quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Trago a pessoa amada!


Não, não virei feiticeiro. E nem poderia. Ultimamente eu ando tão ocupado que, mesmo se eu fosse chegado num despacho, estaria em dívida com os orixás. Imagina então fazer trabalho para os outros. Tudo bem que isso poderia até me garantir uma renda extra, mas eu prefiro não mexer com coisas obscuras; então é melhor eu continuar com a faculdade, que já estou quase terminando. Se bem que eu faço Engenharia Eletrônica né; de qualquer forma eu lido com o obscuro há quase 5 anos. Enfim.

Vou confessar que eu leio horóscopo de vez quando. Não que eu acredite, mas acho interessante. Afinal, quando se está no banheiro, sentado na privada, tudo o que está escrito num jornal velho parece interessante. Mas digamos que eu tenha um "carinho" especial pelo horóscopo. Não me custa nada ler, e me diverte associar as coincidências que às vezes ocorrem. "Áries. O momento não é propício para investimentos arriscados". "Caraca, maneiro, realmente ando sem grana; não tô podendo gastar, hihihi".

Horóscopo faz parte das coisas que eu leio enquanto estou no trono, junto com piadas, colunas de fofoca, tabelas de campeonato, etc. Quando há caneta por perto, rola também um Sudoku ou Palavras Cruzadas.

Leio bastante aquela Canal Extra no banheiro. E, ao passar pela página do horóscopo, não consigo deixar de notar a simpatia que sempre vem contida na página adjacente. Por muito tempo eu nunca me interessei em ler aquele troço. Até que um dia eu li, e aquilo passou a me chamar atenção.

Uma das simpatias diz respeito ao que se deve fazer para a união sentimental: "Refogue 500g de grãos de feijão fradinho na cebola ralada, camarão seco triturado e dendê. Ponha numa tigela amarela o feijão refogado. Deixe amornar e enfeite com uma flor de girassol grande (...)". A coisa continua, mas só pelo início já dá pra achar graça. É um tal de "fazer arroz", "refogar aipim", "ralar batata", "temperar com azeite de dendê" que mais parece uma receita culinária. Não me admiraria se a Ana Maria Braga começasse a ensinar simpatias ao invés de ensinar a fazer pratos. A diferença entre as duas práticas é quase nula. O problema é que ela talvez poderia aderir à prática do sacrifício e depenar e assar o Louro José para fazer oferenda. O que de fato seria uma solução, não um problema. Papagaio chato da porra.

Outra coisa que me chama atenção são os muros com propagandas do tipo "trago a pessoa amada em 3 dias". É mais ou menos igual à "perca 20Kg em 1 semana". Tem gente que acredita. Mas deixa eu falar com você, pessoa obsessivamente apaixonada. Vou te dar um toque: o seu amado(a) não vai cair nos seus braços em 3 dias, ok? Se ele estiver no Japão, por exemplo, a feiticeira não vai aproximá-lo de você em 3 dias má nem à base de dezenas de galinhas pretas degoladas. Mas caso ele(a) esteja mais perto, e caia na sua por intermédio de algum feitiço brabo, qual é a graça? É tão mais interessante alguém estar com você por gostar de você do jeito que você é do que através de alguma amarra satânica.

Emprego, fortuna, sucesso, amor... tudo isso depende única e exclusivamente da forma como você se porta no mundo e de alguma sorte eventual. O resto é bobagem. Todo mundo sabe que, para manter uma união sentimental, uma colher de respeito, uma dose de carinho e uma pitada de compreensão são muito mais eficazes do que 500g grãos de feijão fradinho na cebola ralada.

domingo, 5 de setembro de 2010

Amiga


Guilherme chegara na hora marcada. 20h30. Cecília admirava a pontualidade do seu namorado. Deu-lhe um beijo discreto, enroscou seu braço no dele e, carinhosa, perguntou sobre o dia do rapaz. Andavam pela rua e conversavam amenidades, quando foram interrompidos por um grito:
- Cecília! Cecília!
Cecília virou-se e viu a moça se aproximando, esbaforida.
- Oi Letícia! O que houve?
- Amiga, preciso imediatamente do meu livro de Anatomia. Já terminou de usá-lo?
- Já sim. Fique aqui que eu pego pra você.
Cecília se afastou, sendo acompanha pelos olhos de Guilherme e Letícia. Quando estava longe o suficiente, Letícia iniciou:
- E então, quando vamos sair novamente?
- Não estou pensando em repetirmos isso - disparou Guilherme.
- Como assim? Não gostou?
- Gostei, mas não acho certo.
- Por que?
- Ora, Cecília é minha namorada e sua amiga! Sonsa!
- E acha certo ficar preso a ela?
- Acho certo cumprir honestamente com um compromisso que eu mesmo quis assumir.
- Acha certo negar seus desejos?
- Não sei. Não quero parecer leviano.
- Você está sendo leviano. Comigo. Com meus sentimentos.
- Ah, poupe-me.
- Não vou poupá-lo. Não aceito ser usada.
- Mas não foi.
- Então tenho esperanças?
- É você quem está dizendo.
- Você não presta!
- Olha quem fala!
- Nojento!
- Falsa!
- Covarde! Conta pra ela! Duvido!
- Contar que a amiga dela é uma safada? Bem que eu queria.
- Sempre tem uma resposta pra tudo, né?!
- Sempre.
- Canalha!
- Safada!
- Safada, mas bem que você gostou.
- Não posso negar.
- Que safado!
- Gostosa!
- Admito, sou louca por você!
- Fique quieta, ela está vindo!

Cecília se aproximou, sorridente.
- Aqui está, amiga. Muitíssimo obrigada!
- De nada, fofa.
- Sem esse livro eu não seria nada na prova de hoje.
- Que bom poder ter ajudado.
- Você não faz ideia do quanto!

Uma sorriu para a outra. Letícia deu meia volta, enquanto o casal seguia pela rua em sentido contrário. Segundos depois, Letícia olhou para trás, ao mesmo que tempo que Guilherme. Olharam-se. Encararam-se. Sorriram. Sorrisos esses que eram preço da ingenuidade de Cecília. Ou, no mínimo, o valor da locação do livro de Anatomia.