sábado, 10 de abril de 2010

O pingente

Douglas acordou animado. Era fim de semana e pela janela aberta podia ver que o sol brilhava. Tomou um banho demorado e sentou-se à mesa com sua família para tomar o café. Contrariando sua frequente aversão às interações matinais, Douglas estava alegre e tagarela, contando seus planos para a noite. Mal havia terminado de falar, quando sua mãe lembra que havia chegado algo para ele mais cedo.

- É presente de aniversário atrasado de sua avó de Minas – disse ela.

Douglas abriu um largo sorriso. Adorava receber presente, qualquer tipo de presente, não importando o tamanho ou valor. Ficava visivelmente satisfeito. Fazia uma festa. Certa vez, quando mais novo, ganhou de sua tia um simples carrinho comprado em camelô. Não era seu aniversário nem nada. Ela apenas passou na feirinha, viu o carrinho, pensou no sobrinho e comprou para ele. Douglas arregalou os olhos, pegou o carrinho e saiu correndo pela casa gritando e mostrando pra todo mundo. Não costumava agradecer formalmente, do tipo “obrigado”, mas recompensava o presenteador pela empolgação. Quando se é criança, o simples fato de curtir plenamente o presente já é o melhor dos agradecimentos.

- Vou passar a comprar algo pra esse menino toda a semana! – disse a tia, na ocasião.

O embrulho enviado por sua avó era pequeno, e Douglas não demorou muito para abri-lo. Ou melhor, rasgá-lo. Douglas tinha um sério problema de falta de paciência. Possuia a ansiedade de uma criança apesar de já ter passado dos 20.

- Um pingente! – exclamou Douglas – é de prata, uma estrela!
- Coisa de boiola – comentou a irmã adolescente.
- Pois eu achei de muito bom gosto – disse a mãe.
- Bonitão – completou o pai.

Douglas rapidamente correu até o seu quarto e pegou um antigo cordão de prata que possuía, mas que raramente usava. Lavou-o, adicionou o pingente, e colocou o cordão no pescoço.

- Tô bonito?
- Tá lindo! – disse a mãe.

Seu pai o alertou sobre o bilhete que havia chegado junto com o presente. Nele, lia-se: “Querido neto, esse pingente foi usado por seu bisavô, meu pai, durante muitos anos. É uma peça única, feita pelo próprio, que como você deve saber, trabalhava com confecção de jóias. Te amo muito! Feliz Aniversário!”. Douglas ligou para a sua avó, agradecendo. Quando se é adulto, agradecimentos através de palavras tornam-se indispensáveis.

A noite havia chegado e Douglas deciciu sair com seus amigos. Claro, usou o novo acessório. Foram à boate. Douglas era tímido, mas vez ou outra se arriscava com alguma menina que o interessava. E com aquela estrela no peito então, ele estava com uma confiança acima do normal. É curioso como um pequeno detalhe em nosso visual mexe com a nossa autoestima.

- Eu tenho namorado, desculpa – explicou a menina a quem ele abordou.

Douglas se conformou. Foi dançar com os outros, mas não demorou muito para ver a mesma menina aos beijos com um amigo solteiro de um amigo que havia ido junto com eles. Sem dúvida, ele não era o namorado dela. Pensou que havia sido dispensado por um motivo nobre. Mas não. Seus “amigos” o sacanearam a noite inteira. Entristeceu-se.

Já estava amenhecendo, quando todos saíram da boate. Douglas foi para casa, mas antes de ir dormir para acordar só depois do meio dia, verificou sua caixa de e-mail. Havia uma pauta de notas. Eram as notas da prova final de uma matéria da faculdade na qual ele estava com muita dificuldade. Foi reprovado. Seus olhos ficaram marejados. Foi dormir.

Acordou mais cedo do que o previsto, às 10h. Na verdade, foi acordado. Sua mãe disse que a sua avó, a mesma que o presenteou com o pingente, havia falecido. Infarto fulminante.

- Não acredito! – exclamou ele, que chorou ainda deitado na cama.

Viajaram para Minas no mesmo dia para o velório e enterro. Douglas passou a viagem inteira sem falar uma palavra. Lacrimejava vez ou outra.

No velório, um senhor que aparentava muita idade se aproximou dele.

- Você é o famoso Douglas, né? – perguntou o velho.

- Sim.

- Sua avó gostava muito de você. E digo mais… – o velho começou a sussurrar – você era o neto preferido.

Douglas deu um sorriso amarelo e triste, e perguntou:

- Desculpe, mas… quem é você?

- Um antigo amigo da família – respondeu o velho – Eu e o seu bisavô, o mesmo que fez esse pingente aí que você está usando, fomos melhores amigos um do outro. Ele foi muito querido para mim.

- Sem dúvida alguma essa estrela era muito mais adequada para ele do que para mim – disse Douglas, demonstrando amargura pessoal.

- Meu jovem, vou te dizer uma coisa. Não sei se já lhe contaram, mas o seu bisavô perdeu os pais dele muito cedo. Desde criança teve que trabalhar para sustentar os irmãos, mais novos ainda do que ele. Passou fome. Tempos depois conseguiu emprego numa pequena joalheria e aprendeu a confeccionar jóias com a sua idade mais ou menos. Era talentoso. Não demorou muitos anos para ter um negócio próprio e relativamente próspero…

Douglas começava a demonstrar interesse pela história, e o velho continuava…

- …Mas antes de conhecer a mãe de sua avó, ele conheceu uma moça, e ficou perdidamente apaixonado por ela. Sofreu um golpe. Essa mulher tinha um amante com quem havia combinado roubar todos os pertences de seu bisavô, incluindo todas as jóias da pequena loja, muitas já vendidas sob encomenda. Não conseguiu ressarcir os compradores e contraiu dívidas. Falava até em suicício. Só não chegou a mendigar nas ruas porque minha família o abrigou em nossa casa.

- Nossa! – exclamou Douglas – E pensar que ele havia feito essa estrela de prata tão bonita para uso próprio antes de toda essa tragédia… justamente uma estrela! Quanta ironia!

- Não, meu jovem – corrigiu o velho – O seu bisavô fez essa estrela quando ele estava por baixo. Nós dois, após algum tempo e com muita dificuldade, compramos matéria-prima ele poder recomeçar. Só que antes de produzir para vender, ele fez essa estrela aí para poder usar. Depois de pronta, levou na igreja para o padre benzer. Dizia ser uma espécie de amuleto.

- E então a vida dele melhorou depois disso? – perguntou Douglas

- Não. Ele teve várias outras frustrações. Perdeu a esposa, sua bisavó que ele tanto amava, tendo pouquíssimo tempo de casado. Ficou mal visto pela cidade após espalharem um boato de que suas jóias eram feitas com matéria-prima roubada e que algumas eram falsas. Coisa de gente maldosa. Mas em cidade de interior, o povo mais fala do que procura comprovar. Teve até problemas com a polícia por causa disso. Mas ele nunca desistiu. Sempre manteve uma estrela com ele. Não somente essa de prata, mas sim uma interior. Posso afirmar que o maior presente do seu bisavô foi a filha que ele teve, a sua avó. Ela sim foi a sua verdadeira estrela, seu verdadeiro tesouro conquistado ao longo de sua vida. Uma filha amável e uma mulher querida por todos. E por isso ele a presenteou com esse pingente quando já estava perto de morrer.

Douglas fez um breve silêncio antes dizer algo.

- Obrigado. – disse ele.

O velho sorriu e, em passos lentos e sofridos, foi até o caixão contemplar a filha de seu eterno amigo.

Horas depois, sua avó havia sido enterrada. Apesar do momento triste, Douglas estava com o coração em paz. Quando todos já se afastavam do túmulo recém fechado de sua avó, Douglas viu na lápide de seu bisavô, que ficava ao lado, a seguinte frase:

“Eis aqui um homem que soube produzir sua própria estrela, e que continua a brilhar”

Douglas chorou, sorrindo.

(Renan Mariano)
História bonitinha e politicamente correta pra vocês =)