domingo, 17 de abril de 2011

Pessoas e dores


Há cerca de dois ou três anos atrás encontrei uma conhecida, mulher em torno dos cinquenta anos, na condução, enquanto eu voltava da faculdade. É aquele tipo de pessoa que a gente vê uma vez na vida outra na morte. Simples, humilde, simpática e alegre, é uma mulher fácil de se conversar, e, entre algumas gargalhadas, ficamos papeando durante o trajeto inteiro.

Em certo momento, já depois de deixarmos a condução, ela mencionou sobre o seu filho. O rapaz, aos vinte e poucos anos, havia sido assassinado por bandidos. Ele também era um. A tragédia havia acontecido poucos anos antes daquele dia em que nos vimos. Para o coração de uma mãe, era recente. Aliás, creio que para o coração de uma mãe, um acontecimento como esse jamais deixaria de ser recente.

O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que a mulher me contou essa história. Sem choro, sem raiva, mas com um certo ar de conformismo, de superação, apesar do seu olhar vago e da saudade que eu percebi sendo imprimida em sua voz.

Uma mulher que se mostrou alegre, batalhadora, cheia de vida, apesar de carregar a história de um filho bandido assassinado nas costas. Nessas horas, eu penso: como as pessoas são fortes! Histórias como essa me deixam um tanto impressionado. Será que eu possuiria essa força? Será que eu seria capaz de carregar uma cruz como essa?

Conheço um cego, amigo do meu pai, que adquiriu a deficiência após um acidente de trânsito. Ele era o típico cara de bar, que gostava de beber com os amigos. E aí vem a supresa: gostava não, gosta! Pelo menos até a última vez que o vi. É um sujeito animado, que está sempre sorridente. Mesmo que tenha momentos de tristeza, ela se intercala com os momentos de felicidade que demonstra ter diante das pessoas.

Ouvi dizer uma vez que nossos problemas são do tamanho que podemos suportar. E se eles crescem, nossas forças crescem junto. Eu fico admirado com pessoas que passam por problemas tão severos e conseguem encontrar motivos para sorrir e tocar a vida. Sinto-me pequeno diante dessas pessoas e acho que tenho muito o que aprender com elas.

Eu sei que o tempo é um remédio infalível para curar ou amenizar os sufocos da vida, mas enquanto ele não passa o suficiente, a dor dilacera. E a minha admiração está justamente nessa motivação que nasce da dor. Acho realmente incrível.

2 comentários:

Rafael (Baby) disse...

Muito Bonito seu texto Renan!!
Essa parte eh a mais pura verdade: "Eu sei que o tempo é um remédio infalível para curar ou amenizar os sufocos da vida, mas enquanto ele não passa o suficiente, a dor dilacera."

Dayana disse...

Sensibilidade...é do que precisamos para ver a fragilidade das pessoas. "Ver com os olhos do outro". Lindo texto! Parabéns!!!