terça-feira, 26 de abril de 2011

Delírio?


A única bisavó com quem convivi morreu há alguns anos, aos 90, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Velhice mesmo. Seu nome era Orcina. Eu a adorava. Nos momentos de sanidade, ela me contava fatos do seu passado e cantarolava com sua voz rouca e cansada. Nos de insanidade, gritava.

Extremamente católica, a bisa costumava benzer tudo o que comia. Partia o biscoito Maisena, fazia o sinal da cruz no pedaço, e só então colocava-o na boca. Em outras ocasiões, segurava um objeto pequeno e ficava brincando com ele, movimentando-o pelo ar. Várias vezes ela me recitou cantigas de sua época; uma delas eu aprendi a cantar.

Frequentemente ela se esquecia quem eu era. Uma dessas vezes, a mais engraçada, foi quando fui visitá-la após ela ter retornado do hospital devido a algum mal estar. Eu, todo amoroso, a abracei com um caloroso e sorridente "bisa!". Ela, com um olhar de desprezo, respondeu um "eu não me lembro de você", balançando a cabeça com sinal negativo. Perdoadíssima, tadinha.

Pouco antes de sua morte, estávamos eu e meu pai com ela. A bisa estava inquieta e dizia que "eles" estavam chamando por ela e, por isso, ela queria que meu pai a levasse até "eles". Meu pai, confuso, mas querendo ver onde aquilo iria dar, segurou-a pelo braço e a conduziu. Andaram pela casa e, após alguns minutos, meu pai ficou impaciente e resolveu colocá-la de volta onde estava. "Não tem ninguém, dona Orcina". Ela ficou quieta, mas não se conformou.

Alguns dias depois, uma de minhas primas esteve com ela. A bisa disse a ela que "eles" estavam jogando pétalas de rosas sobre sua cabeça e que a casa estava com um perfume diferente e delicioso. Não haviam rosas e a casa não estava mais perfumada do que de costume. Novamente insistiu que "eles" estavam chamando por ela, que falavam o seu nome enquanto jogavam as pétalas de rosas, e que a luz "deles" estava ficando cada vez mais forte. Faleceu no dia seguinte.

Minha bisa já não era tão sã nos últimos anos de sua vida, mas na época fiquei impressionado com essas visões que pessoas pouco crédulas dizem ser apenas delírios de idoso. Teria minha bisa visto anjos? E se ele jogaram pétalas de rosas sobre ela e um perfume delicioso se instaurou no ar, isso deve significar que ela foi para um lugar bom.

Um pouco de delírio sim, talvez. Mas até que ponto? Maravilhoso mistério.

3 comentários:

Um brasileiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Um brasileiro disse...

ola. tudo blz? você acredita em espirito? O espiristimo, como doutrina, explica o caso ocorrido com sua avó. não é delirio. apareça por lá. abraços.

Maniac@ disse...

É eu não sou espírita, nem católica... mas de repente a sua bisa estava vendo muito mais que nós, reles mortais... =)