domingo, 5 de setembro de 2010

Amiga


Guilherme chegara na hora marcada. 20h30. Cecília admirava a pontualidade do seu namorado. Deu-lhe um beijo discreto, enroscou seu braço no dele e, carinhosa, perguntou sobre o dia do rapaz. Andavam pela rua e conversavam amenidades, quando foram interrompidos por um grito:
- Cecília! Cecília!
Cecília virou-se e viu a moça se aproximando, esbaforida.
- Oi Letícia! O que houve?
- Amiga, preciso imediatamente do meu livro de Anatomia. Já terminou de usá-lo?
- Já sim. Fique aqui que eu pego pra você.
Cecília se afastou, sendo acompanha pelos olhos de Guilherme e Letícia. Quando estava longe o suficiente, Letícia iniciou:
- E então, quando vamos sair novamente?
- Não estou pensando em repetirmos isso - disparou Guilherme.
- Como assim? Não gostou?
- Gostei, mas não acho certo.
- Por que?
- Ora, Cecília é minha namorada e sua amiga! Sonsa!
- E acha certo ficar preso a ela?
- Acho certo cumprir honestamente com um compromisso que eu mesmo quis assumir.
- Acha certo negar seus desejos?
- Não sei. Não quero parecer leviano.
- Você está sendo leviano. Comigo. Com meus sentimentos.
- Ah, poupe-me.
- Não vou poupá-lo. Não aceito ser usada.
- Mas não foi.
- Então tenho esperanças?
- É você quem está dizendo.
- Você não presta!
- Olha quem fala!
- Nojento!
- Falsa!
- Covarde! Conta pra ela! Duvido!
- Contar que a amiga dela é uma safada? Bem que eu queria.
- Sempre tem uma resposta pra tudo, né?!
- Sempre.
- Canalha!
- Safada!
- Safada, mas bem que você gostou.
- Não posso negar.
- Que safado!
- Gostosa!
- Admito, sou louca por você!
- Fique quieta, ela está vindo!

Cecília se aproximou, sorridente.
- Aqui está, amiga. Muitíssimo obrigada!
- De nada, fofa.
- Sem esse livro eu não seria nada na prova de hoje.
- Que bom poder ter ajudado.
- Você não faz ideia do quanto!

Uma sorriu para a outra. Letícia deu meia volta, enquanto o casal seguia pela rua em sentido contrário. Segundos depois, Letícia olhou para trás, ao mesmo que tempo que Guilherme. Olharam-se. Encararam-se. Sorriram. Sorrisos esses que eram preço da ingenuidade de Cecília. Ou, no mínimo, o valor da locação do livro de Anatomia.

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