. Não sei se já lhe contaram, mas o seu bisavô perdeu os pais dele muito cedo. Desde criança teve que trabalhar para sustentar os irmãos, mais novos ainda do que ele. Passou fome. Tempos depois conseguiu emprego numa pequena joalheria e aprendeu a confeccionar jóias com a sua idade mais ou menos. Era talentoso. Não demorou muitos anos para ter um negócio próprio e relativamente próspero…

Douglas começava a demonstrar interesse pela história, e o velho continuava…

- …Mas antes de conhecer a mãe de sua avó, ele conheceu uma moça, e ficou perdidamente apaixonado por ela. Sofreu um golpe. Essa mulher tinha um amante com quem havia combinado roubar todos os pertences de seu bisavô, incluindo todas as jóias da pequena loja, muitas já vendidas sob encomenda. Não conseguiu ressarcir os compradores e contraiu dívidas. Falava até em suicício. Só não chegou a mendigar nas ruas porque minha família o abrigou em nossa casa.

- Nossa! – exclamou Douglas – E pensar que ele havia feito essa estrela de prata tão bonita para uso próprio antes de toda essa tragédia… justamente uma estrela! Quanta ironia!

- Não, meu jovem – corrigiu o velho – O seu bisavô fez essa estrela quando ele estava por baixo. Nós dois, após algum tempo e com muita dificuldade, compramos matéria-prima ele poder recomeçar. Só que antes de produzir para vender, ele fez essa estrela aí para poder usar. Depois de pronta, levou na igreja para o padre benzer. Dizia ser uma espécie de amuleto.

- E então a vida dele melhorou depois disso? – perguntou Douglas

- Não. Ele teve várias outras frustrações. Perdeu a esposa, sua bisavó que ele tanto amava, tendo pouquíssimo tempo de casado. Ficou mal visto pela cidade após espalharem um boato de que suas jóias eram feitas com matéria-prima roubada e que algumas eram falsas. Coisa de gente maldosa. Mas em cidade de interior, o povo mais fala do que procura comprovar. Teve até problemas com a polícia por causa disso. Mas ele nunca desistiu. Sempre manteve uma estrela com ele. Não somente essa de prata, mas sim uma interior. Posso afirmar que o maior presente do seu bisavô foi a filha que ele teve, a sua avó. Ela sim foi a sua verdadeira estrela, seu verdadeiro tesouro conquistado ao longo de sua vida. Uma filha amável e uma mulher querida por todos. E por isso ele a presenteou com esse pingente quando já estava perto de morrer.

Douglas fez um breve silêncio antes dizer algo.

- Obrigado. – disse ele.

O velho sorriu e, em passos lentos e sofridos, foi até o caixão contemplar a filha de seu eterno amigo.

Horas depois, sua avó havia sido enterrada. Apesar do momento triste, Douglas estava com o coração em paz. Quando todos já se afastavam do túmulo recém fechado de sua avó, Douglas viu na lápide de seu bisavô, que ficava ao lado, a seguinte frase:

“Eis aqui um homem que soube produzir sua própria estrela, e que continua a brilhar”

Douglas chorou, sorrindo.

(Renan Mariano)
História bonitinha e politicamente correta pra vocês =)
 

sexta-feira, 26 de março de 2010

Meu aniversário, coisa e tal…


23 aninhos…

Uma idade esquisita onde se está mais perto dos 25 do que dos 20. E estar com 25 é estar no meio da década para chegar aos 30. Aos 30 você trabalha que nem um corno, não vê o tempo passar e chega rapidamente aos 40. Com 40 os filhos te sugam a energia, e quando você menos espera está com 50, e logo se aposenta. Daí pra velhice é questão de dias.

Conclusão: Tô velho =(

Mas que saber… PARABÉNS PARA MIM! =D

sábado, 13 de março de 2010

Documentando os sonhos


Oi, galerinha!
Gostam de sonhos?


sonho

 

Outro dia, no Twitter, alguém que eu sigo disse que anotou em um caderno todos os sonhos que teve ao longo de algum ano. No final, esse alguém disse que suas anotações estavam bem divertidas e que foi uma experiência interessante. Não lembro quem foi a pessoa, mas inspirado nela resolvi fazer o mesmo.

Só que eu não vou usar caderno. Vou usar um arquivo no PC para isso. Não quero ninguém lendo meus sonhos sem que eu tenha mostrado. E não sei se eu vou escrever com todas as letras os sonhos mais pesados que eu tiver. Afinal, até mesmo para escrever um sonho bem perturbador que você teve para somente você ler, necessita-se de certa coragem. E eu não sei se terei tal coragem. Existem sonhos que a gente quer mais é esquecer. Sim, confesso: tenho sonhos inconfessáveis. Mas os mais confessáveis eu postarei aqui no blog futuramente.

Como vocês já devem ter percebido, quando eu falo em sonho, tô incluindo pesadelos também. É que não quero ficar usando as duas palavras. Portanto, sonhos = sonhos + pesadelos + coisas indiferentes.

Essa experiência pode, inclusive, ter certa serventia. Afinal vou poder estimar o que tenho sonhado com mais frequência. Quem sabe não descubro algo mais sobre minha personalidade, haha. Mas o objetivo principal é ter um arquivo cheio de sonhos e me divertir relembrando muitos deles.

Uma pena que costumamos esquecer grande parte do que sonhamos logo assim que a gente acorda. E quanto mais o dia passa, mais você se esquece do seu sonho da noite passada. Portanto, creio que terei que documentar meus sonhos pouco depois de acordar, para não correr o risco de esquecer tudo, como aconteceu ontem, dia 12.

Falando em datas, vou adiantar o meu sonho do dia 11, o primeiro documentado. Sonhei que o meu primo Maurinho estava me ensinando a fazer um prato que envolvia laranja frita com uma espécie de empanado de frango. Ela falava para eu fritar uma laranja descascada e inteira, e também o frango, só que usando suco de laranja (nada de óleo ou manteiga). Depois disso, a laranja era cortada em quatro gomos iguais e os gomos eram fixados de alguma forma com pedaços de frango. Fiz conforme ele ensinou, pedi para ele provar e ele disse que ficou bom, porém me chamou atenção para um dos gomos que não tinha sido bem fritado.

Bizarro, não? :P

Pois é. Essa é a minha ideia. Ter um monte de sonhos assim. Uns esquisitos, outros significativos, bonitos, pesadelos e… claro, meu arquivo provavelmente terá alguns contos eróticos. Sexo é um tema recorrente nos sonhos de qualquer um. Mas como eu disse, nem tudo eu vou mostrar. Pelo menos não para qualquer um ;)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Tempo passa


relogio_dali

Tempo passa, passatempo
Desenvolve sentimento
Tempo passa, passatempo
Prezado divertimento
Tempo passa, passatempo
Desastroso rompimento

Tempo passa, passatempo
Tempo passa, passatempo
Tempo que não passa
O que tem por aí?
Quanto tempo falta?
Temo que não passe o tempo
Tem porque tem que passar esse tempo

Tempo passa, passatempo
Ameniza sofrimento
Tempo passa, passatempo
Na ferida sopra o vento
Tempo passa, passatempo
Renovado seu momento

Renan Mariano

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Formspring

Há três dias atrás fiz um perfil no imagemdivertido www.formspring.me (eu aqui). Para quem ainda não conhece, é um site onde você recebe perguntas de outras pessoas de forma anônima ou não. Mas que tipo de perguntas? Perguntas de todo o tipo!

A ideia é simples e bacana, e por isso não entendo porque algo do tipo não tenha sido criado antes. O Formspring é um site que mexe com a curiosidade dos que estão lá para perguntar (e saber mais coisas sobre seu amigo(a))  e com a dos que estão lá para responder (ansiosos pela próxima pergunta). Trata-se, portanto, de um sucesso bilateral. Os que perguntam podem fazê-lo em anônimo, e isso os deixa confortáveis para perguntarem tudo o que quiserem. Tudo mesmo! Já os que respondem também tem sua opção de conforto, bastando deletar as perguntas sem responder.

A mistura “curiosidade + conforto” é bombástica. Um tema recorrente no Formspring é, obviamente, sexo. Se você permitir, todo o seu perfil sexual será traçado através dele. Recebi perguntas sobre sexo a três, por exemplo. E nem sempre deletar perguntas é a melhor opção. Você pode acabar se entregando por causa disso. Mas existem perguntas que não dá para responder mesmo, e você não é obrigado a isso. Além do mais, não podemos esquecer que outras pessoas podem ler. Certo cuidado se faz necessário.

O Formspring, apesar de ser divertido na maior parte do tempo, pode causar aborrecimentos também. Isso pode ocorrer por causa da sequência de perguntas cretinas que você não para de receber, mas também ocorre se você estiver de rolo com alguém. Já andei presenciando situações por lá. O cara indo tirar satisfações da moça sobre a maneira com a que ela respondeu tal pergunta, ou então o namorado que se faz passar por anônimo para arrancar coisas da namorada e vice-versa, e por aí vai. As possibilidades de utilização são grandes. Mas se você for parar para pensar, isso ocorre também no Orkut, Facebook, Twitter etc. É o mal das redes sociais, e o formspring não deixa de ser uma, já que, assim como no Twitter, você pode seguir os perfis dos seus amigos, e ver, com mais facilidade, o que eles responderam.

Então, se você for alguém super curioso provavelmente vai “gostar” do Formspring. Coloquei gostar entre aspas porque acho que tem gente que está lá mais pela curiosidade obsessiva do que pelo fato de estar gostando das perguntas que recebe e reponde, haha. Eu por enquanto estou gostando. E ainda estou muito curioso. Notável. Afinal há três dias a chamada do meu perfil é “Perguntem, pois logo deletarei isso aqui!”, e eu ainda não pensei em deletar de fato. Ô curiosidade maldita!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Oi gente,

Ando meio desanimado e sem criatividade para postar, principalmente textos maiores. Além do mais, estou com outras prioridades. Mas logo logo as coisas se ajeitam. Até!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sintomas se espalham

Olá pessoal!

Creio que o texto de maior repercussão neste blog seja o Sintomas de um homem apaixonado. Depois de quase 2 anos de escrito, vez ou outra recebo comentários nele. E também já copiaram. Uma menina - cujo blog não existe mais, mas o cache dele prevalece - colocou o meu texto lá. E foi legal, porque ela deu o devido crédito a mim, linkando o meu blog. O texto também foi parar num blog de dicas, numa seção que trata de saúde (O.o). Essa pessoa o modificou (ficou até melhor, admito), mas nem citou a fonte.

De qualquer forma é óbvio que eu fico satisfeito. Mesmo sendo um texto desprovido de um caráter mais sério - como a maioria dos que estão aqui - é muito bom saber que as pessoas não só te leem, como também apreciam o que você escreve ao ponto de te copiarem.

Mas gente, não custa nada fazer uma referenciazinha né :P

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

E assim vou mudando…


Olá amigos,
Este é o primeiro post de 2010. Estava demorando né?

Pois bem. Hoje eu quero falar de mudanças. Minhas mudanças, para ser mais específico. Algumas delas foram ocorrendo ao longo de alguns anos, outras somente no ano passado. Listarei algumas.


Video Game

Como eu era: Joguinhos eletrônicos eram a minha paixão na infância e na adolescência. Nossa, como eu curti o meu velho Super Nintendo! Bons tempos! Ficava horas sozinho jogando, alugava e comprava jogos, e também chamava a galera para brincar comigo. Fazíamos campeonato, gargalhávamos muito. O dia passava rápido, e ao fim dele o meu quarto ficava com aquele cheiro de nhaca típica de moleques na puberdade.

Como sou hoje:
Eu jogo pouco; não ando mais com saco. Só toquei no PlayStation do meu irmão quando ele ganhou, por causa da novidade. Não joguei mais após isso. Nas raras vezes em que jogo, são roms ou games para PC. E posso até começar empolgado, mas largo logo. Salvar um jogo? Não sei mais o que é isso. Creio que a perda dessa característica é o que me faz fugir do esteriótipo de nerd. Porém o fato de eu cursar Engenharia Eletrônica ainda me soma pontos nesse quesito.


Razão e emoção

Como eu era: Nunca fui frio; mas eu era menos emotivo. Já até fui considerado “safado, cachorro, sem-vergonha”. Vê se pode? Logo eu. Mas eu já fui um rapaz mais desprendido afetivamente. Não que eu não me preocupasse com as pessoas, mas eu pensava em mim antes.

Como sou hoje: Estou passando pelo momento mais emotivo da minha vida. Não, não vou fazer chapinha no meu cabelo e nem pintar os olhos. O fato é que estou menos racional do que eu era. Me preocupo mais com meus amigos, fico reflexivo com mais frequência. Coisas que eu considerava pequenas passaram a me atingir. Enfim, fiquei mais “fofo”; mas não sei até onde isso é bom.


Palavrões

Esta talvez seja uma consequência do item anterior.
Como eu era: Falava com frequência. Não era uma Dercy Gonçalves da vida, mas eles integravam sim o meu vocabulário numa conversa informal. “ Blá, blá, blá, po*** ”, “ Blá, blá, blá, cara*** ”, e por aí vai.

Como sou hoje: Evito ao máximo. Se xingo, é porque sai por impulso. E não gosto quando acontece; me sinto mal. Acho um tanto nojento falar e escrever. Há alguns meses atrás eu não colocaria os asteriscos acima. Falaria na lata. Fod*-**.


Forma física

Como eu era: Forma física de graveto. Magrelo toda a vida, as únicas coisas que salvavam eram meus ombros largos, frutos de alguns anos de natação. Fora isso, eu era digno de pena e de muito feijão.

Como sou hoje: Melhor. Entrei na academia no início do ano passado e consegui mudar algo. As pessoas já comentam; alguns elogiam (rs). Não quero (e acho que nem conseguiria) ficar bombado, mas pretendo ainda ganhar mais corpo. Quero ficar gostoso esse ano.


Relação com os estudos

Como eu era: Dedicado ao extremo com os meus afazeres acadêmicos. Chegava a ser chato. Fazia tudo perfeitamente. Era impecável. Até o fim do ensino médio eu não estudava com frequência. Achava tudo muito tranquilo. Somente uma semana antes da semana de provas é que eu estudava todas as matérias. E dava certo. Fui uma referência, haha. 

Como sou hoje: Um aluno mediano. Claro que continuo me dedicando; mas esses 4 anos de engenharia me esgotaram. Chuto o balde da perfeição. Ainda bem que está acabando. Só preciso de um último suspiro para terminar o a faculdade e fazer provas de concursos públicos. Creio que não terei pique para emendar num mestrado; por isso quero estagiar logo, visando um emprego assim que eu terminar a faculdade. Resumindo. Aquele Renan extremamente estudioso e focado que muitos conheceram está cada vez mais desaparecendo. Mas eu quero que ele volte. Eu gostava e vou precisar mais dele.

***

Claro que existem muitas outras mudanças que ocorreram em mim; mas estas são as que consegui lembrar para escrever logo um texto de abertura para 2010. De maneira geral talvez eu tenha piorado, não sei. Mas a vida é assim mesmo. O cenário muda e a gente também.