sábado, 12 de março de 2011

O porquinho


No alto de seus 80 anos, Aninha ainda possuía disposição e carinho suficientes para preparar o café-da-manhã de seu velho marido, Maurinho. Naquela manhã, ela estava especialmente feliz; cantarolava enquanto ia passando mel nas torradas. No radinho da cozinha, uma música de Roberto Carlos.

Aninha e Maurinho se conheceram em 1948. Segundo ele, foi amor à primeira vista. Casaram-se em 1951. Não tiveram filhos. Sempre unidos, orgulhavam-se das décadas de cumplicidade. Eram muito queridos pela vizinhança, além de serem tomados como exemplo.

Aninha, delicamente, colocou o copo de suco de laranja e as torradas com mel sob uma bandeja e resolveu agradar o marido, levando o café na cama. Maurinho não estava muito bem de saúde. Nos últimos anos, havia sobrevivido a dois derrames e um infarto no miocárdio. Também era diabético, asmático e uma tendinite o incomodava. Maurinho sentia que estava na hora de partir dessa vida.

Aninha entrou no quarto cuidadosamente, e Maurinho, ao vê-la, abriu um leve porém apaixonado sorriso. Pegou na mão da esposa, enquanto ela apoiava a bandeja sobre o colo dele.

- Minha velha! – disse Maurinho olhando nos olhos de Aninha.
- Sim, querido.
- Você sabe que é a coisa mais importante da minha vida…
- Sei sim – respondeu Aninha com um sorriso discreto e confiante.
- Você sabe também que eu estou prestes a…
- Não diga nada, por favor!
- Precisa ser dito, meu amor!
-…
- Há meses a minha saúde vem piorando. Já não consigo ficar tanto tempo em pé como antes. Passo horas nessa cama. Mas a minha preocupação é com você.
- Por que comigo?
- Quando eu partir, o que será de você? Não temos parentes vivos.
- Por favor, não diga isso e…
- Aninha, meu bem, vamos encarar a realidade. Estamos velhos, mas a sua saúde é de ferro. Já eu posso não estar mais aqui amanhã. Talvez até hoje mesmo.
-…
- Preciso lhe contar algo.
- O que?
- Lembra da viagem que fizemos à Lisboa em 1965?
- Como poderia esquecer… Foi tudo tão lindo!
- Pois bem. Lembra do Antônio Maria, amigo que fizemos por lá?
- O carpinteiro?
- Sim, o carpinteiro.
- O que tem ele?
- Um dia antes de voltarmos para o Brasil, ele me deu um presente…
- Presente?
- Sim. Um presente secreto. E eu não poderia falar nada sobre isso até a hora da minha morte. Ou da sua.
- …
- Ele fez para mim um porquinho de madeira, um cofre. E pediu para eu depositar ali papéis contendo escritos, cada um, algo que eu desejava para o nosso casamento. Lembro de ter escrito “felicidade” em um, “longevidade” em outro, além de outros votos que esqueci.
- Mas por que isso, meu velho?
- O Antônio me disse que cada voto inserido nesse porquinho seria concretizado em nossa relação. Contou-me também histórias extraordinárias sobre o porquinho ter dado certo ao longo dos anos entre as pessoas. E hoje vejo que ele estava certo.
- Ora! Mas que baboseira, querido! – disse Aninha rindo, porém sem ofender – Se chegamos até aqui, foi por nossa causa e porque Deus quis, e não por causa de um porquinho guardador de votos.
- Deixe-me continuar, meu bem. Para que você tenha um restante de vida feliz e tranquila após minha partida, devemos quebrar o porquinho e ler tudo o que depositei lá dentro. Essa é a regra. E é isso que eu quero. Que nada de mal lhe aconteça e que nada lhe falte.
-…
- Por favor, pegue-o naquela minha gaveta que você não mexe. E lá que ele esteve nos últimos anos.

Aninha lentamente levantou-se, e minutos depois voltou com o velho porquinho de madeira nas mãos.

- É isso?
- Sim, querida, é sim. Me dê aqui.
- O que fará?
- O que eu disse. Temos que quebrá-lo.

Maurinho, mesmo debilitado, reuniu forças e jogou o porquinho contra o chão, que se quebrou em algumas partes, deixando os papéizinhos à mostra.

- Minha velha, precisamos agora ler um por um. Vamos fazer assim. Eu leio um, você lê o outro, até terminar.
- Como quiser, meu amor.
- Pegarei este aqui. “Prosperidade”.
- De fato, estamos melhor de vida agora do que quando nos casamos.
- Viu só? Leia um agora.
- “Amor”. Imaginei que fosse encontrar isso.
- É. E como nos amamos…
- Sem dúvida…
- Vamos ver esse aqui. “Felicidade”.
- Um dos você disse que se lembra.
- É. E confere. Sou muito feliz com você. Sua vez!
- “Cumplicidade”. Realmente, fomos amigos a vida inteira. Está ficando interessante isso. Vai!
- “Longevidade”. A outra que eu lembrava. E de fato, chegamos até aqui.
- Deixe-me pegar outro. “Paz”.
- Nunca tivemos grandes problemas em nossa vida, concorda?
- Concordo!
- Agora mais esse aqui…

Maurinho não conseguiu falar. Ao ler o que estava escrito no pequeno papel, seus olhos arregalaram-se, sua boca congelou, e sua expressão tornou-se apavorante. Começou a ter uma convulsão e segundos depois ficou imóvel. Aninha
, calmamente, deitou-se sobre o peito do marido para sentir sua pulsação e constatou que ele estava morto.

Sem esboçar nenhuma reação de tristeza, Aninha pegou no chão o papel fatal que seu marido havia lido.

- “Morte de Maurinho” – leu em voz alta. Sorriu.

Ainda havia um papel a ser lido. Aninha o pegou, mas não leu. Dias depois embarcou para Lisboa, onde encontrou Antônio Maria com a aparência de um rapaz de 20 anos de idade.

- Foi infalível – disse ela.
- Sempre é. Essa lenda possui centenas de anos. O feitiço, sem bem executado, é certeiro.
- Faltou esse papel. Não o li.
- E o que está esperando?
- Vejamos. “Eternidade de Aninha”.
- Como você bem sabe, esse eu escrevi e coloquei no porquinho junto com o papel que levou o seu marido à morte, antes de dar de presente a ele, claro.

Nesse momento, Aninha fixou o olhar em Antônio Maria, e, enquanto se aproximava dele, suas rugas iam desaparecendo, seu andar se tornava mais firme e sua silhueta tomava a forma de uma bela e jovem mulher.

- Preparada para a eternidade, Aninha?
- Com você, mais do que preparada…

Beijaram-se, apaixonadamente.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mais de dois meses sem postar e ainda sem nada a dizer. Ou melhor, tenho: 2011 parece que é o ano em que as configurações das coisas mudam, porém mantendo-se o ambiente. Por exemplo: estudarei no mesmo local, com os mesmo professores. Porém, agora será uma pós-graduação em vez de graduação. No campo pessoal, mesmas pessoas, porém com relações se modificando.

Mas vou precisar de pelo menos uma coisa completamente nova para me ocupar também neste ano. De preferência, algo que me insira em outro ambiente e contexto e me traga novas sensações. Conhecer pessoas diferentes é um bom meio para isso. Fazer uma atividade diferente também. Os dois juntos me parece o ideal.