sábado, 16 de outubro de 2010

Águas nem tão profundas


Ouvi dizer certa vez que quando temos em torno 4 anos de idade
nosso cérebro se desenvolve ao ponto de começar a arquivar fatos em forma de lembranças, ou seja, não lembramos nada de nossas vidas que tenha acontecido antes dessa idade. Pedro não fugiu a essa regra. Apesar de muito se esforçar, ele só consegue se lembrar das coisas a partir do dia em que todos comemoravam o aniversário de sua bisavó em um sítio. Naquela época ele estava justamente com 4 anos.

No sítio havia uma enorme piscina. Pedro gostava de olhar aquela água toda junta, mas morria de medo. Não conseguia sequer chegar à beira. Todos os seus primos sentavam-se nas estiradeiras que ali existiam, menos ele. Após algumas insistências e caçoadas, Pedro finalmente decidiu tomar para si uma estiradeira, e sentou-se. Porém estava longe de relaxar. Seu maior medo era escorregar e cair na água. Não caiu. Mas talvez tenha sido essa tensão toda o motivo pelo qual desencadeou-se o sistema de lembranças no cérebro de Pedro. A partir daí, tudo de intenso que ele viveu ele consegue se lembrar.

Cerca de dois anos depois, Pedro viajou com seus pais para uma cidade pequena porém bem cuidada e aconchegante. Havia também uma piscina no hotel em que se hospedaram. Numa bela manhã de sol, o pai do menino o chamou para brincar com ele na água...

- Vem meu filho. Entra na piscina!
- Não! Você vai me afogar que eu sei.
- Deixa disso, sou seu pai.
- Mas você vai afundar a minha cabeça na água de próposito, eu vou querer sair e você não vai deixar.
- Vou não, vem com o papai vem, prometo, eu te seguro, vem Pedrinho!

Se tem uma coisa que faz a cabeça de Pedro, essa coisa se chama insistência. Pedro bate o pé por um tempo, mas geralmente acaba cedendo. Não pelo fato de ele não ter personalidade, pois isso ele tem e muito, mas sim porque muitas de suas suas negações de início são baseadas em impulsos desprovidos de qualquer tipo de razão. Ele queria entrar na piscina, sempre quis, mas tinha medo. Mas ora, era seu pai! E assim sendo, que mal poderia lhe acontecer estando protegido por ele?

A vida do ser humano é assim mesmo. A vontade é o sonho. A oportunidade é a fagulha, é o fio de esperança sobre os qual o sonho pode se tornar realidade. A insistência relativa a essa oportunidade é o fogo provocado pela fagulha, que se torna mais sedutor à medida que mais desejamos conhecê-lo de perto. E assim cedemos.

Para Pedro, desfrutar de uma grande piscina era o sonho; o fato de haver uma piscina dessas no local onde estava era a oportunidade; seu pai era a insistência. Misturados os elementos, Pedro se aproximou e, mesmo temendo, abraçou o seu pai.

Os primeiros minutos foram difíceis. O pai caminhava pela água enquanto Pedro permanecia agarrado firmemente a ele. Mergulhar nem pensar! Foi cumprida a promessa. Seu pai o protegeu sem lhe aprontar grandes surpresas, como afogá-lo de brincadeira. Foi com o menino até a parte mais funda, onde havia uma pequena cascata feita com uma parede de rochas. Ao ver o seu pai se aproximando da água corrente, Pedro gritou. Chorou. Quis voltar.

- Vamos lá, filho. Só vou chegar perto.

Pedro mais uma vez emitiu uma daquelas negações pouco fundadas. Seu pai já o conhecia bem. Ora, ele queria ver a cachoeirinha de perto sim. Insistiu. Pedro se acalmou e foram para perto. Seu pai estendeu a mão em direção à água que caía, e olhou para o menino, sorrindo.

- Olha só que legal, filho! Coloca a mão pra você sentir a água caindo sobre ela. Vai lá.

Pedro olhou para a água que caía e estendeu sua mão, mesmo temendo que o seu pai ainda lhe aprontasse alguma. Mas não. Pedro pôde tocar a água por alguns segundos sem que seu pai fizesse gracinha. E assim o menino contemplava a pequena cachoeira, tocava suas águas, e familiarizava-se com ela e com o restante da piscina.

Existem pequenas coisas que são fundamentais para que a nossa vida prossiga da forma como deve ser. Uma delas é a confiança. Ninguém faz grandes coisas sem, em algum momento de sua vida, ter confiado em alguém e ter tido confiança sobre algo. Aliás, não se faz nem pequenas coisas sem confiança. Quem não confia em ninguém não tem ninguém. Quem não se sente confiante para fazer algo não faz algo, não faz nada, nunca. Imperam eternamente o medo e a solidão.

Pedro, motivado pela curiosidade, apesar de suas negações iniciais, havia confiado em seu pai. Este respondeu positivamente, guiando o menino, ao invés de aumentar-lhe um pavor desnecessário com alguma brincadeira inesperada. Dessa forma, encontrou Pedro um meio pelo o qual pudesse começar a se sentir confiante sobre a água.

Pedro já começava a sentir mais prazer do que medo enquanto tocava na água corrente. Percebendo a gradual adaptação de seu filho, o pai sentiu que era hora de fazer uma nova proposta.

- Pedrinho, vamos entrar debaixo da cachoeira?
- Não!
- Papai vai com você. Vou estar abraçado contigo. Vamos juntos e logo voltamos pra fora da água.
- Não!
- Ah, vamos, é divertido!

A risada e a confiança que seu pai passara e o contato anterior com a cachoeirinha, tornou essa mais uma negação volúvel, como todas as outras haviam sido.

- Vou contar até três tá?
O menino não negou mais.
- 1...
- 2...
- 3 e já!

Entraram debaixo da pequena cascata. Seu pai deu um grito de alegria, sacudindo o filho. O menino permanecia agarrado a ele, de olhos fechados. Saíram debaixo da água poucos segundos depois. Pedro não riu, não chorou. De cabelo molhado e olhos arregalados olhava tudo em volta. Seu pai gargalhava, e arriscou mais...

- Agora vamos mergulhar!
- Não!
- Vamos! Mergulho contigo! É só descer e subir! Vou contar até três!
Não houve mais negações.
- 1... prende a respiração com o papai... assim só
- 2...
Prenderam.
- 3...
Fecharam os olhos.
- e... já!

Mergulharam e voltaram quase no mesmo segundo. Pedro voltou ainda mais assustado. Parecia que iria pedir para sair dali. Na verdade por um momento ele pensou. Mas não o fez. Ficou um tempo ainda agarrado a seu pai até que este mergulhou novamente com o seu filho, quase sem avisar.

- De novo, vamos...
E afundou com o menino.

Dessa vez Pedro não voltou mais assustado. Mergulharam mais uma vez. Pedro começava a esboçar um sorriso. E mergulharam novamente. Pedro já sorria. Foram sucessivos mergulhos. O menino começava a se divertir. Seu sorriso se transformava em riso.

- Vou te jogar pra trás e vou te buscar logo depois.

Pedro fechou a cara. Mas antes que pudesse reagir, foi lançado uns 2 metros a frente. Afundou. Mas logo foi resgatado por seu pai, que o tirou debaixo d'água e o levantou bem alto, deixando o menino com os pés acima da superfície e de frente para ele. O pai riu, olhando para o filho, e foi muito bem correspondido. Pedro deu uma deliciosa gargalhada, daquelas tão espontâneas que nos fazem ganhar o dia.

O menino estava batizado. Já sem medo, brincou na piscina o restante do passeio sem precisar do colo de seu pai. Pulou, riu e curtiu; jogou água nos outros; subiu nas rochas que formavam a pequena cachoeira, e tirou fotos lá de cima fazendo poses; caiu lá de cima dentro da água, na parte funda, fazendo com que seu pai ficasse alerta. Só que este nem precisou reagir. Pedro pôs a cabeça fora da superfície, rindo do seu próprio mico e esboçou um nado esquisito para voltar para a parte rasa, onde lhe dava pé. E ali ele gargalhou mais ainda. Era a prova de que o menino havia se superado completamente.

Uma das sensações mais gostosas da vida é quando superamos algo. É é uma sensação que não se desgasta jamais. Pensar que aquilo tão bobo pudesse nos amedrontar tanto nos prova o quanto mudamos para melhor, o quanto crescemos. E isso é um prazer infinito e impagável.

Meses mais tarde, Pedro iniciou aulas de natação. Anos depois, o menino ganhava sua primeira medalha de ouro em uma competição.