sábado, 31 de dezembro de 2011

Promessas para o Ano Novo

A virada do ano costuma despertar em nós sentimentos diversos que nos levam à reflexão. É de maneira quase involuntária que fazemos um balanço geral da nossa vida nessa época. Relembramos nosso passado, repensamos nosso presente e replanejamos nosso futuro. É impossível não pensar em algumas mudanças. E é baseado nesse desejo de mudança que acabamos prometendo tomar certas atitudes. Segue abaixo a lista do que mais ouço/leio o pessoal prometendo por aí.


Vou emagrecer- “Vou emagrecer”

Eu nunca tive problema com excesso de peso. Pelo contrário, gostaria até de pesar mais. Mas o que vejo de gente (principalmente mulheres) batendo o martelo na convicção de que no próximo ano apresentará uma silhueta melhor não está… na academia. Isso mesmo. Passam as festas de fim de ano, chega janeiro, fevereiro, e a academia fica muito mais cheia de gostosas do que de gordinhas, como sempre. E a promessa? Bom, se o fulano ou fulana é saudável mesmo estando acima do peso, adora comer e, principalmente, já está namorando com alguém (e portanto não quer emagrecer no desespero de conseguir um relacionamento), geralmente a promessa vai por água abaixo. Ou melhor, por lasanha goela abaixo.


- “Vou juntar dinheiro”

Essa tem mais a ver comigo. E eu até consigo juntar. Mas nunca é para o longo prazo. Poupo no primeiro semestre para gastar em algo caro no segundo. Tem sido mais ou menos assim. Porém, tem gente que faz planos mirabolantes. “Vou começar a juntar dinheiro para comprar uma casa!”. Nada contra, oras! Acho muito válido. Mas tem gente que faz promessa no calor dos fogos da virada e esquece de sentar em janeiro e fazer um planejamento financeiro mais sério. Considerando minhas condições e minha personalidade, minha tática é um pouco diferente. Eu nunca penso “vou juntar dinheiro para fazer tal coisa”. Jamais especifico. Apenas junto. Gastarei em quê? Em breve descubro.


- “Vou namorar”

Essa é uma promessa complicada, pois não depende 100% de você. Você não pode prometer que vai encontrar alguém que te fará tremer as pernas no próximo ano. Ninguém pode planejar uma paixão. Ou, no caso de já existir alguém, não pode prometer que essa pessoa de quem você gosta aceitará o seu pedido de namoro. Só existe uma situação em que você tem esse tipo de controle: quando você tem a certeza de que alguém gosta de você e, portanto, aceitaria um pedido de namoro seu. Mas, convenhamos, se você espera o próximo ano para tomar uma atitude, significa que talvez você não esteja tão afim assim. E se já é difícil cumprirmos promessas que nos empolgam, imagine uma que não nos empolga…


- “Vou terminar o relacionamento”

Ao contrário da promessa anterior, essa depende 100% na você. Na teoria. Já na prática a coisa se torna um lenga-lenga insuportável. Tudo culpa daquele sentimento que você ainda tem, mesmo que a relação ande te fazendo mal. O casal termina, mas não se desvincula completamente. A saudade aperta e um fica correndo atrás do outro. Concluo da mesma forma que na promessa anterior: se você espera o próximo ano para terminar um relacionamento, é sinal de que você ainda não sabe bem se quer isso. O mais importante é prometer que as coisas que te fizeram mal não vão mais se repetir no próximo ano. Se isso vai culminar em um rompimento definitivo ou não, isso você saberá depois.


- “Vou estudar mais”

Essa era uma promessa que eu vivia fazendo na época do vestibular e no início da faculdade. Hoje em dia não. Não quero estudar mais. Quero apenas manter minha motivação para estudar o que preciso estudar. É diferente. Enfim, cumprir essa promessa de forma satisfatória envolve basicamente duas coisas: a prioridade (foco) que você dá a isso na sua vida e o fato de começar. Você não vai estudar mais se os estudos não figurarem lá em cima na lista das suas prioridades reais. E tem que começar. Evitar adiamentos. Adiamentos frustram. Depois de começar, o estudo flui mais naturalmente. E essa coisa de que é necessário abrir mão das diversões é uma grande besteira. Talvez seja necessário DE VEZ EM QUANDO você fazer isso, mas longe de ser algo frequente. Quem sabe organizar seus horários não precisa deixar de se divertir.


- “Vou praticar o bem”

Tem gente que desenvolve grandes sentimentos altruístas no Réveillon. Muito bonito. Mas de que adianta você querer visitar e doar dinheiro para um orfanato se você é daquele tipo de pessoa que destrata aqueles que convivem com você? E isso vale para mim também. Muitas vezes eu ajo (ajo - palavra esquisita, parece que tá errada!) com impaciência com os meus pais, irmão e amigos. E desnecessariamente. Confesso que não lembro de ter virado algum ano pensando em ajudar mais as pessoas, mas eu sempre estou querendo ser alguém melhor. E tento. O difícil mesmo é conseguir.


- “Vou fazer algo que eu sempre quis fazer”

”Vou aprender a tocar algum instrumento”. “Vou fazer um novo curso de línguas”. “Vou viajar para aquele lugar que eu desejo conhecer”. São várias as possibilidades. O problema é adequar a novidade a nossa rotina e condição. Uma coisa é termos vontade, a outra é termos disposição. Eu, por exemplo, tenho vontade de aprender a tocar algum instrumento. Mais especificamente, teclado. Mas não está nos planos para o próximo ano comprar um. Até poderia me programar para isso, mas ainda não estou disposto a tal. Porém, acho importante que em cada ano façamos pelo menos uma coisa que nunca fizemos e da qual sempre tivemos vontade. Toda boa novidade é extasiante. Dá um upgrade na vida da gente. Ainda pensando no que poderei fazer…




***

Desejo a todos os que leem esse blog um maravilhoso 2012! Que as promessas de vocês saiam do papel e que, ao final do ano, quando vocês estiverem fazendo novo balanço, percebam o quanto as coisas mudaram para melhor. E tudo graças às atitudes de vocês! Não há nada mais gratificante do que bons resultados de projetos de vida que foram bem executados. Felicidades a todos!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

E se o teletransporte existisse?


teletransporte
Lembro uma vez em que um professor meu de física do Ensino Médio explicou para a turma que se um corpo pudesse ser resfriado a temperatura de 0 Kelvin, que é chamado de “zero absoluto” (a temperatura mínima teórica que pode ser atingida, equivalente a –273ºC), suas moléculas parariam de se movimentar e este corpo seria transformado em luz. E sendo luz, poderia ser enviado por algum meio de condução até outro local, ou seja, ser teletransportado. Não sei até que ponto pode ser considerado verdade o que esse professor disse (na época eu achei o máximo; hoje acho que ele falou uma grande besteira mesmo), mas como sempre gostei de física e dessas coisas envolvendo os limites da tecnologia, nunca me esqueci dessa explicação.

Hoje em dia conheço uma teoria do teletransporte que parece fazer mais sentido, apesar de ser tratada ainda como ficção. Ela envolve a famosa fórmula de Albert Einstein:

E = mc²,

onde E é energia, m é massa e c é a velocidade da luz. Essa fórmula nos diz que toda massa possui uma energia associada e que, talvez, um corpo possa ser transformado em alguma forma de energia, ser conduzido e reconstruído em outro local. Incrível não? Agora imagine se essa teoria fosse factível e o teletransporte fosse uma realidade. Como seria o mundo com o teletransporte? E mais: como seria o mundo com teletransporte acessível (de baixo custo) para todos, com seres vivos também podendo ser teletransportados?

Não é difícil supor que, de cara, seria o fim dos meios de transporte e das estradas. Seria a grande revolução na locomoção humana. Empresas de ônibus, trem, rodovias, aviões, barcos, tudo isso deixaria de fazer sentido em existir. Seriam como os dinossauros, extintos; só restariam seus “fósseis” em museus. Seriam lembranças de um passado risível, em que as pessoas gastavam horas e horas para se locomoverem.

Estou falando de uma vida sem trânsito, sem o estresse das estradas engarrafadas, sem gente mal educada ouvindo funk sem fone de ouvido no ônibus. Uma vida em que muitas horas do nosso dia seriam poupadas. Creio que o teletransporte seja a única maneira de seguirmos aquela dica de vida saudável em que as 24 horas que estão contidas em 1 dia devem ser divididas em 8 para trabalho, 8 para lazer e 8 para descanso. A pessoa insensata que inventou isso devia trabalhar em casa e ser solteira, só pode.

Nossos telefones residenciais seriam bem maiores, pois contariam com uma espécie de cabine de emissão e recepção de corpos. Bastaria digitar o número do telefone do local para qual se deseja emitir o objeto (ou se emitir), colocá-lo na cabine (ou entrar), e realizar o teletransporte. Em fração de segundo poderíamos estar em qualquer lugar do mundo. O sentido da palavra viagem também se perderia. Todos os lugares se tornariam extremamente perto de todos.

A coisa é realmente grandiosa, pois a distância física seria um detalhe totalmente não-incômodo, seja ela qual fosse. Namoros à distância seriam felizes (porque convenhamos que, mesmo com toda a tecnologia da comunicação hoje, ninguém ainda é realmente feliz namorando à distância – é patético) e todo brasileiro poderia se considerar vizinho de qualquer japonês, e vice-versa. Realizem só: uma criança de Manaus, chamada Macunaíma, voltando do colégio e perguntando à mãe se pode brincar com o seu amiguinho, Nakashima, em Tóquio. A mãe então consente, recomendando apenas que o garoto volte para a casa antes da janta. Coloca então o filho na cabine de teletransporte, dá um beijo no rosto dele, aperta os botões, e vai para a sala serena e sorridente para ver a sua novela, enquanto o seu filho chega em Tóquio antes mesmo que ela se sente no sofá. Um espetáculo!

E ainda: desde que tenhamos grana, poderíamos fazer cursos no exterior sem morar no exterior. Aulas de alemão na própria Alemanha, e depois voltar para a casa, no Rio. Ou que tal dar um pulinho em Bangcoc antes? Ora, pensem só, um pai de família poderia se dar ao luxo de acordar às 7 horas da manhã, ir para o trabalho nos Estados Unidos, almoçar em Paris, se reunir com os sócios chineses na China, fazer uma happy hour com amigos em Amsterdã, voltar para a casa, ainda ter tempo de brincar com os filhos antes do Jornal Nacional e dormir por pelo menos 8 horas! Magnífico!

Mas eu sinceramente creio que o teletransporte jamais vai deixar de ser uma mera ficção. Pelo menos o teletransporte de seres vivos. Não consigo conceber que uma pessoa possa ser transformada em energia, viajar à velocidade da luz, e ser reconstituída em outro lugar sem pelo menos ter morrido. O corpo ser refeito perfeitamente já seria uma grande façanha. Vivo já é demais. Nossa sobrevivência depende da harmonia de nossa estrutura orgânica. Transformar tudo isso em algo não-palpável para mim é uma grande alucinação. O que dirá então fazer isso sem tirar a vida da pessoa, mesmo que por milésimos de segundo?

Por outro lado, se pararmos para pensar, muita coisa que existe hoje antes era inconcebível. O próprio sistema de telefonia é um exemplo. Poder se comunicar com alguém no outro lado do planeta através de um celular, que envia a nossa voz pelo ar, é algo que antigamente soaria sobrenatural. A verdade é que nunca se sabe…

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Transeuntes marcantes


transeuntes

As pessoas mais importantes das nossas vidas são aquelas que permanecem conosco por tempo suficiente para que sejam consideradas co-autoras da nossa trajetória. São nossos pais, irmãos, amigos, etc. Gente indispensável para nossa felicidade e que são a base de tudo. Porém, há um grupo de pessoas com as quais esbarramos na vida por um curto período de tempo. São os que chamo de transeuntes; pessoas que estão de passagem por algum lugar, que não permanecem. O lugar, nesse caso, é a nossa vida.

Encontramos transeuntes o dia inteiro. É aquele atendende da loja de fast food que pergunta o que desejamos pedir, é a secretária do consultório médico que preenche a nossa ficha, é o senhor na nossa frente na fila do banco que puxa um assunto qualquer. Existem também aqueles transeuntes que interagem conosco por um pouco mais de tempo do que os exemplos citados. É o colega de sala que cursa uma disciplina conosco ao longo de alguns meses, é o vizinho novo que não fica mais do que um ano no bairro, ou até mesmo a/o namorada/o de curta duração e que depois nunca mais vemos.

Transeuntes, na maioria das vezes, são pessoas indiferentes para nós. As circunstâncias fazem com que vamos ao encontro deles; então interagimos; e pronto, cada um segue o seu rumo. Porém, por incrível que pareça, alguns se tornam muito marcantes. E os motivos são diversos. Alguma frase dita, alguma atitude tomada na nossa frente… Pode ser qualquer coisa que desperte a nossa atenção e mexa com nossos sentimentos.

Lembro de uma menina que começou a fazer o curso pré-vestibular comigo em 2005. Daiana era o nome dela. Eu e ela não conhecíamos ninguém na classe. Percebendo o isolamento um do outro, passamos a conversar, e logo no segundo dia de aula já estávamos sentando lado a lado. Pouco tempo depois, após certa intimidade de colegas, ela me mostrou uma foto de uma mulher que eu não conhecia, mas que continha uma dedicatória calorosa para ela. Disse que estava nervosa e pediu que eu não a julgasse. No início não compreendi, mas não tardou muito para que eu entedesse que Daiana queria, com aquilo, me dizer que era lésbica e que aquela era a sua namorada.

Ela foi marcante pelo fato de que até então eu nunca havia convivido diariamente com uma pessoa assumidamente homossexual. Confesso que fiquei um tempo desconcertado, mas nossa relação continuou a mesma. Ora, e não deveria ter sido diferente. Porém, alguns dias depois, por um motivo que eu não soube, ela abandonou o curso. Daiana não se tornou uma amiga; foi uma transeunte. Creio que não chegamos a assistir nem dois meses de aulas juntos. Mas eu lembro dela até hoje de vez em quando.

Alguns professores também costumam ser transeuntes marcantes. Ouvir de um professor que eu fui o melhor aluno que ele já teve, e ouvir de outro que eu o surpreendi negativamente (com essas palavras) é viver dois extremos que fazem marcar esses caras. Aquela menina bonita do colégio com quem muitos queriam ficar, sendo que eu consegui beijá-la na festa de formatura, é algo que sem dúvida marcou-a comigo. Em outra ocasião, ter levado um fora da desengonçada e ter sido zoado pelos colegas também fez com que eu não me esquecesse da fulaninha. Outro transeunte marcante foi um menino encapetado que morou pouco tempo na minha rua e do qual falo mais nesse texto.

É interessante essa percepção de que tão pouco tempo de convivência com alguém (às vezes por apenas alguns minutos!) seja suficiente para conservarmos essa pessoa na nossa memória por muito tempo. Vale lembrar que você também é um transeunte para diversas pessoas ao longo do seu dia. E, muito provavelmente, entre elas, existem algumas que te consideram um transeunte marcante. Você pode nunca mais se lembrar dessas pessoas, pois elas podem ter sido indiferentes para você. Normal. Mas elas com certeza lembram de você até hoje. Curioso, não?

sábado, 8 de outubro de 2011

Palhaçada

Eles talvez sejam umas das caras mais antigas do humor. Animam a plateia no circo, no parque, nos aniversários e nos palcos. São bobos, atrapalhados e coloridos. Alô criançada! Estou falando dos palhaços.

Segundo a Wikipédia, o termo palhaço vêm da expressão “homem de palha”, que remete ao homem pobre do campo que vai para a cidade grande tentar melhorar de vida, mas vive na miséria por lá. Sem dinheiro, eles ganham de outras pessoas roupas que nem sempre adequadas ao seu corpo. E que nem sempre combinam. Daí as vestes esquisitas. O nariz vermelho e inchado é resultado de tanto caírem de cara no chão devido à embriaguez. Palhaços adoram tomar um porre. Podem observar: em grande parte das apresentações de palhaços, em algum momento, eles ficam bêbados.

Pois bem. Palhaços realmente me divertiam (e ainda me divertem, quando são bons), mas desde que estivessem no meio do picadeiro, longe de mim. Nunca gostei de ficar perto de um palhaço. Aquelas roupas coloridas desajustadas, aquela boca grande, aquele cabeça geralmente careca e com os poucos cabelos existentes arrepiados, aquela voz distorcida. E quando é um cara velho ainda por cima, com rugas, etc… Cruz-credo! Fica mais bizarro ainda!

E não falo só de mim. Eu tenho a impressão de que poucas crianças se sentem confortáveis perto de um palhaço. Isso é meio irônico, já que o papel deles é justamente acolhe-las e diverti-las. Eles não são criaturas esquisitas porém legais no sentido da aparência; mas sim esquisitas e repulsivas. Dias desses me disseram que uma empresária do ramo de festas infantis recomenda fortemente que os pais não façam aniversário com o tema de palhaço para crianças de 1 e 2 anos de idade. É garantia de choro, pois a criança vai ficar com medo!

Não tenho o objetivo de desmerecer os palhaços. Respeito o trabalho dos caras. Aliás, acho que merece muito reconhecimento uma pessoa que tem problemas como qualquer um se fantasiar de palhaço para entreter o público. Transmitir a alegria, mesmo quando se tem problemas, não deve ser tarefa fácil. Meu foco está mais na aparência sinistra deles. Mas voltando. Vou citar alguns exemplos de palhaços.

Gente, na boa, sempre achei o palhaço Bozo assustador!

bozo Palhaço Bozo: diverte mais do que assusta?
Observação: me lembra o Dr. Robotnik, vilão do game Sonic.

Bozo2 Essa criança está sorrindo porque ela ainda não olhou para trás.

Outro palhaço que nunca me divertiu é o Ronald do Mc Donald’s. Esse possui aparência um pouco menos medonha que o Bozo. Não assusta tanto, mas irrita. E aí eu falo do geral, não só de sua aparência. Acho que é um dos palhaços com menor carisma entre as crianças. Elas querem saber é o Mc Lanche Feliz, oras! Nunca estiveram nem aí pro Ronald. Fora que o Ronald sempre me pareceu um tanto feminino: o rosto liso e os cabelos vinhos e volumosos em um corte estilo vovó vaidosa. Se não fosse pelo nome, eu não saberia se era um palhaço macho ou fêmea.

ronald Ronald do Mc Donald’s: patético e feminimo.

Já o famoso palhaço Carequinha era o que mais me agradava. Era interpretado pelo idoso George Savalla Gomes, que apesar das rugas somadas à maquiagem, não tornava a aparência do personagem repulsiva. Taí um exemplo de palhaço carismático! Com esse eu tiraria foto na minha infância sem nenhum problema. Não acompanhei muito o trabalho do Carequinha, mas sei que era reconhecido como o melhor palhaço do Brasil. Merecido.

carequinha Palhaço Carequinha: o único que conheço que divertia sem assustar.

Existe outro palhaço que não assusta pela aparência. Assusta pela conquista. É o palhaço Tiririca (que eu não sabia até pouco tempo atrás que se tratava de um palhaço). O deputado federal mais votado do Brasil nas últimas eleições causa um medo diferente. O que houve com os eleitores, meu Deus?

tiririca

O Tiririca é um palhaço que eu não gostaria de manter somente longe de mim, mas também longe de Brasília. Se bem que, diante de tanta gente mal intencionada e mais perigosa por lá, o Tiririca provavelmente é o menor dos problemas.

Pois é, minha gente. Apesar de serem figuras antigas, os palhaços ainda estão aí. Mesmo o chique Cirque du Soleil ainda mantém palhaços em seus espetáculos. Na TV eles frequentemente aparecem. Nas ruas, festas, etc, às vezes eles estão lá. Bom, desde que não se aproximem muito das crianças, está tudo bem.

sábado, 17 de setembro de 2011

Chatinho

Eu fui uma criança insuportável. Bom, talvez eu esteja exagerando, afinal meus pais me suportaram. Mas eu fui uma criança bem chatinha. Não era encrenqueiro com as outras crianças, não me metia em situações de perigo, ficava sempre perto dos meus pais. Nem por isso eu era adorável. Minha timidez não fazia de mim uma gracinha, mas sim um mala-sem-alça.

Eu era medroso. Tinha medo das coisas mais triviais possíveis. Uma delas era vestir a camisa. Quando comecei a ir para o colégio, minha mãe me vestia e eu ficava apavorado quando a camisa ficava presa no meu rosto, antes de descer pelos braços. Tinha medo de ser sufocado. E chorava. Fazia a maior cerimônia para ser vestido. Um belo dia, meu pai me deu uma surra por causa disso; surra essa que eu nem lembro mais como foi, mas minha mãe me contou tempos depois que ele ficou com remorso. Meus pais nunca foram de me bater. Não cresci debaixo de porrada. Talvez até merecesse um pouco mais para deixar de ser chato.

E por falar em colégio, esse também foi um problema no início. Ficar afastado da minha mãe era uma hipótese que eu não cogitava. Meu primeiro dia na escola envolveu um choro tão intenso que eu precisei ser arrastado pela professora até a sala de aula. Lembro da expressão minha mãe, morrendo de pena, não querendo me deixar ali. Mas a professora, experiente, insistiu que ela fosse embora, que ficaria tudo bem. Após uma semana de choro, ficou realmente tudo bem. E bem até demais. Passei a adorar o colégio.

Eu não gostava de ficar mais do que alguns metros longe da minha mãe. Isso principalmente na primeira infância (até uns seis anos de idade). Nas festinhas infantis, eu não brincava direito com as outras crianças. Elas iam para longe (da minha mãe) e eu não curtia. Meus pais me incentivavam: “Vai lá brincar, Renan”. Mas eu não queria nem saber. Colo? Só o da minha mãe. Nem meu pai tinha vez, coitado. Muito menos meus tios. Era choro na certa se algum deles tentasse me pegar no colo. Um desespero.

Com o passar de alguns anos fui me permitindo ficar mais longe da minha mãe por mais tempo. Acho que escola tem um papel fundamental aí para qualquer criança. Meu problema então passou a ser não mais ficar longe dela, mas do lar de maneira geral. Por volta dos meus doze anos, eu gostava de dormir na casa dos meus primos nas férias, mas ainda assim não gostava de passar muito tempo longe da minha casa. Três dias era o meu limite. Mais que isso, ficava angustiado e queria voltar. Meus primos curtiam as férias e eu ficava triste. Nunca entendi bem por que eu sentia isso.

Infelizmente minha infância e adolescência terminaram, mas felizmente essas coisas foram embora junto. Hoje em dia sou um jovem bem mais simpático e tenho certeza que agrado a maioria das pessoas. Pelo menos minha família e amigos. Se sou chato, talvez seja em momentos pontuais, como qualquer pessoa é. Ninguém é cool o tempo todo.

Ainda possuo minhas limitações, por exemplo: não sou o cara mais adequado para um amigo levar em uma balada para beber e pegar um monte de mulher. Nada contra, tem vezes que eu até gostaria de ser um pouco assim, mas não é da minha natureza. As pessoas com quem tenho mais afinidade são calmas e, principalmente, ajuizadas. Não falo de pessoas extremamente sérias e metódicas, mas sim de pessoas que sabem ser descontraídas fora do politicamente correto sem estarem a quilômetros de distância dele.

Mas, se ainda assim alguém me acha chatinho o tempo todo, não é mais um defeito meu. Já é uma questão de incompatibilidade. Provavelmente o jeito de ser dessa pessoa também não me agrada.

domingo, 14 de agosto de 2011

Resenha: Super 8


super8
Este é o primeiro texto referente à nova categoria que acabo de criar neste blog: resenhas. Nela, quero mostrar a minha opinião sobre (principalmente) filmes que vi no cinema, tomando o cuidado de não revelar (muito) a história. Será que consigo?

Vamos começar com o filme que inaugurou neste fim de semana…

Super 8 conta a história de um grupo de pré-adolescentes nos anos 70 que deseja, mais por diversão do que por qualquer outra coisa, gravar um filme sobre zumbis. O personagem principal é o menino Joe (Joel Courtney), que perdeu a mãe em um acidente de trabalho e vive um momento delicado em sua relação com pai, o delegado da cidade onde moram. Ao gravarem próximo a uma estrada de ferro, os jovens presenciam um grave e estranho acidente envolvendo um trem e uma caminhonete, e, a partir daí, vivenciam estranhos acontecimentos – mais especificamente, o desaparecimento de pessoas - na cidade.

O filme faz valer o ingresso por vários motivos. O primeiro deles é a cena do acidente. A sequência é, literalmente, de tirar o fôlego! Faz você segurar firme o braço da poltrona de tanta agonia e encantamento. Os efeitos sonoros das batidas e explosões são de uma qualidade que eu acho que nunca percebi antes em filme algum. Além de tudo, é uma sequência longa; a sensação que você tem é de que as coisas ali não vão parar de explodir e de que um vagão daqueles vai cair sobre você a qualquer momento (e olha que não é em 3D!). Acidente exagerado, talvez, mas sensacional!

O segundo motivo que faz valer a pena o ingresso é o suspense instaurado a partir deste acidente. O que havia dentro daqueles vagões? O que faz as pessoas desaparecerem? Enquanto a cidade vira de cabeça para baixo, o delegado, pai de Joe, tenta, em paralelo com o filho, desvendar o mistério, que vai se revelando pouco a pouco ao longo da trama. Apesar de haver cenas entre o delegado e outros adultos, a retratação do caos é focada no ponto de vista do menino e seus amigos, em uma jornada investigativa com grandes momentos de suspense, mas sem terror - os produtores parecem ter se preocupado em não tornar o filme impróprio para crianças da idade dos protagonistas.

Um dos pecados (não tão grave assim) do filme trata-se de um momento de inverossimilhança grosseira: o motorista da caminhonete não morre no momento do acidente. Não que alguém tenha necessariamente que morrer ao colidir de frente com um trem; afinal, milagres acontecem. Mas quando vocês virem a magnitude DESTE acidente, vão concordar que o sujeito deveria, no mínimo, terminar em picadinhos, com as tripas toda para a fora. Não há milagre que segure! Outro ponto negativo (esse sim mais grave) está no momento em que o agente do caos é revelado. Não empolga muito; não há empatia com o público, e, a partir de revelado por completo, é pouco explorado, ocorrendo logo o desfecho.

Por fim, o intérprete do menino Joe desempenha muito bem o seu papel. O olhar do ator-mirim é muito expressivo (destaque para o momento em que ele tem uma desavença com o pai e chora) e sua relação com a menina Alice (Elle Fanning, que também não deixa a desejar) cresce de uma maneira pueril e ao mesmo tempo intensa ao longo da história.

Vá ao cinema e assista Super 8! Vale muito a pena! Ah, mas saiba que “super 8” nada mais é do que o formato de vídeo usado pelos jovens para gravar o filme amador sobre zumbis. Isso é dito em um único e rápido instante dentro da história, e se você não sabe o que é, corre o risco de sair do cinema se perguntando o porquê desse título.

sábado, 30 de julho de 2011

Beleza e outras qualidades

 

BELEZA X FEIURA

Não sou daqueles que acha que beleza não é importante. Para mim, ela é; pelo menos nos instantes iniciais, em que ainda não se conhece a pessoa por dentro. Afinal, entre uma gordinha de cabelos maltratados e com espinhas na cara, e uma mulher esbelta de cabelos cuidados e pele lisa, é óbvio que a segunda atrai mais.

Sei que a beleza não é unânime; o que pode ser bonito para um, para o outro não é. Mas não podemos negar os percentuais. Se muitas pessoas acham a pessoa A bonita e poucas acham a mesma coisa da pessoa B, então a pessoa A é mais bonita do que a pessoa B no senso comum, e pronto.

Penso que a beleza funciona como um tipo de marketing para todos nós; a pessoa bonita possui um chamariz do tipo “gostou do que viu? então venha me conhecer melhor”. E as pessoas vão. É como a embalagem de um produto desconhecido. Quando chama a atenção, estamos mais propensos a pegar, ler sobre, e experimentar. Os feios, por sua vez, ficam em desvantagem. E é aí que entram as outras qualidades…

É verdade que “ser bonito” e “ser legal” são características teoricamente independentes. Em outras palavras, a embalagem de um produto que não presta pode ser bonita, assim como a embalagem de um excelente produto pode ser bastante sem graça. O problema é que, devido à desvantagem da falta de beleza, os feios geralmente acabam desenvolvendo mais as outras qualidades, a fim de também atraírem as pessoas. Já os bonitos podem se dar ao luxo de relaxarem mais, já que as pessoas sempre irão ao encontro deles.

Não sei de nenhum estudo concreto sobre isso, mas eu noto (e acho que a maioria das pessoas também) que os feios tendem a ser (ou pelo menos se mostram) mais legais. Legais, nesse caso, é uma compilação de outras qualidades: simpatia, amizade, dar atenção ao outro, etc.

Sei que não se pode generalizar. Aliás, nada que é relativo ao seres humanos podemos generalizar. Mas eu creio que a falta do luxo de poder escolher pretendentes tornem os feios, na média, pessoas mais agradáveis do que os bonitos; talvez até melhores. Para mim, faz todo sentido.

sábado, 2 de julho de 2011

O cinza da alma


Dizem que todo mundo possui uma essência de ser; esta imutável, que nos acompanha durante toda a nossa vida, definindo quem realmente somos. Entretanto, geralmente a desconhecemos. Não é difícil que outras pessoas nos definam melhor do que nós mesmos. No fim das contas, quem somos? Ou melhor, o que somos capazes de sentir e fazer? Qual o limite do nosso caráter?

Será que o herói de um dia é capaz de ser o vilão do outro? A pobre mulher traída pelo marido no verão pode se tornar amante de alguém no inverno? O ferido de amor de hoje torna-se indiferente e fere quem lhe entrega o coração amanhã? De sutileza em sutileza vamos nos transformando. O que hoje nos soa como pecado, amanhã cauteriza a mente e se torna estilo de vida. E, da mesma forma, as aventuras passadas da juventude abominam um velho que se recorda delas.

Apesar de toda a formação que recebemos dos nossos pais, acredito que em determinado momento de nossas vidas todos nós estamos propensos a ceder a algum impulso que não está de acordo com nosso modo de agir até então. As circunstâncias produzem a coragem. Tudo depende do contexto. Quem pode nos julgar?

Quero deixar claro que não estou indo ao extremo e falando em cometer crimes (pelo menos não os grandes crimes), mas sim de atitudes, digamos, que você nunca pensou que pudesse ter, ou pouco plausíveis para o senso comum, ou até mesmo aquele tipo de coisa que você não gostaria que fizessem contigo (como é o caso da mulher amante). Não acredito que alguém consiga jamais deslizar nos seus conceitos e valores ao longo da vida; não estamos inseridos em um romance, mas sim na realidade.

Eu penso que todos nós nascemos potencialmente vulneráveis a tudo, e que o meio em que vivemos é uma das coisas que mais influenciam as nossas atitudes. O "nunca faria isso" está imerso no conforto da nossa realidade atual; porém, e quando as coisas mudam? E quando passamos por situações delicadas e decisórias? E quando os desejos falam mais alto? A alma do ser humano é complexa demais para a simplicidade definitiva de um "nunca". Como disse o escritor Oscar Wilde, definir-se é limitar-se.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bonde das piriguetes


Um casal espera o seu primeiro filho. Após a ultrassonografia, descobrem que terão uma menina. Alegria total. Começam os preparativos: pintam as paredes do quartinho de rosa, compram roupinhas rosas, acessórios infantis femininos, ursinhos de pelúcia, etc. Nasce a menina. Linda. A bonequinha do papai.

O pai e a mãe começam a sonhar com o futuro da menina. Será que vai ser advogada? Professora? Médica? Esperam que case com um bom partido e que juntos constituam uma família sólida. Mas nem tudo acontece da forma como os pais planejam. Tem gente que nasce com tendências para fazer coisas, digamos, pouco plausíveis. No caso das meninas, cuidado, sua filha pode se tornar uma piriguete!

Vamos definir piriguete. Trata-se de um termo recente criado pelo funk carioca que denomina meninas, principalmente as adolescentes entre 13 e 19 anos, que dão em cima de caras mais velhos, geralmente casados. A piriguete não é uma prostituta. Elas não negociam com dinheiro; negociam com o cabaço. Aproveitam-se do fetiche que alguns caras têm em pegar novinhas virgens para se darem bem.

Se darem bem em que sentido?

Bom, a piriguete nada mais é do que uma menina que quer ser mulher antes do tempo. Ela quer ter um namorado mais velho e que pague as coisas para ela, quer andar de carro, quer viajar sozinha, quer ser independente. Tudo isso como se fosse uma mulher feita. Então, a única coisa que uma piriguete quer em troca é dar uma voltinha de carro e poder dizer para as amigas que tem um namorado que paga tudo para ela.

Ok, ok, há um outro lado. Por serem jovens demais, muitas piriguetes também são inocentes. Afinal, o homem que tem outra mulher mas sai com ninfetas está longe de ser vítima. Eles acabam se aproveitando da "ingenuidade" das meninas e as fazem ceder ao sexo em troca dessas pequenas comodidades. De qualquer forma, talvez não seja tão justo considerar pedofilia quando sabemos o quão assanhadas as piriguetes são. Elas costumam ser bem taradinhas.

Piriguetes odeiam meninos da idade dela. Os que gostam delas acabam sempre humilhados; não ganham a mínima atenção. O negócio é com homem mais velho. A menina se torna oficialmente piriguete quando transa com um cara mais maduro e comprometido. É o batismo da classe. Faça o teste, mocinha. Você é novinha? Ficou com vontade e deu para um cara mais velho? Ele tem outra mulher? Parabéns, você é uma piriguete!

Outra característica das piriguetes são as roupas. Algumas são discretas, mas a maioria se veste de forma inaquedada para a sua idade, tudo por causa daquela vontade de ser o que ainda não é: mulher. Blusinha decotada, maquiagem sobrecarregada, shortinho, salto alto, e por aí vai. O problema é que elas não ficam parecendo mulheres assim; ficam parecendo Barbies: com roupas de mulher, mas ainda bonecas.

Na maioria das vezes, os caras saem com piriguetes apenas por diversão. Mesmo assim, jamais se deve subestimar o poder de uma piriguete. Elas grudam e podem até acabar com um casamento. Eu já vi isso! O que não dá para entender é como que um cara já homem feito, independente, bem casado, troca a sua esposa por uma novinha imatura. Nada contra trocar de mulher; mas ora, que seja por uma outra mulher! Igualmente livre, madura e bem encaminhada na vida.

Meninas, não se tornem piriguetes! Em vez disso, vão estudar para conseguirem, por si mesmas, essas comodidades que vocês tanto buscam na hora errada. Será bem mais duradouro. Homens, se querem pular cerca, pulem direito! Evitem piriguetes. São menininhas bobas, grudentas e vocês ainda podem ser acusados de pedofilia.

Diga não às piriguetes!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Eterno mesmo só enquanto dure


Esses dias assisti ao filme "Entrevista com o vampiro", de 1994, em que o vampiro Louis, interpretado por Brad Pitt, revela a história de seus 200 anos de vida como monstro para um jornalista mortal. Assim como o longa "O homem bicentenário", esse filme despertou-me a seguinte reflexão: como deve ser viver para sempre?

Todo mundo já ouviu de alguém mais velho que se deve aproveitar ao máximo a vida, pois ela é muito curta. Talvez esse seja o conselho mais pregado e mais bem aceito de todos. Geralmente ouvimos isso daquela tia coroa e casada há anos, que não usufruiu muito de sua juventude; ou então daquele vovô, hoje adoecido e impotente, mas que nos seus saudosos anos de disposição abraçou o mundo.

Entretanto, no caso da imortalidade, esse conselho obviamente deixaria de fazer sentido. Imagine se você descobrisse que de hoje em diante, por algum motivo, você tenha se tornado imortal. O que você faria? Talvez você fosse achar maravilhoso. Ora, você estaria imune à morte, esta que é um mistério fatídico e sombrio, da qual todos experimentam e têm, pelo menos, um pouco de medo. Imagine viver uma vida infinita, sem o temor do envelhecimento. Imagine viver com a leveza de saber que você jamais irá morrer.

Você poderia deixar de fazer votos anuais e poderia fazer votos para um conjunto de muitos anos: "hum, o que vou fazer neste século?" ou "o que vou fazer neste milênio?". Tudo sem pressa. Você acompanharia a evolução da sociedade, veria talvez o homem povoando outros planetas e, quem sabe, teria contato com ET's, que até hoje não sabemos se existem.

Você poderia viver e fazer muito de tudo; o quanto quisesse de cada coisa. Poderia ser uma pessoa solteira por uns, sei lá, 400 anos, se aventurando amorosamente da forma que bem entender. Imagine quanta coisa poderia sem vivida; cada uma delas infinitamente. Sim, pois infinito dividido por 100 é infinito. Imagine ter, literalmente, uma infinidade de lembranças e de coisas vividas para contar; experimentar todas as sensações que um ser humano é capaz de sentir. Isso sem falar que tudo seria renovado sempre; você teria a oportunidade de recomeçar tudo quantas vezes você quisesse. Magnífico!


Mas não se esqueça que eu pedi para você imaginar que VOCÊ fosse imortal, não as outras pessoas. Seu grande amigo hoje, um dia iria partir. A pessoa que você mais ama no mundo, um dia deixaria você sozinho por aqui. Você, mais cedo ou mais tarde, se tornaria viúvo em todos os seus casamentos. Acabaria aquela ideia do "juntos para sempre". O "para sempre" seria apenas individual.

Você vivenciaria a morte de todas as pessoas que você aprendeu a amar enquanto elas viviam. Em compensação, para os mais vingativos, veria morrer também todos os inimigos. Mas tudo seria volátil demais. Se morresse o melhor amigo, aquele seu grande parceiro que você tanto estimava, anos mais tarde poderia aparecer outro. Mas esse outro também morreria. E depois o outro. E o outro. Infinitamente. E a cada morte, um grande sofrimento.

Você não poderia concluir a importância de uma pessoa ao longo da sua vida chamando-a, por exemplo, de "grande amor da minha vida". Como chamar de grande amor da sua vida alguém que vai morrer e te deixar livre para conhecer outras pessoas em uma vida sem fim? Seriam infinitos grandes amores e infinitos amigos especiais, um após o outro. Mas nenhum deles com a capacidade absoluta de te marcar como o melhor. Em determinado momento, sua vida não teria mais identidade. E, tendo visto e vivido de tudo inúmeras vezes, perderia a graça.

Sob essas condições, eu prefiro ser mortal. Tá certo que seria bom se a gente vivesse mais do que geralmente vivemos. Talvez viver por uns 200 anos. Mas mesmo assim, que fossem 200 anos para todo mundo. Acho que a graça da vida está justamente em não viver para sempre. E termos a consciência de que um dia iremos morrer pode ser parecer um tanto triste se você ficar pensando muito nisso, mas é o principal motivador para vivermos intensamente, conforme os conselhos do tal vovô brocha.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Sintomas de um homem desapegado


Há três anos atrás, eu escrevi o "Sintomas de um homem apaixonado", baseado nas minhas experiências de rapaz gamado. Hoje, eu tenho uma relação de vergonha e orgulho com esse texto. Vergonha porque hoje eu não o escreveria novamente daquela forma; achei que ficou meloso demais. Orgulho porque é o meu texto mais relevante (ou menos anônimo) na internet, estando reproduzido em alguns blogs por aí, mesmo que sem os devidos créditos a mim. Mas não me importo, pois sei que estou sujeito a isso.

Para vocês terem uma ideia, de todos os acessos diários que recebo aqui - que não são muitos, visto que estou longe de ser famoso na internet - bem mais da metade são para o link do "Sintomas". Creio que o motivo seja porque, sem querer, eu usei palavras-chaves fortes no título. Sabem como é, essa coisa de paixão mexe com todo mundo, e pelo menos uma vez na vida não sabemos lidar com isso. E a que muitos de nós recorremos para buscar auxílio? À internet. Então, aquela mulher que não sabe se um cara está afim dela ou o rapaz que quer saber se está apaixonado ou não, digita no Google por exemplo, a combinação "sintomas + homem + apaixonado", e lá aparece o RenanZices cheio de abobrinhas sobre o assunto.

Mas vamos ao novo texto, que é justamente o contrário do mencionado nos parágrafos anteriores. Infelizmente, tudo o que começa pode ter um fim; principalmente a paixão, que costuma ser tão efêmera. O texto que segue abaixo é baseado 1º) na minha experiência de ter tido uma mulher apaixonada por mim, mas que não era correspondida o suficiente e 2º) na observação do relacionamentos de amigos que, em determinado momento, já não estavam mais tanto "aí" para suas parceiras. Sei que a minha pouca idade talvez não me credite para escrever com sabedoria sobre isso, mas acho que pelo menos tenho bom senso.

Antes de tudo, uma consideração. A mulher, logo que percebe que não está mais afim do cara, costuma ser mais direta e termina tudo de forma mais abrupta. Já o desapego de um homem por uma mulher é como um câncer, que se instaura despercebido e vai, lenta e silenciosamente, eliminando todas as atitudes inerentes a um homem apaixonado. E o homem costuma ser apático nesse processo. Quando a mulher percebe que algo está diferente, é porque já está diferente há algum tempo. Mesmo assim, o homem costuma dizer que está tudo bem, que não é nada. E o processo continua, as coisas pioram. Chega um ponto em que a mulher, que é naturalmente mais incomodada e ansiosa com problemas na sua relação, decide discuti-la, na maioria das vezes através de uma briga feia. É a deixa para ele terminar, caso ela não o faça.

Tudo o que está escrito abaixo soa muito óbvio. E é mesmo. Mas é interessante notar que a pessoa que está dentro de um situação pessoal tem dificuldade para perceber o óbvio. Portanto, vamos aos sintomas.

1) Desejo de mudança. Se um homem apaixonado costuma ser extremista ao ponto de considerar esse sentimento a coisa mais importante do mundo para ele e focar grande parte do seu tempo na amada, o homem desapegado começa a dividir mais a sua vida. Dividir demais. Há o interesse em fazer novos amigos. Há o interesse em resgatar amizades antigas. Há o interesse em sair mais vezes com esses amigos. É normal alguém comprometido sair de vez em quando com os seus amigos, sem a companhia da mulher. Normal e corretíssimo. E é normal também que alguém faça novas amizades quando muda de trabalho, muda de endereço, etc. Mas, se o cara não passou por nenhuma dessas mudanças concretas e, de uma hora para outra, decide se dedicar mais do que se dedica a outros grupos de pessoas, e ainda por cima anseia em conhecer gente nova, cuidado!

2) Detalhes são pouco estimados. Todo casal tem uma música. O homem perdidamente apaixonado valoriza muito esse e outros detalhes. Mais até do que a mulher. Quando a tal música toca, eles dançam, se olham, riem, se beijam. Porém, quando um homem já não gosta mais tanto da moça, a música do casal deixa de ser estimada, mesmo que ainda possua certo valor para ele. Datas especiais não merecem mais comemorações especiais. A empolgação, que valoriza os pequenos detalhes do casal, acaba por parte do cara. Inclusive ele pode até passar a achar tudo muito chato. E se o valor do detalhe continua no coração dele, é somente devido ao passado vivido.

3) Ela não é mais o centro das atenções. Se o homem apaixonado dá toda a atenção à sua amada quando está em uma festa com ela, por exemplo, o desapegado não esquenta muito. Fica no meio de amigos, de parentes, e pode passar horas longe dela. Talvez justamente de propósito, para evitá-la um pouco e se distrair. Pode inclusive tratá-la com frieza perante outras pessoas. Outra coisa: ele já não telefona mais com a mesma frequência, já não a chama mais tanto para sair, já não fala mais com a mulher com o mesmo tom de voz entusiasmado de antes, etc. Chato, mas é verdade.

4) Ela ainda marca presença, mas não empolga. Esse tópico é para o caso em que a relação já terminou, e há paz entre os dois. Muitas mulheres baseiam suas esperanças de terem seus parceiros de volta no fatos de estes ainda serem especialmente carinhosos com ela. É o seguinte: ex é para sempre, mesmo que seja apenas ex-namorada. Nenhum homem olha para uma ex com os mesmos olhos que olha para qualquer outra mulher. A ex carrega o passado do cara com ela e trás a lembrança de momentos felizes. E há valor nisso. Portanto, é natural que ele te olhe e te trate com um pouco mais de carinho do que as demais. Mas não confunda, pois isso não significa que ele queira voltar. Você marca forte presença perante o cara, mas talvez não o empolgue mais.

5) Negações. Homem desapegado nega demais, reclama demais, debate demais. Homem apaixonado é bonzinho, sabe ser flexível, quer ver sua amada feliz. Pense nisso.

6) Sensação esquisita. Nos momentos íntimos, o homem em processo de desapego começa a achar algumas coisas esquisitas e a não se sentir muito bem. Não há mais a grandiosidade daqueles momentos. Ele passa a achar que tudo aquilo já não está tão bom, que não combina tanto, que tem alguma coisa esquisita ali. E então ele começa a perceber que um dia haverá um fim. E começa a querer isso, silenciosamente.

7) Defeitos vem à tona. Se o homem apaixonado acha a sua amada o ser mais perfeito que existe, o desapegado começa a ver os reais defeitos. É normal e recomendado que as pessoas percebam os defeitos das outras e aprendam a lidar com eles. Mas é aí que entra um detalhe. O homem que ama está disposto a lidar com os defeitos da mulher; o desapegado não. Ele se incomoda com isso, reclama, e tira a mulher do pedestal no qual ele a tinha posto anteriormente. Tira, e aos poucos se afasta.

8) Quanto ao ciúme. Em término recente de relação, é normal que o cara sinta ciúme da sua ex com outro. Mas isso, novamente, não significa que ele queira voltar. Homem é possessivo por natureza, apenas isso. Entretanto, como eu disse, isso é normal apenas quando a relação terminou há pouco tempo. Se o cara continua sentindo ciúme da sua ex com outro, mesmo depois de passado um bom tempo, talvez ele esteja menos desapegado do que imagina.

9) Com outra funciona! Talvez o sintoma mais explícito de um homem desapegado é quando ele consegue outra mulher e com ela acha tudo maravilhoso, esquecendo-se totalmente da outra. A nova consegue substituir a anterior inteiramente. Já era!

10) Sensação de finitude. Como foi escrito no sintoma 6, o cara desapegado já não vê mais (e até mesmo repudia) um futuro para a relação. Ele passa a achar que pode mais, que poderia estar melhor se estivesse com outra pessoa, ou mesmo sozinho, viajando, morando em outro lugar. Começa a ter aversão quanto à ideia de ter filhos, de casar, de morar junto (caso antes tivesse esses sonhos). Passa a falar coisas esquisitas, que remetem à finitude da relação; coisas do tipo "quando não estivermos mais juntos". Homem apaixonado é diferente; ele não quer que aquilo termine.


Consideração final: Nós, homens, às vezes somos mais complicados que as mulheres. Muitas vezes achamos que queremos, mas não queremos, apenas queremos querer. O que no fundo queremos, não queremos. Ou, o que no fundo não queremos, queremos. Entende? Pois é. E talvez essa confusão toda anule a validade de todos os sintomas acima. Somos menos práticos do que parecemos. Mas uma coisa é certa: homem que, de alguma forma ainda gosta, sempre procura novamente.

Obs: "desapegado" foi o melhor adjetivo que eu encontrei para o contrário de apaixonado, apesar de oficialmente ser o contrário de "apegado". Se alguém tiver uma palavra melhor, me avise, que eu mudo no texto.


terça-feira, 10 de maio de 2011

Sei lá, gosto de você!


Sabe quando você se sente atraído por alguém e não sabe bem explicar o porquê?

Quando a pessoa é muito bonita, a explicação é direta. Quando a pessoa é muito inteligente, a explicação também é direta. Generalizando, quando a pessoa é forte em uma qualidade muito valorizada entre nós, a explicação para a atração que sentimos está justamente nessa qualidade. Mas e quando a pessoa é, digamos, mediana em tudo: não é tão bonita, não é tão inteligente, não é tão simpática, etc? Por que ocorre a atração?

Bom, antes de mais nada, quero aqui ampliar o conceito de atração. Quando falamos em atração, pensamos logo na atração "para namoro". Mas neste texto não. Portanto, não estou somente me referindo à atração romântica, sexual; mas sim também àquela atração do tipo "poxa, quero ser amigo(a) do(a) fulano(a)", ou seja, a atração "para amizade".

A atração que sentimos pelas pessoas pode definir nossas amizades e amores.

Eu defino a atração geral da seguinte forma: vontade de interagir com outra pessoa devido ao fato de esta possuir algo em seu ser que você preze. Acho que é uma descrição adequada. Mas e quando esse "algo" que você preza não é tão explícito? Eu não sei se estou conseguindo me fazer entender, mas o fato é que simplesmente existem pessoas que a gente olha e pensa "quero me aproximar dele(a)".

Isso é muito curioso. Talvez seja aquela velha história de "santo que bate". Aliás, quero deixar aqui um parênteses. As pessoas que não gostam de outras sem um grande motivo para isso ficam culpando seus respectivos santos. Até crente culpa o santo nessas horas. Para aqueles que acreditam, o santo está lá no céu rogando por você e não quer birra com ninguém. Eu, mesmo sendo católico, não sou muito adepto aos santos. Mas enfim, vamos parar com isso. Deixem os santos quietos. Se você é encrenqueiro, a culpa é toda sua.

Enfim. A atração pode ocorrer em qualquer lugar que você frequente. Na faculdade, no trabalho, na academia, na fila do pão. Eu gostaria de entender o que determina a atração que sentimos por algumas pessoas, e não por outras, no caso de nunca termos visto essas pessoas antes. Como já disse, se a pessoa é bonita de rosto ou corpo, então provavelmente é atração física "para namoro". Mas e se não for? Não sabemos se ela é legal, se é educada, se é culta. Por que nos sentimos atraídos?

Talvez a explicação seja simples, porém abstrata. Existe algo que eu considero muito maior do que uma simples qualidade. Considero um dom. Estou falando do carisma. Se quem tem carisma não tem tudo, com certeza tem quase tudo. Carisma é aquela coisa que você tem dentro de si e que de alguma forma se exterioriza e faz com que as pessoas se sintam atraídas por você.

O carisma pode estar em um gesto, em um sorriso, na forma de falar, na gesticulação, na expressão facial, no caminhar, etc. É abstrato. A pessoa que é carismática é como se possuísse uma aura diferente das demais, um halo especial. É uma coisa que transcende quaisquer atributos físicos e até mesmo mentais. Não é genético; eu diria divino.

A aura de uma pessoa. Você acredita nisso?

Uma pessoa bonita, inteligente e honesta pode carecer de carisma; algo que uma dona-de-casa idosa e sem dente ou um menino de rua que sobrevive de pequenos furtos podem ter de sobra. E nós percebemos isso o tempo todo. Aposto que você já se deparou várias vezes com aquelas pessoas consideradas perfeitas nas qualidades mais valorizadas, mas as achou um tanto sem-graças, como se faltasse nelas alguma coisa. É o carisma.

Mas uma coisa que eu também me questiono é o fato de que o carisma parece não ser unânime. Tenho a impressão às vezes de que as pessoas que me atraem pelo carisma não são as mesmas que atraem outras pessoas próximas. Seria o carisma algo um tanto individual, uma espécie de "compatibilidade de espírito"? Vamos supor que a minha aura seja azul. Então eu me atraio por todas as pessoas que possuem auras azuis. Amarelas não; não gosto. Seria isso?

Sinceramente, eu não sei. Mas o mais interessante é notar que isso não está no DNA de ninguém. Existem de fato mistérios entre o céu e a terra que talvez a gente nunca consiga desvendar. Bem que os santos lá em cima poderiam nos ajudar. Mas sabe como é né... talvez eles estejam ocupados demais brigando uns com os outros e causando confusões por aqui, entre as pessoas. Francamente.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Já se foi 1/3...


Ontem no Twitter eu iniciei uma discussão após constatar uma coisa que me deixou um pouco preocupado: eu já vivi aproximadamente 1/3 da minha vida.

Tenho 24 anos. Ao multiplicar minha idade por 3, obtenho 72. Ao multiplicar por 4, obtenho 96, que é uma idade avançada demais para a nossa expectativa de vida média atual, mesmo que ela esteja aumentando. Levando também em consideração meu histórico familiar - em que meu avô materno morreu antes dos 60, meu avô paterno sofreu de câncer de próstata, AVCs e morreu antes dos 80 - acho que não me cabe ser tão otimista e achar que chegarei aos 96 anos. Portanto, acho que 1/3 é uma boa (e triste) aproximação, melhor do que 1/4.

Bom, o que fiz nesse 1/3 de vida? Sinceramente, acho que muito pouco. Fui basicamente um estudante, me preparando para a vida; para mais (apenas?) 2/3 de vida. O chato é que dizem que daqui para frente será só ladeira abaixo; que os melhores anos são estes que vivo agora. Ora, então os melhores anos da minha vida são os de preparação para os anos de ladeira abaixo? Que coisa mais esquisita!

Nós, jovens, passamos parte de nossa juventude preocupados com a nossa preparação para os anos de adultos plenos. E aí, quando estamos finalmente prontos, quando estamos mais maduros, podemos começar a... descer a ladeira?! Não lhe parece injusto?

Talvez fosse mais interessante uma vida como a de Benjamin Button, o cara que nasce velho e morre criança. Imagine só trocar a infância pela velhice. Ok, a vida não vai começar tão legal com dores nas articulações, mas teríamos muito mais disposição e beleza aos 60, 70 anos. Fora que seria um processo de somente melhoria na qualidade de vida: maior disposição e beleza aliadas ao aumento de maturidade. Parece tão melhor.

Mas as coisas não são assim. Já dizia Lavoisier, o famoso químico francês, que na vida nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Sei que ele disse isso em relação a todo tipo de matéria, mas acho que a frase também se aplica a essa filosofia de "coisa ruim por um lado, coisa boa pelo outro". Provavelmente, a juventude é justamente a época da elevada capacidade física e mental para que possamos trabalhar duro e, assim, possamos nos dar ao luxo de nos poupar um pouco lá na frente, quando estivermos mais debilitados.

Quem sou eu para querer redefinir a dinâmica das coisas naturais. A verdade é que tudo tem um preço. Na vida, nós ganhamos independência e maturidade em troca de um rosto mais enrugado. Paciência.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A estagiária


Marcela tinha apenas 22 anos, mas era muito mais mulher do que qualquer outra com o dobro de sua idade. Não que fosse maliciosa; na realidade, Marcela carregava consigo a doçura de uma menina, mas era decidida como uma senhora. Traçava planos de curto, médio ou longo prazo e os cumpria com a mesma facilidade com que se banhava. Além disso, era linda. Pele branca, lábios carnudos e vermelhos, cabelos longos e levemente ondulados, olhar vivo, aberto e cobiçoso.


Certo dia, Marcela viu na internet o anúncio de uma vaga de estágio na empresa que tanto desejava trabalhar, e melhor ainda, na sua área. Não pensou duas vezes antes de comunicar o interesse pela vaga e marcar o dia da entrevista com um dos gestores.

- Sente-se, Marcela, por favor.
- Obrigada.
- Pois bem... você está cursando o sétimo período de economia, certo?
- Sim, Sr. Rodrigo.
- Ora, deixa disso. Senhor está no céu. Além de eu achar um tratamento muito antiquado, não sou muito mais velho do que você. Me chame apenas de Rodrigo - sorriu ele.
- Ok, Rodrigo - sorriu ela de volta.

Rodrigo tinha 29 anos. Bonito e inteligente, o moço nunca tivera problemas em sua vida acadêmica e profissional. Quando criança, carregava consigo o título de melhor aluno da classe. Formou-se economista quando já estava empregado. Meses depois, tornou-se gerente. Anos mais tarde, faturou o cargo de diretor. Uma ascensão meteórica.

Entretanto, da mesma forma que os índices de sua vida profissional eram extremamente positivos, os da vida amorosa nunca estiveram tão mal. Após alguns namoros frustrados, Rodrigo, aos 18 anos, conheceu aquela que ele chamava de "mulher da minha vida". Aos 22, já muito seguro de si e do relacionamento, a pediu em casamento. Aos 25, flagrou sua noiva aos beijos com aquele que seria o seu padrinho. Uma tragédia clichê, porém que o abalou profundamente. Nos quatro anos seguintes, Rodrigo nunca mais se envolveu com ninguém.

- Seu currículo é muito bom, Marcela!
- Obrigada.
- How good is your English?
- I speak fluently.
- Very good! Talvez aqui você precise aprender outros idiomas. Possui facilidade com línguas?
- Sim, e adoraria ter a oportunidade de conhecer e lidar com outras línguas.
- Legal... - disse, olhando nos olhos de Marcela.
- ...
- Me fale um pouco de suas experiências anteriores.
- Bem, eu estagiei em uma empresa de consultoria. Eu era responsável por fazer o orçamento dos projetos, dividir tudo em planilhas e atualizar diariamente. Ao final de cada semana, eu emitia um relatório contendo os dados financeiros atualizados de todos os projetos e comentários quanto à viab
ilidade de todos eles.
- Interessante, Marcela. E por que saiu de lá? Terminou o contrato?
- Na verdade, não. É como num relacionamento...
- Num relacionamento? - Rodrigo franziu a testa, demonstrando interesse.
- É... No início é tudo muito bom, nos acrescenta, ficamos felizes. Pode ser que seja eterno, mas nem sempre é duradouro. Às vezes chega uma hora em que tudo de bom já foi extraído dali. Não há mais desafios, não há mais surpresas, torna-se rotineiro e, portanto, cansativo. E então, o melhor a se fazer é partir para algo que nos motive novamente, que nos acrescente por meio de novas experiências...

Rodrigo demorou alguns segundos com o olhar fixo em Marcela e a boca entreaberta antes de prosseguir.

- Entendo...
- Pois é isso. O estágio foi muito legal, cresci muito lá, atingi meus objetivos, mas não via a oportunidade de crescer mais, mesmo que eu fosse efetivada. Meu trabalho pouco mudaria - sorriu Marcela docemente, olhando nos olhos de Rodrigo.
- Ok, er...bom, retomando...
- ...
- Por que deseja trabalhar aqui? - Perguntou Rodrigo, recomposto.
- Bom, o motivo é muito simples. Porque eu sempre quis. Este lugar sempre foi o meu sonho. Sei muita coisa sobre essa empresa. Já pesquisei sobre o setor, e gosto da forma como os trabalhos são desenvolvidos. Tenho certeza de que aqui construirei uma carreira brilhante. Sinceramente, Rodrigo, eu não me vejo fazendo outra coisa a não ser trabalhar neste lugar, aqui... com você.
- Certo... - Rodrigo gargalhou discretamente e estampou um sorriso mais íntimo no rosto - É engraçado como às vezes a gente tem certeza de que nossa vida está em algo... e a projetamos ali...
- Concordo.
- Como você diz, é como num relacionamento...
- Sem dúvida! - riu Marcela - apesar do risco de dar errado, gosto de apostar minhas fichas naquilo que me seduz. O pior arrependimento é aquele de não ter feito...
- Acho que você está certa - disse Rodrigo, demonstrando cada vez mais encanto.
- ...

Marcela, ao perceber que estava sendo admirada, corou-se de vergonha e olhou para a mesa. Rodrigo retomou...

- Bem, Marcela, me diga, como costuma interagir com os colegas de trabalho?
- Procuro a harmonia, sempre. Se pedem minha ajuda, a dou com todo o meu grado. Se tenho dúvidas, pergunto. Se vejo que um problema está se instaurando entre os colegas e se eu achar que posso contribuir para minimizá-lo, interfiro. Caso contrário, fico na minha. Jamais serei a centelha de alguma tensão com alguém. Nunca partirá de mim. E se eu estiver envolvida, farei o possível para dissipá-la. Harmonia, sempre.
- Acho que cabe novamente a analogia... - sorriu Rodrigo.
- Analogia? Ah.... relacionamento?
- Sim! - gargalhou o rapaz, mais à vontade.
- Sim, claro que cabe! - riu Marcela um pouco mais alto, também à vontade - se a gente não buscar a harmonia com a pessoa amada, as coisas não vão pra frente. Apesar de básico, isso é uma coisa que as pessoas esquecem. Às vezes é necessário ceder, como também é necessário ter pulso firme. Muitos relacionamentos acabam porque a pessoa é submissa demais, ou porque é intransigente demais. Deve-se buscar o meio-termo, e só recorrer aos extremos quando realmente necessário.
- Muito bom, Marcela! - Exclamou Rodrigo, rendido - só mais uma pergunta... o que espera ao trabalhar aqui?
- Ser feliz acima de tudo. Estar satisfeita. Sei que terei que enfrentar problemas. Sei que nem todos os dias serão bons. Mas eu quero, ao deitar na cama à noite depois de um dia ruim, ter a percepção de que vale a pena continuar, e me motivar a partir disso. Quero, ao longo de uma semana de trabalho, perceber que ela foi proveitosa, que o saldo foi positivo. Quero estar feliz, mesmo cansada.
- Perfeito, Marcela! Acho que é só...

Levantaram-se. Rodrigo caminhou até Marcela e apertou-lhe a mão.

- Acho que será um prazer ter você aqui conosco - disse ele, olhando para Marcela com doçura.
- Aposto que o prazer será todo meu... - retribuiu.
- Você começa na semana que vem.
- Estarei aqui.

A jovem mulher começou a se sair muito bem em seu estágio. A cada dia, superava as expectativas de seu patrão. Este, por sua vez, cada vez mais ficava encantado com o desempenho da moça e derretia-se em elogios.

Marcela foi efetivada meses depois, no altar na Igreja de Santo Antônio, ali na região. Assinou o contrato na frente de várias testemunhas, entre familiares e amigos. Estava mais linda do que nunca. E feliz.
Depois disso, jamais ficou desempregada. Seu salário era muito bom, fora os benefícios, como vale transporte, vale refeição, assistência médica, dentária, psicológica e muito carinho do chefe, que a amava. Compraram uma casa grande, tiveram filhos. Os anos se passaram e a dedicação e o amor de Marcela pela profissão só cresciam, e cada vez mais sua remuneração era maior, através do imenso amor e respeito que Rodrigo proporcionava a ela.

Marcela conquistou o que tanto desejava. Ao deitar-se na cama, à noite, sorria ao perceber como era feliz e que tudo tinha valido e ainda valia a pena. E o melhor de tudo: Rodrigo não roncava.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Delírio?


A única bisavó com quem convivi morreu há alguns anos, aos 90, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Velhice mesmo. Seu nome era Orcina. Eu a adorava. Nos momentos de sanidade, ela me contava fatos do seu passado e cantarolava com sua voz rouca e cansada. Nos de insanidade, gritava.

Extremamente católica, a bisa costumava benzer tudo o que comia. Partia o biscoito Maisena, fazia o sinal da cruz no pedaço, e só então colocava-o na boca. Em outras ocasiões, segurava um objeto pequeno e ficava brincando com ele, movimentando-o pelo ar. Várias vezes ela me recitou cantigas de sua época; uma delas eu aprendi a cantar.

Frequentemente ela se esquecia quem eu era. Uma dessas vezes, a mais engraçada, foi quando fui visitá-la após ela ter retornado do hospital devido a algum mal estar. Eu, todo amoroso, a abracei com um caloroso e sorridente "bisa!". Ela, com um olhar de desprezo, respondeu um "eu não me lembro de você", balançando a cabeça com sinal negativo. Perdoadíssima, tadinha.

Pouco antes de sua morte, estávamos eu e meu pai com ela. A bisa estava inquieta e dizia que "eles" estavam chamando por ela e, por isso, ela queria que meu pai a levasse até "eles". Meu pai, confuso, mas querendo ver onde aquilo iria dar, segurou-a pelo braço e a conduziu. Andaram pela casa e, após alguns minutos, meu pai ficou impaciente e resolveu colocá-la de volta onde estava. "Não tem ninguém, dona Orcina". Ela ficou quieta, mas não se conformou.

Alguns dias depois, uma de minhas primas esteve com ela. A bisa disse a ela que "eles" estavam jogando pétalas de rosas sobre sua cabeça e que a casa estava com um perfume diferente e delicioso. Não haviam rosas e a casa não estava mais perfumada do que de costume. Novamente insistiu que "eles" estavam chamando por ela, que falavam o seu nome enquanto jogavam as pétalas de rosas, e que a luz "deles" estava ficando cada vez mais forte. Faleceu no dia seguinte.

Minha bisa já não era tão sã nos últimos anos de sua vida, mas na época fiquei impressionado com essas visões que pessoas pouco crédulas dizem ser apenas delírios de idoso. Teria minha bisa visto anjos? E se ele jogaram pétalas de rosas sobre ela e um perfume delicioso se instaurou no ar, isso deve significar que ela foi para um lugar bom.

Um pouco de delírio sim, talvez. Mas até que ponto? Maravilhoso mistério.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Felizes para sempre


No dia 29 de abril, o Príncipe William se casará com a plebeia Kate Middleton. Um verdadeiro conto de fadas moderno: a menina que não nasceu em berço de ouro, tornou-se rica e conquistou o coração do jovem príncipe. Em pleno ano de 2011 parece ser difícil compreender porque esse tipo de história ainda fascina tanto. Mas na verdade é muito simples.



Os contos de fada simbolizam a perfeição da vida e das relações humanas. Mesmo havendo alguns bilhões de pessoas no mundo, todas guardando diferenças entre si, o que todas querem é ser felizes. E mesmo que a nossa felicidade deva partir de nós mesmos, é importante termos aqueles com quem dividi-la. E daí surgem os príncipes e princesas, figuras bonitas, ricas, educadas e perfeitas, que representam o ideal do que se busca em outra pessoa, seja para um romance ou apenas uma amizade. Sendo o ideal do imaginário comum humano algo inatingível, não é de se espantar que o casamento de um príncipe legítimo cause tanto alvoroço.

Mas apesar de ser príncipe, William provavelmente não é perfeito. Assim como Kate. Ninguém o é. O ideal do qual tanto se fala não é alcançável, tanto nas relações humanas, como até mesmo na engenharia, por exemplo. Nesta, o que se busca sempre é melhorar, otimizar, aproximar, reduzir erros. Mas atingir a perfeição, aquilo de conto de fadas, aquilo da exatidão matemática, é impossível.

Apesar de a constatação parecer triste, não há motivo para desânimo. Ao trabalharmos para reduzir nossos erros e otimizar nossa vida e nossas relações, estamos fazendo algo muito mais importante do que seria atingir a perfeição. Estamos modificando a nós mesmos e tudo o que está ao nosso redor.

Parece estranho, mas talvez nosso ideal de perfeição esteja equivocado. Se uma menina quer ser princesa, ela precisa se casar com um príncipe ou filha de um rei. Mas isso não fará dela uma mulher perfeita e nem vai inseri-la num conto de fadas da Disney. O que vai torná-la uma pessoa melhor é, sem dúvida alguma, todos os percalços pelos quais ela passou na vida. A verdadeira beleza não está no fim, mas sim no caminho.

E o barato está justamente aí. Pois sendo assim, não precisamos sonhar com títulos de príncipes ou princesas, ricos e bonitos, para sermos felizes. Podemos ser felizes sendo médicos, engenheiros, donas de casa, motoristas, professores, feios ou qualquer outra coisa. O que vai definir nossa felicidade são os caminhos que trilhamos ao longo de nossas jornadas e nossa capacidade de melhorar com os nossos erros.

Uma pessoa pode ser bonita, mas não ser inteligente. Pode ser inteligente, mas ser antipática. Pode ser simpática, mas não ser bonita. Pode ser até bonita, inteligente e simpática, mas talvez mau-caráter. E pode ser isso tudo e ainda ter bom-caráter, mas certamente haverão outros defeitos. O legal é perceber que o que é ideal para alguns pode não ser para outros. E o que nos parece ideal pode não ser o melhor para nós. Talvez o rapaz trabalhador e humilde que mora na esquina seja capaz de fazer a sua vizinha muito mais feliz do que o príncipe com quem ela tanto sonha, mesmo que ela tenha a oportunidade de namorar um príncipe de fato, como o William.

Sem dúvida o casamento de William e Kate será belíssimo. Imagina só, eles vão desfilar pelas ruas históricas de Londres sendo cortejados por milhões de pessoas. E outras milhões de pessoas ao redor do mundo vão assistir pela TV e internet. Ora, por que não achar isso bonito? Não se privem de suspirar, principalmente as meninas.

O que não podemos esquecer é que também podemos ter o nosso castelo, construído com cada pedrinha que encontramos no nosso caminho. Também podemos ter nossa coroa reluzente, feita de sabedoria. Nossos amigos e amores podem ter um monte de defeitos, mas poderão ser para nós príncipes, princesas, duques e condessas mesmo assim, desde que saibamos lidar com seus defeitos e valorizar suas qualidades. Sapos viram príncipes; é fechar os olhos e beijar.

Se William e Kate têm tudo para serem felizes para sempre, nós também temos. No reino de nossas vidas, as bruxas podem ser feias, mas há fadas lindas, com certeza.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lucas


Hoje é aniversário do meu irmão, Lucas, que completa 16 anos. E por isso o texto de hoje é dedicado a ele.

Eu e Lucas somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, mas as nossas semelhanças terminam aí. Enquanto eu sou moreno tipo indiano com beleza exótica (aff!), Lucas tem um tom de pele bem mais claro, olhos mais claros, cabelos mais claros; um "quê" de loiro playboy.

Lucas é tudo o que eu não sou. E eu sou tudo o que ele não é. Eu era o típico nerd do colégio, sem jeito com as meninas. Lucas é popular e fica com todas. Poemas e recados no Orkut, ligações no meio da madrugada; todas se apaixonam por ele. Lucas é praticamente o Justin Bieber da sala dele. Enquanto eu sempre sofria de amor, Lucas faz sofrerem de amor.

Eu não sou vidrado em futebol. Apenas acompanho meu fluminense de maneira superficial. Jogo futebol da mesma forma que esquio em montanhas geladas, ou seja, não sei, não jogo. Já Lucas faz parte do time juvenil de um clube e já conquistou vários campeonatos.

Eu fui começar a usar um anel de polegar aos 21 anos. Lucas, aos 12, já fazia reflexo no cabelo. Também usa brinco, e sua orelha está ficando cada vez mais larga. Ele adora roupas de marca. Eu gosto, mas não faço tanta questão quanto ele. Lucas é um teen quase extravagante, que adora chamar a atenção com seus acessórios. Eu sempre me vesti mais polida e discretamente.

Eu sei preparar miojo e fritar ovo; nem sempre ficam bons. Lucas faz bolo de chocolate com recheio e cobertura; fica uma delícia. Eu gosto de estudar; Lucas não. Lucas toca violão; eu não. Eu sou mais teórico; Lucas é mais prático. Lucas compra brigas por coisas pequenas; eu evito brigas quando na realidade deveria brigar. Lucas é micareta e barzinho; eu sou cinema e restaurante.

Apesar de tantas diferenças, acabo de lembrar que temos mais coisas em comum do que somente sermos filhos do mesmo pai e da mesma mãe: somos passionais e sociáveis. Assim como eu, Lucas não tem nada de frio e adora sorrir e estar rodeado de pessoas.

Para finalizar, é com muita alegria e orgulho que eu desejo felicidades para o meu único irmão nesse dia tão especial. Parabéns, Lucas!

domingo, 17 de abril de 2011

Beleza exótica


Já ouvi dizerem algumas vezes que eu tenho uma beleza exótica. Não me lembro de quem. No início, achava o elogio muito interessante, afinal ser exótico é ser diferente, é ter uma beleza fora do comum, fora dos padrões; beleza única. Até que um dia eu me despertei para o real significado da palavra "exótico" ao consultá-la em dicionário:

Exótico: Esquisito, extravagante, estranho.

Tudo veio por água abaixo. Minha beleza é esquisita, extravagante e estranha! Depois disso, passei a me sentir um retrato cubista de Picasso, com um olho em cima, outro embaixo, nariz fora do lugar. Valioso, porém com uma imagem toda desmontada, desengonçada. Ou então um mico selvagem raro e colorido. Ou ainda integrante da banda Restart ou a própria Lady Gaga. Eles são exóticos!


Quadro de Picasso. Exótico!


Lady Gaga. Exótica!

Eu tenho a impressão de que quando alguém diz que você tem uma beleza exótica, não significa que você seja necessariamente bonito, mas sim que você consegue ser um tantinho atraente por ser esquisito. Atraente no sentido "po, você é estranhão, chama a atenção, dá vontade de ficar te reparando de tão bizarro", e não no sentido sexual.

Tenham muito cuidado com essa coisa de beleza exótica, ok? Exótica é a senhora sua mãe.

Pessoas e dores


Há cerca de dois ou três anos atrás encontrei uma conhecida, mulher em torno dos cinquenta anos, na condução, enquanto eu voltava da faculdade. É aquele tipo de pessoa que a gente vê uma vez na vida outra na morte. Simples, humilde, simpática e alegre, é uma mulher fácil de se conversar, e, entre algumas gargalhadas, ficamos papeando durante o trajeto inteiro.

Em certo momento, já depois de deixarmos a condução, ela mencionou sobre o seu filho. O rapaz, aos vinte e poucos anos, havia sido assassinado por bandidos. Ele também era um. A tragédia havia acontecido poucos anos antes daquele dia em que nos vimos. Para o coração de uma mãe, era recente. Aliás, creio que para o coração de uma mãe, um acontecimento como esse jamais deixaria de ser recente.

O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que a mulher me contou essa história. Sem choro, sem raiva, mas com um certo ar de conformismo, de superação, apesar do seu olhar vago e da saudade que eu percebi sendo imprimida em sua voz.

Uma mulher que se mostrou alegre, batalhadora, cheia de vida, apesar de carregar a história de um filho bandido assassinado nas costas. Nessas horas, eu penso: como as pessoas são fortes! Histórias como essa me deixam um tanto impressionado. Será que eu possuiria essa força? Será que eu seria capaz de carregar uma cruz como essa?

Conheço um cego, amigo do meu pai, que adquiriu a deficiência após um acidente de trânsito. Ele era o típico cara de bar, que gostava de beber com os amigos. E aí vem a supresa: gostava não, gosta! Pelo menos até a última vez que o vi. É um sujeito animado, que está sempre sorridente. Mesmo que tenha momentos de tristeza, ela se intercala com os momentos de felicidade que demonstra ter diante das pessoas.

Ouvi dizer uma vez que nossos problemas são do tamanho que podemos suportar. E se eles crescem, nossas forças crescem junto. Eu fico admirado com pessoas que passam por problemas tão severos e conseguem encontrar motivos para sorrir e tocar a vida. Sinto-me pequeno diante dessas pessoas e acho que tenho muito o que aprender com elas.

Eu sei que o tempo é um remédio infalível para curar ou amenizar os sufocos da vida, mas enquanto ele não passa o suficiente, a dor dilacera. E a minha admiração está justamente nessa motivação que nasce da dor. Acho realmente incrível.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Casinha de bomba


Até uns 10 anos atrás era muito comum, pelo menos aqui nas minhas bandas, jovens (na maioria, adolescentes) venderem artefatos pirotécnicos de festa junina/julina. Estou falando de estalinhos, cobrinhas, bombinhas, cabeções de negro, morteiros, lasers, buscapés, etc. Eu fui um desses adolescentes. Por uns dois anos consecutivos, tive a minha casinha de bomba, sendo portanto um “empresário” do ramo.

A infraestrutura ficou por conta do meu falecido e saudoso avô. Ele, muito habilidoso com madeira, fez uma casinha de bomba para mim, parecida com a da foto abaixo.

Barraquinha_fogos Não encontrei foto melhor, mas serve. Os compartimentos serviam para organizar os tipos de explosivos. Bombinhas de um lado, estalinhos do outro, e por aí vai. A minha casinha também tinha um lampião como esse para iluminá-la.

O patrocínio ficou por conta do meu pai. Ele comprou todos os artefatos em grande quantidade em uma loja especializada para que eu pudesse revendê-los e obter lucro. Com a casinha pronta e a mercadoria comprada, era só vender.

Essa era uma atividade que popularizava os meninos da rua. Logo eu fiquei conhecido como o “garoto que vende bombinhas” ou o “garoto dos fogos”. Vinham pessoas (geralmente meninos da minha idade) de todo o canto do bairro comprar os explosivos. E esse pessoal costumava acendê-los na minha rua mesmo, próximo onde eu ficava com a casinha, para que assim que terminassem pudessem logo comprar mais, resultando em uma farra completa.

Com isso, a atividade infanto-juvenil na minha rua cresceu ainda mais na época das festas de meio de ano. E eram atividades bem barulhentas. Creio que isso tenha feito com o que o meu avô se arrependesse um pouco de ter me incentivado nessa empreitada. Afinal, que idoso gosta de cabeções de negro estourando aos montes na sua calçada?

Por falar em cabeção de negro, lembro de uma vez em que, quando ainda era criança, coloquei um dentro de um cocô do meu antigo cachorro que estava fresquinho no quintal (não me perguntem como) e o acendi para que o cocô se espatifasse. O problema é que não me liguei de que havia roupa da minha mãe no varal. Enfim.

Outra vez, acendi um buscapé (que segue um percurso horizontal, indo “atrás” das pessoas e fazendo jus ao nome) pensando ser um laser (que simplesmente sobe todo colorido). O resultado foi que o bicho correu na direção de uma mulher que estava passando na rua, e atingiu a perna dela. Fui mandado pra tudo quanto é lugar naquele dia.

Deixando essas serelepices de lado (que aliás, eu bem que poderia tê-las confessado ao padre), preciso mencionar que domingo era o dia em que eu mais faturava. Motivo: futebol. Teve uma vez em que Flamengo e Vasco disputaram a final de algum campeonato (acho que o Carioca) e toda a mercadoria se esgotou em poucas horas. Fiquei todo bobo.

Sabe, a época da casinha de bomba foi muito especial na minha vida. Eu estava apenas no início da minha adolescência, meu avô ainda era vivo e, como ele tinha um bar, dava vida à calçada aqui de casa. Existiam muitas crianças da minha idade por aqui, com as quais eu brincava. Sei que tenho apenas 24 anos, mas percebo que as crianças de hoje não brincam mais de pique na rua como eu fazia, por exemplo.

Jamais vou me esquecer daqueles dias em que eu voltava para casa imundo e com o cheiro da pólvora das bombinhas. Surpreendentemente, é um fedor que me dá saudade.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sensação de cemitério


Desde que eu me entendo por gente, trago comigo uma sensação que eu apelidei hoje de “sensação de cemitério”. O que sentimos quando vamos ao cemitério? Tristeza profunda, caso estejamos sepultando alguém a quem amamos. Mas não estou me referindo a este caso. Falo da sensação de apenas visita ao cemitério; visita ao túmulo de alguém querido que já morreu há anos, cuja realidade não nos causa mais dor, apenas saudade.

cemitério Um cemitério. O que você sente?

Quando vamos ao cemitério neste caso, podemos não sentir exatamente tristeza, nem alegria. Mas o lugar nos desperta uma reflexão sobre a vida, sobre o fato de ela ser passageira, sobre o fato de que nada levamos dela. Juntamente com o silêncio e a calma do local, essa reflexão resulta em uma sensação de paz incômoda, de conformismo nostálgico, de alegria melancólica, se é que essas dualidades possam existir.

Visitar um cemitério é uma verdadeira jornada do “eu”, das nossas rotinas e dos nossos costumes, aceitos e enraizados, rumo a algo muito mais amplo e primordial, cuja explicação é difícil e de certa forma até atormenta.

Não estou querendo dizer que eu sou infeliz. Muito pelo contrário. Mesmo que eu passe por fases ruins (como qualquer pessoa), me considero privilegiado de forma geral, e essa constatação se reflete nas minhas pazes com a vida e na minha motivação. Mas, curiosamente, essa sensação consegue me acompanhar até mesmo quando não deveria. E isso acaba por, às vezes, me destacar das demais pessoas. Sou aquele com cara de triste em uma festa, porém sem estar necessariamente triste, apenas pensativo.

Eu sou daqueles capaz de ter uma reflexão ou até mesmo de me sentir só em plena boate com vários conhecidos ao redor, dançando e bebendo sem pensar em mais nada. Durante algumas vezes ao dia, eu paro de fazer o que estou fazendo (estudando, por exemplo) e começo a me questionar, a refletir, a escapar para o amplo. Faço viagens de ida e volta entre o foco e o amplo com muita frequência.

Também sou muito vulnerável ao ambiente. Posso estar com os meus melhores amigos, porém se o lugar me inspira melancolia, possivelmente melancólico eu estarei. Por outro lado, se eu estou com problemas, mas estiver passando por um local bonito, com tempo de sol e de natureza exuberante, possivelmente bem eu ficarei. Afinal, a sensação de cemitério pode não ser necessariamente ruim. Muitas vezes conseguimos motivar nossas vidas através da percepção de que ela é passageira e precisa ser vivida intensamente.

No final das contas, talvez eu seja meio gótico, neogótico, sei lá. Ou apenas sentimental demais. O problema é que ser piegas não combina muito com a rotina da minha profissão. Paciência. Sempre vou preferir olhar para a infinitude das estrelas do que resolver uma integral.