terça-feira, 26 de abril de 2011

Delírio?


A única bisavó com quem convivi morreu há alguns anos, aos 90, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Velhice mesmo. Seu nome era Orcina. Eu a adorava. Nos momentos de sanidade, ela me contava fatos do seu passado e cantarolava com sua voz rouca e cansada. Nos de insanidade, gritava.

Extremamente católica, a bisa costumava benzer tudo o que comia. Partia o biscoito Maisena, fazia o sinal da cruz no pedaço, e só então colocava-o na boca. Em outras ocasiões, segurava um objeto pequeno e ficava brincando com ele, movimentando-o pelo ar. Várias vezes ela me recitou cantigas de sua época; uma delas eu aprendi a cantar.

Frequentemente ela se esquecia quem eu era. Uma dessas vezes, a mais engraçada, foi quando fui visitá-la após ela ter retornado do hospital devido a algum mal estar. Eu, todo amoroso, a abracei com um caloroso e sorridente "bisa!". Ela, com um olhar de desprezo, respondeu um "eu não me lembro de você", balançando a cabeça com sinal negativo. Perdoadíssima, tadinha.

Pouco antes de sua morte, estávamos eu e meu pai com ela. A bisa estava inquieta e dizia que "eles" estavam chamando por ela e, por isso, ela queria que meu pai a levasse até "eles". Meu pai, confuso, mas querendo ver onde aquilo iria dar, segurou-a pelo braço e a conduziu. Andaram pela casa e, após alguns minutos, meu pai ficou impaciente e resolveu colocá-la de volta onde estava. "Não tem ninguém, dona Orcina". Ela ficou quieta, mas não se conformou.

Alguns dias depois, uma de minhas primas esteve com ela. A bisa disse a ela que "eles" estavam jogando pétalas de rosas sobre sua cabeça e que a casa estava com um perfume diferente e delicioso. Não haviam rosas e a casa não estava mais perfumada do que de costume. Novamente insistiu que "eles" estavam chamando por ela, que falavam o seu nome enquanto jogavam as pétalas de rosas, e que a luz "deles" estava ficando cada vez mais forte. Faleceu no dia seguinte.

Minha bisa já não era tão sã nos últimos anos de sua vida, mas na época fiquei impressionado com essas visões que pessoas pouco crédulas dizem ser apenas delírios de idoso. Teria minha bisa visto anjos? E se ele jogaram pétalas de rosas sobre ela e um perfume delicioso se instaurou no ar, isso deve significar que ela foi para um lugar bom.

Um pouco de delírio sim, talvez. Mas até que ponto? Maravilhoso mistério.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Felizes para sempre


No dia 29 de abril, o Príncipe William se casará com a plebeia Kate Middleton. Um verdadeiro conto de fadas moderno: a menina que não nasceu em berço de ouro, tornou-se rica e conquistou o coração do jovem príncipe. Em pleno ano de 2011 parece ser difícil compreender porque esse tipo de história ainda fascina tanto. Mas na verdade é muito simples.



Os contos de fada simbolizam a perfeição da vida e das relações humanas. Mesmo havendo alguns bilhões de pessoas no mundo, todas guardando diferenças entre si, o que todas querem é ser felizes. E mesmo que a nossa felicidade deva partir de nós mesmos, é importante termos aqueles com quem dividi-la. E daí surgem os príncipes e princesas, figuras bonitas, ricas, educadas e perfeitas, que representam o ideal do que se busca em outra pessoa, seja para um romance ou apenas uma amizade. Sendo o ideal do imaginário comum humano algo inatingível, não é de se espantar que o casamento de um príncipe legítimo cause tanto alvoroço.

Mas apesar de ser príncipe, William provavelmente não é perfeito. Assim como Kate. Ninguém o é. O ideal do qual tanto se fala não é alcançável, tanto nas relações humanas, como até mesmo na engenharia, por exemplo. Nesta, o que se busca sempre é melhorar, otimizar, aproximar, reduzir erros. Mas atingir a perfeição, aquilo de conto de fadas, aquilo da exatidão matemática, é impossível.

Apesar de a constatação parecer triste, não há motivo para desânimo. Ao trabalharmos para reduzir nossos erros e otimizar nossa vida e nossas relações, estamos fazendo algo muito mais importante do que seria atingir a perfeição. Estamos modificando a nós mesmos e tudo o que está ao nosso redor.

Parece estranho, mas talvez nosso ideal de perfeição esteja equivocado. Se uma menina quer ser princesa, ela precisa se casar com um príncipe ou filha de um rei. Mas isso não fará dela uma mulher perfeita e nem vai inseri-la num conto de fadas da Disney. O que vai torná-la uma pessoa melhor é, sem dúvida alguma, todos os percalços pelos quais ela passou na vida. A verdadeira beleza não está no fim, mas sim no caminho.

E o barato está justamente aí. Pois sendo assim, não precisamos sonhar com títulos de príncipes ou princesas, ricos e bonitos, para sermos felizes. Podemos ser felizes sendo médicos, engenheiros, donas de casa, motoristas, professores, feios ou qualquer outra coisa. O que vai definir nossa felicidade são os caminhos que trilhamos ao longo de nossas jornadas e nossa capacidade de melhorar com os nossos erros.

Uma pessoa pode ser bonita, mas não ser inteligente. Pode ser inteligente, mas ser antipática. Pode ser simpática, mas não ser bonita. Pode ser até bonita, inteligente e simpática, mas talvez mau-caráter. E pode ser isso tudo e ainda ter bom-caráter, mas certamente haverão outros defeitos. O legal é perceber que o que é ideal para alguns pode não ser para outros. E o que nos parece ideal pode não ser o melhor para nós. Talvez o rapaz trabalhador e humilde que mora na esquina seja capaz de fazer a sua vizinha muito mais feliz do que o príncipe com quem ela tanto sonha, mesmo que ela tenha a oportunidade de namorar um príncipe de fato, como o William.

Sem dúvida o casamento de William e Kate será belíssimo. Imagina só, eles vão desfilar pelas ruas históricas de Londres sendo cortejados por milhões de pessoas. E outras milhões de pessoas ao redor do mundo vão assistir pela TV e internet. Ora, por que não achar isso bonito? Não se privem de suspirar, principalmente as meninas.

O que não podemos esquecer é que também podemos ter o nosso castelo, construído com cada pedrinha que encontramos no nosso caminho. Também podemos ter nossa coroa reluzente, feita de sabedoria. Nossos amigos e amores podem ter um monte de defeitos, mas poderão ser para nós príncipes, princesas, duques e condessas mesmo assim, desde que saibamos lidar com seus defeitos e valorizar suas qualidades. Sapos viram príncipes; é fechar os olhos e beijar.

Se William e Kate têm tudo para serem felizes para sempre, nós também temos. No reino de nossas vidas, as bruxas podem ser feias, mas há fadas lindas, com certeza.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lucas


Hoje é aniversário do meu irmão, Lucas, que completa 16 anos. E por isso o texto de hoje é dedicado a ele.

Eu e Lucas somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, mas as nossas semelhanças terminam aí. Enquanto eu sou moreno tipo indiano com beleza exótica (aff!), Lucas tem um tom de pele bem mais claro, olhos mais claros, cabelos mais claros; um "quê" de loiro playboy.

Lucas é tudo o que eu não sou. E eu sou tudo o que ele não é. Eu era o típico nerd do colégio, sem jeito com as meninas. Lucas é popular e fica com todas. Poemas e recados no Orkut, ligações no meio da madrugada; todas se apaixonam por ele. Lucas é praticamente o Justin Bieber da sala dele. Enquanto eu sempre sofria de amor, Lucas faz sofrerem de amor.

Eu não sou vidrado em futebol. Apenas acompanho meu fluminense de maneira superficial. Jogo futebol da mesma forma que esquio em montanhas geladas, ou seja, não sei, não jogo. Já Lucas faz parte do time juvenil de um clube e já conquistou vários campeonatos.

Eu fui começar a usar um anel de polegar aos 21 anos. Lucas, aos 12, já fazia reflexo no cabelo. Também usa brinco, e sua orelha está ficando cada vez mais larga. Ele adora roupas de marca. Eu gosto, mas não faço tanta questão quanto ele. Lucas é um teen quase extravagante, que adora chamar a atenção com seus acessórios. Eu sempre me vesti mais polida e discretamente.

Eu sei preparar miojo e fritar ovo; nem sempre ficam bons. Lucas faz bolo de chocolate com recheio e cobertura; fica uma delícia. Eu gosto de estudar; Lucas não. Lucas toca violão; eu não. Eu sou mais teórico; Lucas é mais prático. Lucas compra brigas por coisas pequenas; eu evito brigas quando na realidade deveria brigar. Lucas é micareta e barzinho; eu sou cinema e restaurante.

Apesar de tantas diferenças, acabo de lembrar que temos mais coisas em comum do que somente sermos filhos do mesmo pai e da mesma mãe: somos passionais e sociáveis. Assim como eu, Lucas não tem nada de frio e adora sorrir e estar rodeado de pessoas.

Para finalizar, é com muita alegria e orgulho que eu desejo felicidades para o meu único irmão nesse dia tão especial. Parabéns, Lucas!

domingo, 17 de abril de 2011

Beleza exótica


Já ouvi dizerem algumas vezes que eu tenho uma beleza exótica. Não me lembro de quem. No início, achava o elogio muito interessante, afinal ser exótico é ser diferente, é ter uma beleza fora do comum, fora dos padrões; beleza única. Até que um dia eu me despertei para o real significado da palavra "exótico" ao consultá-la em dicionário:

Exótico: Esquisito, extravagante, estranho.

Tudo veio por água abaixo. Minha beleza é esquisita, extravagante e estranha! Depois disso, passei a me sentir um retrato cubista de Picasso, com um olho em cima, outro embaixo, nariz fora do lugar. Valioso, porém com uma imagem toda desmontada, desengonçada. Ou então um mico selvagem raro e colorido. Ou ainda integrante da banda Restart ou a própria Lady Gaga. Eles são exóticos!


Quadro de Picasso. Exótico!


Lady Gaga. Exótica!

Eu tenho a impressão de que quando alguém diz que você tem uma beleza exótica, não significa que você seja necessariamente bonito, mas sim que você consegue ser um tantinho atraente por ser esquisito. Atraente no sentido "po, você é estranhão, chama a atenção, dá vontade de ficar te reparando de tão bizarro", e não no sentido sexual.

Tenham muito cuidado com essa coisa de beleza exótica, ok? Exótica é a senhora sua mãe.

Pessoas e dores


Há cerca de dois ou três anos atrás encontrei uma conhecida, mulher em torno dos cinquenta anos, na condução, enquanto eu voltava da faculdade. É aquele tipo de pessoa que a gente vê uma vez na vida outra na morte. Simples, humilde, simpática e alegre, é uma mulher fácil de se conversar, e, entre algumas gargalhadas, ficamos papeando durante o trajeto inteiro.

Em certo momento, já depois de deixarmos a condução, ela mencionou sobre o seu filho. O rapaz, aos vinte e poucos anos, havia sido assassinado por bandidos. Ele também era um. A tragédia havia acontecido poucos anos antes daquele dia em que nos vimos. Para o coração de uma mãe, era recente. Aliás, creio que para o coração de uma mãe, um acontecimento como esse jamais deixaria de ser recente.

O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que a mulher me contou essa história. Sem choro, sem raiva, mas com um certo ar de conformismo, de superação, apesar do seu olhar vago e da saudade que eu percebi sendo imprimida em sua voz.

Uma mulher que se mostrou alegre, batalhadora, cheia de vida, apesar de carregar a história de um filho bandido assassinado nas costas. Nessas horas, eu penso: como as pessoas são fortes! Histórias como essa me deixam um tanto impressionado. Será que eu possuiria essa força? Será que eu seria capaz de carregar uma cruz como essa?

Conheço um cego, amigo do meu pai, que adquiriu a deficiência após um acidente de trânsito. Ele era o típico cara de bar, que gostava de beber com os amigos. E aí vem a supresa: gostava não, gosta! Pelo menos até a última vez que o vi. É um sujeito animado, que está sempre sorridente. Mesmo que tenha momentos de tristeza, ela se intercala com os momentos de felicidade que demonstra ter diante das pessoas.

Ouvi dizer uma vez que nossos problemas são do tamanho que podemos suportar. E se eles crescem, nossas forças crescem junto. Eu fico admirado com pessoas que passam por problemas tão severos e conseguem encontrar motivos para sorrir e tocar a vida. Sinto-me pequeno diante dessas pessoas e acho que tenho muito o que aprender com elas.

Eu sei que o tempo é um remédio infalível para curar ou amenizar os sufocos da vida, mas enquanto ele não passa o suficiente, a dor dilacera. E a minha admiração está justamente nessa motivação que nasce da dor. Acho realmente incrível.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Casinha de bomba


Até uns 10 anos atrás era muito comum, pelo menos aqui nas minhas bandas, jovens (na maioria, adolescentes) venderem artefatos pirotécnicos de festa junina/julina. Estou falando de estalinhos, cobrinhas, bombinhas, cabeções de negro, morteiros, lasers, buscapés, etc. Eu fui um desses adolescentes. Por uns dois anos consecutivos, tive a minha casinha de bomba, sendo portanto um “empresário” do ramo.

A infraestrutura ficou por conta do meu falecido e saudoso avô. Ele, muito habilidoso com madeira, fez uma casinha de bomba para mim, parecida com a da foto abaixo.

Barraquinha_fogos Não encontrei foto melhor, mas serve. Os compartimentos serviam para organizar os tipos de explosivos. Bombinhas de um lado, estalinhos do outro, e por aí vai. A minha casinha também tinha um lampião como esse para iluminá-la.

O patrocínio ficou por conta do meu pai. Ele comprou todos os artefatos em grande quantidade em uma loja especializada para que eu pudesse revendê-los e obter lucro. Com a casinha pronta e a mercadoria comprada, era só vender.

Essa era uma atividade que popularizava os meninos da rua. Logo eu fiquei conhecido como o “garoto que vende bombinhas” ou o “garoto dos fogos”. Vinham pessoas (geralmente meninos da minha idade) de todo o canto do bairro comprar os explosivos. E esse pessoal costumava acendê-los na minha rua mesmo, próximo onde eu ficava com a casinha, para que assim que terminassem pudessem logo comprar mais, resultando em uma farra completa.

Com isso, a atividade infanto-juvenil na minha rua cresceu ainda mais na época das festas de meio de ano. E eram atividades bem barulhentas. Creio que isso tenha feito com o que o meu avô se arrependesse um pouco de ter me incentivado nessa empreitada. Afinal, que idoso gosta de cabeções de negro estourando aos montes na sua calçada?

Por falar em cabeção de negro, lembro de uma vez em que, quando ainda era criança, coloquei um dentro de um cocô do meu antigo cachorro que estava fresquinho no quintal (não me perguntem como) e o acendi para que o cocô se espatifasse. O problema é que não me liguei de que havia roupa da minha mãe no varal. Enfim.

Outra vez, acendi um buscapé (que segue um percurso horizontal, indo “atrás” das pessoas e fazendo jus ao nome) pensando ser um laser (que simplesmente sobe todo colorido). O resultado foi que o bicho correu na direção de uma mulher que estava passando na rua, e atingiu a perna dela. Fui mandado pra tudo quanto é lugar naquele dia.

Deixando essas serelepices de lado (que aliás, eu bem que poderia tê-las confessado ao padre), preciso mencionar que domingo era o dia em que eu mais faturava. Motivo: futebol. Teve uma vez em que Flamengo e Vasco disputaram a final de algum campeonato (acho que o Carioca) e toda a mercadoria se esgotou em poucas horas. Fiquei todo bobo.

Sabe, a época da casinha de bomba foi muito especial na minha vida. Eu estava apenas no início da minha adolescência, meu avô ainda era vivo e, como ele tinha um bar, dava vida à calçada aqui de casa. Existiam muitas crianças da minha idade por aqui, com as quais eu brincava. Sei que tenho apenas 24 anos, mas percebo que as crianças de hoje não brincam mais de pique na rua como eu fazia, por exemplo.

Jamais vou me esquecer daqueles dias em que eu voltava para casa imundo e com o cheiro da pólvora das bombinhas. Surpreendentemente, é um fedor que me dá saudade.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sensação de cemitério


Desde que eu me entendo por gente, trago comigo uma sensação que eu apelidei hoje de “sensação de cemitério”. O que sentimos quando vamos ao cemitério? Tristeza profunda, caso estejamos sepultando alguém a quem amamos. Mas não estou me referindo a este caso. Falo da sensação de apenas visita ao cemitério; visita ao túmulo de alguém querido que já morreu há anos, cuja realidade não nos causa mais dor, apenas saudade.

cemitério Um cemitério. O que você sente?

Quando vamos ao cemitério neste caso, podemos não sentir exatamente tristeza, nem alegria. Mas o lugar nos desperta uma reflexão sobre a vida, sobre o fato de ela ser passageira, sobre o fato de que nada levamos dela. Juntamente com o silêncio e a calma do local, essa reflexão resulta em uma sensação de paz incômoda, de conformismo nostálgico, de alegria melancólica, se é que essas dualidades possam existir.

Visitar um cemitério é uma verdadeira jornada do “eu”, das nossas rotinas e dos nossos costumes, aceitos e enraizados, rumo a algo muito mais amplo e primordial, cuja explicação é difícil e de certa forma até atormenta.

Não estou querendo dizer que eu sou infeliz. Muito pelo contrário. Mesmo que eu passe por fases ruins (como qualquer pessoa), me considero privilegiado de forma geral, e essa constatação se reflete nas minhas pazes com a vida e na minha motivação. Mas, curiosamente, essa sensação consegue me acompanhar até mesmo quando não deveria. E isso acaba por, às vezes, me destacar das demais pessoas. Sou aquele com cara de triste em uma festa, porém sem estar necessariamente triste, apenas pensativo.

Eu sou daqueles capaz de ter uma reflexão ou até mesmo de me sentir só em plena boate com vários conhecidos ao redor, dançando e bebendo sem pensar em mais nada. Durante algumas vezes ao dia, eu paro de fazer o que estou fazendo (estudando, por exemplo) e começo a me questionar, a refletir, a escapar para o amplo. Faço viagens de ida e volta entre o foco e o amplo com muita frequência.

Também sou muito vulnerável ao ambiente. Posso estar com os meus melhores amigos, porém se o lugar me inspira melancolia, possivelmente melancólico eu estarei. Por outro lado, se eu estou com problemas, mas estiver passando por um local bonito, com tempo de sol e de natureza exuberante, possivelmente bem eu ficarei. Afinal, a sensação de cemitério pode não ser necessariamente ruim. Muitas vezes conseguimos motivar nossas vidas através da percepção de que ela é passageira e precisa ser vivida intensamente.

No final das contas, talvez eu seja meio gótico, neogótico, sei lá. Ou apenas sentimental demais. O problema é que ser piegas não combina muito com a rotina da minha profissão. Paciência. Sempre vou preferir olhar para a infinitude das estrelas do que resolver uma integral.

Se eu morrer antes de você...



Se eu morrer antes de você, faça-me um favor: Chore o

quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me
levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não
conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de
rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu
respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem
demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais,
defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque
morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas
estava longe de ser o santo que me pintam. Se me
quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse
um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei
ser bom e amigo. Espero estar com Ele o suficiente para
continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se
tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga
apenas uma frase: - "Foi meu amigo, acreditou em mim e
me quis mais perto de Deus!" - Aí, então derrame uma
lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas
não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E,
vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova
tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha
na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria
muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar
a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a
separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que
aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas
coisas? Então ore para que nós vivamos como quem sabe
que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube
viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu
para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o
seu começo. Mas, se eu morrer antes de você, acho que
não vou estranhar o céu... "Ser seu amigo... já é um
pedaço dele..."

(Chico Xavier)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Confessando-me


Como bom cristão católico que eu sou (?), possuo alguns dos sacramentos do catolicismo. Fiz Primeira Comunhão e Crisma. Para quem não sabe, Primeira Comunhão é quando você recebe o corpo de Cristo (a hóstia consagrada) pela primeira vez. Crisma nada mais é do que uma confirmação do batismo, em que o bispo besunta a sua testa com o óleo do Divino Espírito Santo. Antes desses sacramentos, é obrigatório que os católicos recebam um sacramento prévio, chamado de Penitência. A penitência é mais ou menos o que todo mundo conhece como confissão com o padre. E aí que eu queria chegar.

A confissão com o padre ocorre de forma individual. Minha primeira confissão, para que eu pudesse ter a Primeira Comunhão, aconteceu quando eu tinha 12 anos. Antes, eu ouvia histórias de penitências severas aplicadas pelo padre (provavelmente mentirosas), e eu, criança, me apavorava só em pensar que o dia da minha confissão individual com o padre estava para chegar. O que me deixava mais tranquilo era o fato de que o confessionário (ver foto abaixo) manteria-me anônimo.

confessionário Isto é um confessionário e, teoricamente, serve para manter o anonimato da pessoa que faz a confissão perante o padre, que fica lá dentro sem ver nada (e vice-versa). Agora, convenhamos, vocês acham que não dá pro padre espiar pelos buraquinhos aquela mulher sem-vergonha confessando o chifre que colocou no marido, por exemplo?

Num dos três dias do retiro que ocorreu em um sítio isolado e que serviu para preparar as crianças Primeira Comunhão, eis que o padre aparece no local para realizar as confissões. Mesmo com pecadinhos pífios de pré-adolescente, fiquei nervoso. O nervosismo aumentou quando me contaram que não haveria confessionário e que, portanto, a confissão seria cara a cara com padre.

O padre sentou-se afastado dos adultos organizadores e das crianças, no meio de uma árvores, bem próximo de raios e sol e dos sons dos pássaros. As crianças foram chamadas uma de cada vez, em ordem alfabética, e convidadas a irem ter com o sacerdote. Eu, Renan, tive que ver meus amiguinhos, um por um, indo para o limbo, antes de chegar a minha vez.

Enfim, fui chamado. Caminhei pelo chão de terra, nervoso, e logo pude ver o padre sentado em sua cadeirinha e estando disposta uma outra cadeirinha vazia bem na frente dele, onde eu fui me sentar. Ele olhou para mim, e com muita doçura, perguntou: “E então, Renan, o que tem a me dizer?”. Lembro apenas de um pecado dentre os que confessei, o maior deles. “Eu, às vezes, não gosto de obedecer aos meus pais”. Ora, que pecadinho fraco! Hoje eu vejo que pecado foi ter sido a criança travada que eu era. Nenhuma malcriação para a vizinha chata, nenhuma briga com outras crianças, nenhum bichinho de estimação maltratado, nenhuma fugidinha de casa. Nada. Meu maior pecado era ÀS VEZES não gostar de obedecer aos meus pais. E vejam bem, NÃO GOSTAR não significa NÃO OBEDECER. Eu apenas (e às vezes) obedecia puto, mas obedecia. Nem penitência tive. Francamente!

Minha segunda (e última) confissão individual com o padre aconteceu quando eu tinha 15 ou 16 anos, antes do Crisma. Dessa vez não aconteceu em retiro; foi na própria igreja, e também sem confessionário. Chamaram o meu nome, e eu fui ao encontro do sacerdorte (já era outro), em sua salinha. Dessa vez eu não estava nervoso, mas estava um tanto envergonhado, afinal meu pecado top da vez era “Padre, eu me masturbo”. Ao dizer isso, pensei logo que eu seria severamente repreendido. Que nada. De forma inesperadamente moderna, o padre disse que isso era algo normal, mas que eu apenas tomasse cuidado para não me viciar na atividade e não deixasse de fazer outras coisas por conta disso. Como penitência, pediu pra eu rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Não poderia ter sido melhor, já que um dos meus colegas crismandos disse que o padre pediu para que ele rezasse o Terço, que é uma oração composta por aproximadamente cinquenta Ave Marias, fora alguns Pai Nossos, etc. Fico pensando: considerando a proporção, esse aí deve ter estuprado uma vaca.

Ai ai, bons tempos de santo os meus.