sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bonde das piriguetes


Um casal espera o seu primeiro filho. Após a ultrassonografia, descobrem que terão uma menina. Alegria total. Começam os preparativos: pintam as paredes do quartinho de rosa, compram roupinhas rosas, acessórios infantis femininos, ursinhos de pelúcia, etc. Nasce a menina. Linda. A bonequinha do papai.

O pai e a mãe começam a sonhar com o futuro da menina. Será que vai ser advogada? Professora? Médica? Esperam que case com um bom partido e que juntos constituam uma família sólida. Mas nem tudo acontece da forma como os pais planejam. Tem gente que nasce com tendências para fazer coisas, digamos, pouco plausíveis. No caso das meninas, cuidado, sua filha pode se tornar uma piriguete!

Vamos definir piriguete. Trata-se de um termo recente criado pelo funk carioca que denomina meninas, principalmente as adolescentes entre 13 e 19 anos, que dão em cima de caras mais velhos, geralmente casados. A piriguete não é uma prostituta. Elas não negociam com dinheiro; negociam com o cabaço. Aproveitam-se do fetiche que alguns caras têm em pegar novinhas virgens para se darem bem.

Se darem bem em que sentido?

Bom, a piriguete nada mais é do que uma menina que quer ser mulher antes do tempo. Ela quer ter um namorado mais velho e que pague as coisas para ela, quer andar de carro, quer viajar sozinha, quer ser independente. Tudo isso como se fosse uma mulher feita. Então, a única coisa que uma piriguete quer em troca é dar uma voltinha de carro e poder dizer para as amigas que tem um namorado que paga tudo para ela.

Ok, ok, há um outro lado. Por serem jovens demais, muitas piriguetes também são inocentes. Afinal, o homem que tem outra mulher mas sai com ninfetas está longe de ser vítima. Eles acabam se aproveitando da "ingenuidade" das meninas e as fazem ceder ao sexo em troca dessas pequenas comodidades. De qualquer forma, talvez não seja tão justo considerar pedofilia quando sabemos o quão assanhadas as piriguetes são. Elas costumam ser bem taradinhas.

Piriguetes odeiam meninos da idade dela. Os que gostam delas acabam sempre humilhados; não ganham a mínima atenção. O negócio é com homem mais velho. A menina se torna oficialmente piriguete quando transa com um cara mais maduro e comprometido. É o batismo da classe. Faça o teste, mocinha. Você é novinha? Ficou com vontade e deu para um cara mais velho? Ele tem outra mulher? Parabéns, você é uma piriguete!

Outra característica das piriguetes são as roupas. Algumas são discretas, mas a maioria se veste de forma inaquedada para a sua idade, tudo por causa daquela vontade de ser o que ainda não é: mulher. Blusinha decotada, maquiagem sobrecarregada, shortinho, salto alto, e por aí vai. O problema é que elas não ficam parecendo mulheres assim; ficam parecendo Barbies: com roupas de mulher, mas ainda bonecas.

Na maioria das vezes, os caras saem com piriguetes apenas por diversão. Mesmo assim, jamais se deve subestimar o poder de uma piriguete. Elas grudam e podem até acabar com um casamento. Eu já vi isso! O que não dá para entender é como que um cara já homem feito, independente, bem casado, troca a sua esposa por uma novinha imatura. Nada contra trocar de mulher; mas ora, que seja por uma outra mulher! Igualmente livre, madura e bem encaminhada na vida.

Meninas, não se tornem piriguetes! Em vez disso, vão estudar para conseguirem, por si mesmas, essas comodidades que vocês tanto buscam na hora errada. Será bem mais duradouro. Homens, se querem pular cerca, pulem direito! Evitem piriguetes. São menininhas bobas, grudentas e vocês ainda podem ser acusados de pedofilia.

Diga não às piriguetes!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Eterno mesmo só enquanto dure


Esses dias assisti ao filme "Entrevista com o vampiro", de 1994, em que o vampiro Louis, interpretado por Brad Pitt, revela a história de seus 200 anos de vida como monstro para um jornalista mortal. Assim como o longa "O homem bicentenário", esse filme despertou-me a seguinte reflexão: como deve ser viver para sempre?

Todo mundo já ouviu de alguém mais velho que se deve aproveitar ao máximo a vida, pois ela é muito curta. Talvez esse seja o conselho mais pregado e mais bem aceito de todos. Geralmente ouvimos isso daquela tia coroa e casada há anos, que não usufruiu muito de sua juventude; ou então daquele vovô, hoje adoecido e impotente, mas que nos seus saudosos anos de disposição abraçou o mundo.

Entretanto, no caso da imortalidade, esse conselho obviamente deixaria de fazer sentido. Imagine se você descobrisse que de hoje em diante, por algum motivo, você tenha se tornado imortal. O que você faria? Talvez você fosse achar maravilhoso. Ora, você estaria imune à morte, esta que é um mistério fatídico e sombrio, da qual todos experimentam e têm, pelo menos, um pouco de medo. Imagine viver uma vida infinita, sem o temor do envelhecimento. Imagine viver com a leveza de saber que você jamais irá morrer.

Você poderia deixar de fazer votos anuais e poderia fazer votos para um conjunto de muitos anos: "hum, o que vou fazer neste século?" ou "o que vou fazer neste milênio?". Tudo sem pressa. Você acompanharia a evolução da sociedade, veria talvez o homem povoando outros planetas e, quem sabe, teria contato com ET's, que até hoje não sabemos se existem.

Você poderia viver e fazer muito de tudo; o quanto quisesse de cada coisa. Poderia ser uma pessoa solteira por uns, sei lá, 400 anos, se aventurando amorosamente da forma que bem entender. Imagine quanta coisa poderia sem vivida; cada uma delas infinitamente. Sim, pois infinito dividido por 100 é infinito. Imagine ter, literalmente, uma infinidade de lembranças e de coisas vividas para contar; experimentar todas as sensações que um ser humano é capaz de sentir. Isso sem falar que tudo seria renovado sempre; você teria a oportunidade de recomeçar tudo quantas vezes você quisesse. Magnífico!


Mas não se esqueça que eu pedi para você imaginar que VOCÊ fosse imortal, não as outras pessoas. Seu grande amigo hoje, um dia iria partir. A pessoa que você mais ama no mundo, um dia deixaria você sozinho por aqui. Você, mais cedo ou mais tarde, se tornaria viúvo em todos os seus casamentos. Acabaria aquela ideia do "juntos para sempre". O "para sempre" seria apenas individual.

Você vivenciaria a morte de todas as pessoas que você aprendeu a amar enquanto elas viviam. Em compensação, para os mais vingativos, veria morrer também todos os inimigos. Mas tudo seria volátil demais. Se morresse o melhor amigo, aquele seu grande parceiro que você tanto estimava, anos mais tarde poderia aparecer outro. Mas esse outro também morreria. E depois o outro. E o outro. Infinitamente. E a cada morte, um grande sofrimento.

Você não poderia concluir a importância de uma pessoa ao longo da sua vida chamando-a, por exemplo, de "grande amor da minha vida". Como chamar de grande amor da sua vida alguém que vai morrer e te deixar livre para conhecer outras pessoas em uma vida sem fim? Seriam infinitos grandes amores e infinitos amigos especiais, um após o outro. Mas nenhum deles com a capacidade absoluta de te marcar como o melhor. Em determinado momento, sua vida não teria mais identidade. E, tendo visto e vivido de tudo inúmeras vezes, perderia a graça.

Sob essas condições, eu prefiro ser mortal. Tá certo que seria bom se a gente vivesse mais do que geralmente vivemos. Talvez viver por uns 200 anos. Mas mesmo assim, que fossem 200 anos para todo mundo. Acho que a graça da vida está justamente em não viver para sempre. E termos a consciência de que um dia iremos morrer pode ser parecer um tanto triste se você ficar pensando muito nisso, mas é o principal motivador para vivermos intensamente, conforme os conselhos do tal vovô brocha.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Sintomas de um homem desapegado


Há três anos atrás, eu escrevi o "Sintomas de um homem apaixonado", baseado nas minhas experiências de rapaz gamado. Hoje, eu tenho uma relação de vergonha e orgulho com esse texto. Vergonha porque hoje eu não o escreveria novamente daquela forma; achei que ficou meloso demais. Orgulho porque é o meu texto mais relevante (ou menos anônimo) na internet, estando reproduzido em alguns blogs por aí, mesmo que sem os devidos créditos a mim. Mas não me importo, pois sei que estou sujeito a isso.

Para vocês terem uma ideia, de todos os acessos diários que recebo aqui - que não são muitos, visto que estou longe de ser famoso na internet - bem mais da metade são para o link do "Sintomas". Creio que o motivo seja porque, sem querer, eu usei palavras-chaves fortes no título. Sabem como é, essa coisa de paixão mexe com todo mundo, e pelo menos uma vez na vida não sabemos lidar com isso. E a que muitos de nós recorremos para buscar auxílio? À internet. Então, aquela mulher que não sabe se um cara está afim dela ou o rapaz que quer saber se está apaixonado ou não, digita no Google por exemplo, a combinação "sintomas + homem + apaixonado", e lá aparece o RenanZices cheio de abobrinhas sobre o assunto.

Mas vamos ao novo texto, que é justamente o contrário do mencionado nos parágrafos anteriores. Infelizmente, tudo o que começa pode ter um fim; principalmente a paixão, que costuma ser tão efêmera. O texto que segue abaixo é baseado 1º) na minha experiência de ter tido uma mulher apaixonada por mim, mas que não era correspondida o suficiente e 2º) na observação do relacionamentos de amigos que, em determinado momento, já não estavam mais tanto "aí" para suas parceiras. Sei que a minha pouca idade talvez não me credite para escrever com sabedoria sobre isso, mas acho que pelo menos tenho bom senso.

Antes de tudo, uma consideração. A mulher, logo que percebe que não está mais afim do cara, costuma ser mais direta e termina tudo de forma mais abrupta. Já o desapego de um homem por uma mulher é como um câncer, que se instaura despercebido e vai, lenta e silenciosamente, eliminando todas as atitudes inerentes a um homem apaixonado. E o homem costuma ser apático nesse processo. Quando a mulher percebe que algo está diferente, é porque já está diferente há algum tempo. Mesmo assim, o homem costuma dizer que está tudo bem, que não é nada. E o processo continua, as coisas pioram. Chega um ponto em que a mulher, que é naturalmente mais incomodada e ansiosa com problemas na sua relação, decide discuti-la, na maioria das vezes através de uma briga feia. É a deixa para ele terminar, caso ela não o faça.

Tudo o que está escrito abaixo soa muito óbvio. E é mesmo. Mas é interessante notar que a pessoa que está dentro de um situação pessoal tem dificuldade para perceber o óbvio. Portanto, vamos aos sintomas.

1) Desejo de mudança. Se um homem apaixonado costuma ser extremista ao ponto de considerar esse sentimento a coisa mais importante do mundo para ele e focar grande parte do seu tempo na amada, o homem desapegado começa a dividir mais a sua vida. Dividir demais. Há o interesse em fazer novos amigos. Há o interesse em resgatar amizades antigas. Há o interesse em sair mais vezes com esses amigos. É normal alguém comprometido sair de vez em quando com os seus amigos, sem a companhia da mulher. Normal e corretíssimo. E é normal também que alguém faça novas amizades quando muda de trabalho, muda de endereço, etc. Mas, se o cara não passou por nenhuma dessas mudanças concretas e, de uma hora para outra, decide se dedicar mais do que se dedica a outros grupos de pessoas, e ainda por cima anseia em conhecer gente nova, cuidado!

2) Detalhes são pouco estimados. Todo casal tem uma música. O homem perdidamente apaixonado valoriza muito esse e outros detalhes. Mais até do que a mulher. Quando a tal música toca, eles dançam, se olham, riem, se beijam. Porém, quando um homem já não gosta mais tanto da moça, a música do casal deixa de ser estimada, mesmo que ainda possua certo valor para ele. Datas especiais não merecem mais comemorações especiais. A empolgação, que valoriza os pequenos detalhes do casal, acaba por parte do cara. Inclusive ele pode até passar a achar tudo muito chato. E se o valor do detalhe continua no coração dele, é somente devido ao passado vivido.

3) Ela não é mais o centro das atenções. Se o homem apaixonado dá toda a atenção à sua amada quando está em uma festa com ela, por exemplo, o desapegado não esquenta muito. Fica no meio de amigos, de parentes, e pode passar horas longe dela. Talvez justamente de propósito, para evitá-la um pouco e se distrair. Pode inclusive tratá-la com frieza perante outras pessoas. Outra coisa: ele já não telefona mais com a mesma frequência, já não a chama mais tanto para sair, já não fala mais com a mulher com o mesmo tom de voz entusiasmado de antes, etc. Chato, mas é verdade.

4) Ela ainda marca presença, mas não empolga. Esse tópico é para o caso em que a relação já terminou, e há paz entre os dois. Muitas mulheres baseiam suas esperanças de terem seus parceiros de volta no fatos de estes ainda serem especialmente carinhosos com ela. É o seguinte: ex é para sempre, mesmo que seja apenas ex-namorada. Nenhum homem olha para uma ex com os mesmos olhos que olha para qualquer outra mulher. A ex carrega o passado do cara com ela e trás a lembrança de momentos felizes. E há valor nisso. Portanto, é natural que ele te olhe e te trate com um pouco mais de carinho do que as demais. Mas não confunda, pois isso não significa que ele queira voltar. Você marca forte presença perante o cara, mas talvez não o empolgue mais.

5) Negações. Homem desapegado nega demais, reclama demais, debate demais. Homem apaixonado é bonzinho, sabe ser flexível, quer ver sua amada feliz. Pense nisso.

6) Sensação esquisita. Nos momentos íntimos, o homem em processo de desapego começa a achar algumas coisas esquisitas e a não se sentir muito bem. Não há mais a grandiosidade daqueles momentos. Ele passa a achar que tudo aquilo já não está tão bom, que não combina tanto, que tem alguma coisa esquisita ali. E então ele começa a perceber que um dia haverá um fim. E começa a querer isso, silenciosamente.

7) Defeitos vem à tona. Se o homem apaixonado acha a sua amada o ser mais perfeito que existe, o desapegado começa a ver os reais defeitos. É normal e recomendado que as pessoas percebam os defeitos das outras e aprendam a lidar com eles. Mas é aí que entra um detalhe. O homem que ama está disposto a lidar com os defeitos da mulher; o desapegado não. Ele se incomoda com isso, reclama, e tira a mulher do pedestal no qual ele a tinha posto anteriormente. Tira, e aos poucos se afasta.

8) Quanto ao ciúme. Em término recente de relação, é normal que o cara sinta ciúme da sua ex com outro. Mas isso, novamente, não significa que ele queira voltar. Homem é possessivo por natureza, apenas isso. Entretanto, como eu disse, isso é normal apenas quando a relação terminou há pouco tempo. Se o cara continua sentindo ciúme da sua ex com outro, mesmo depois de passado um bom tempo, talvez ele esteja menos desapegado do que imagina.

9) Com outra funciona! Talvez o sintoma mais explícito de um homem desapegado é quando ele consegue outra mulher e com ela acha tudo maravilhoso, esquecendo-se totalmente da outra. A nova consegue substituir a anterior inteiramente. Já era!

10) Sensação de finitude. Como foi escrito no sintoma 6, o cara desapegado já não vê mais (e até mesmo repudia) um futuro para a relação. Ele passa a achar que pode mais, que poderia estar melhor se estivesse com outra pessoa, ou mesmo sozinho, viajando, morando em outro lugar. Começa a ter aversão quanto à ideia de ter filhos, de casar, de morar junto (caso antes tivesse esses sonhos). Passa a falar coisas esquisitas, que remetem à finitude da relação; coisas do tipo "quando não estivermos mais juntos". Homem apaixonado é diferente; ele não quer que aquilo termine.


Consideração final: Nós, homens, às vezes somos mais complicados que as mulheres. Muitas vezes achamos que queremos, mas não queremos, apenas queremos querer. O que no fundo queremos, não queremos. Ou, o que no fundo não queremos, queremos. Entende? Pois é. E talvez essa confusão toda anule a validade de todos os sintomas acima. Somos menos práticos do que parecemos. Mas uma coisa é certa: homem que, de alguma forma ainda gosta, sempre procura novamente.

Obs: "desapegado" foi o melhor adjetivo que eu encontrei para o contrário de apaixonado, apesar de oficialmente ser o contrário de "apegado". Se alguém tiver uma palavra melhor, me avise, que eu mudo no texto.


terça-feira, 10 de maio de 2011

Sei lá, gosto de você!


Sabe quando você se sente atraído por alguém e não sabe bem explicar o porquê?

Quando a pessoa é muito bonita, a explicação é direta. Quando a pessoa é muito inteligente, a explicação também é direta. Generalizando, quando a pessoa é forte em uma qualidade muito valorizada entre nós, a explicação para a atração que sentimos está justamente nessa qualidade. Mas e quando a pessoa é, digamos, mediana em tudo: não é tão bonita, não é tão inteligente, não é tão simpática, etc? Por que ocorre a atração?

Bom, antes de mais nada, quero aqui ampliar o conceito de atração. Quando falamos em atração, pensamos logo na atração "para namoro". Mas neste texto não. Portanto, não estou somente me referindo à atração romântica, sexual; mas sim também àquela atração do tipo "poxa, quero ser amigo(a) do(a) fulano(a)", ou seja, a atração "para amizade".

A atração que sentimos pelas pessoas pode definir nossas amizades e amores.

Eu defino a atração geral da seguinte forma: vontade de interagir com outra pessoa devido ao fato de esta possuir algo em seu ser que você preze. Acho que é uma descrição adequada. Mas e quando esse "algo" que você preza não é tão explícito? Eu não sei se estou conseguindo me fazer entender, mas o fato é que simplesmente existem pessoas que a gente olha e pensa "quero me aproximar dele(a)".

Isso é muito curioso. Talvez seja aquela velha história de "santo que bate". Aliás, quero deixar aqui um parênteses. As pessoas que não gostam de outras sem um grande motivo para isso ficam culpando seus respectivos santos. Até crente culpa o santo nessas horas. Para aqueles que acreditam, o santo está lá no céu rogando por você e não quer birra com ninguém. Eu, mesmo sendo católico, não sou muito adepto aos santos. Mas enfim, vamos parar com isso. Deixem os santos quietos. Se você é encrenqueiro, a culpa é toda sua.

Enfim. A atração pode ocorrer em qualquer lugar que você frequente. Na faculdade, no trabalho, na academia, na fila do pão. Eu gostaria de entender o que determina a atração que sentimos por algumas pessoas, e não por outras, no caso de nunca termos visto essas pessoas antes. Como já disse, se a pessoa é bonita de rosto ou corpo, então provavelmente é atração física "para namoro". Mas e se não for? Não sabemos se ela é legal, se é educada, se é culta. Por que nos sentimos atraídos?

Talvez a explicação seja simples, porém abstrata. Existe algo que eu considero muito maior do que uma simples qualidade. Considero um dom. Estou falando do carisma. Se quem tem carisma não tem tudo, com certeza tem quase tudo. Carisma é aquela coisa que você tem dentro de si e que de alguma forma se exterioriza e faz com que as pessoas se sintam atraídas por você.

O carisma pode estar em um gesto, em um sorriso, na forma de falar, na gesticulação, na expressão facial, no caminhar, etc. É abstrato. A pessoa que é carismática é como se possuísse uma aura diferente das demais, um halo especial. É uma coisa que transcende quaisquer atributos físicos e até mesmo mentais. Não é genético; eu diria divino.

A aura de uma pessoa. Você acredita nisso?

Uma pessoa bonita, inteligente e honesta pode carecer de carisma; algo que uma dona-de-casa idosa e sem dente ou um menino de rua que sobrevive de pequenos furtos podem ter de sobra. E nós percebemos isso o tempo todo. Aposto que você já se deparou várias vezes com aquelas pessoas consideradas perfeitas nas qualidades mais valorizadas, mas as achou um tanto sem-graças, como se faltasse nelas alguma coisa. É o carisma.

Mas uma coisa que eu também me questiono é o fato de que o carisma parece não ser unânime. Tenho a impressão às vezes de que as pessoas que me atraem pelo carisma não são as mesmas que atraem outras pessoas próximas. Seria o carisma algo um tanto individual, uma espécie de "compatibilidade de espírito"? Vamos supor que a minha aura seja azul. Então eu me atraio por todas as pessoas que possuem auras azuis. Amarelas não; não gosto. Seria isso?

Sinceramente, eu não sei. Mas o mais interessante é notar que isso não está no DNA de ninguém. Existem de fato mistérios entre o céu e a terra que talvez a gente nunca consiga desvendar. Bem que os santos lá em cima poderiam nos ajudar. Mas sabe como é né... talvez eles estejam ocupados demais brigando uns com os outros e causando confusões por aqui, entre as pessoas. Francamente.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Já se foi 1/3...


Ontem no Twitter eu iniciei uma discussão após constatar uma coisa que me deixou um pouco preocupado: eu já vivi aproximadamente 1/3 da minha vida.

Tenho 24 anos. Ao multiplicar minha idade por 3, obtenho 72. Ao multiplicar por 4, obtenho 96, que é uma idade avançada demais para a nossa expectativa de vida média atual, mesmo que ela esteja aumentando. Levando também em consideração meu histórico familiar - em que meu avô materno morreu antes dos 60, meu avô paterno sofreu de câncer de próstata, AVCs e morreu antes dos 80 - acho que não me cabe ser tão otimista e achar que chegarei aos 96 anos. Portanto, acho que 1/3 é uma boa (e triste) aproximação, melhor do que 1/4.

Bom, o que fiz nesse 1/3 de vida? Sinceramente, acho que muito pouco. Fui basicamente um estudante, me preparando para a vida; para mais (apenas?) 2/3 de vida. O chato é que dizem que daqui para frente será só ladeira abaixo; que os melhores anos são estes que vivo agora. Ora, então os melhores anos da minha vida são os de preparação para os anos de ladeira abaixo? Que coisa mais esquisita!

Nós, jovens, passamos parte de nossa juventude preocupados com a nossa preparação para os anos de adultos plenos. E aí, quando estamos finalmente prontos, quando estamos mais maduros, podemos começar a... descer a ladeira?! Não lhe parece injusto?

Talvez fosse mais interessante uma vida como a de Benjamin Button, o cara que nasce velho e morre criança. Imagine só trocar a infância pela velhice. Ok, a vida não vai começar tão legal com dores nas articulações, mas teríamos muito mais disposição e beleza aos 60, 70 anos. Fora que seria um processo de somente melhoria na qualidade de vida: maior disposição e beleza aliadas ao aumento de maturidade. Parece tão melhor.

Mas as coisas não são assim. Já dizia Lavoisier, o famoso químico francês, que na vida nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Sei que ele disse isso em relação a todo tipo de matéria, mas acho que a frase também se aplica a essa filosofia de "coisa ruim por um lado, coisa boa pelo outro". Provavelmente, a juventude é justamente a época da elevada capacidade física e mental para que possamos trabalhar duro e, assim, possamos nos dar ao luxo de nos poupar um pouco lá na frente, quando estivermos mais debilitados.

Quem sou eu para querer redefinir a dinâmica das coisas naturais. A verdade é que tudo tem um preço. Na vida, nós ganhamos independência e maturidade em troca de um rosto mais enrugado. Paciência.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A estagiária


Marcela tinha apenas 22 anos, mas era muito mais mulher do que qualquer outra com o dobro de sua idade. Não que fosse maliciosa; na realidade, Marcela carregava consigo a doçura de uma menina, mas era decidida como uma senhora. Traçava planos de curto, médio ou longo prazo e os cumpria com a mesma facilidade com que se banhava. Além disso, era linda. Pele branca, lábios carnudos e vermelhos, cabelos longos e levemente ondulados, olhar vivo, aberto e cobiçoso.


Certo dia, Marcela viu na internet o anúncio de uma vaga de estágio na empresa que tanto desejava trabalhar, e melhor ainda, na sua área. Não pensou duas vezes antes de comunicar o interesse pela vaga e marcar o dia da entrevista com um dos gestores.

- Sente-se, Marcela, por favor.
- Obrigada.
- Pois bem... você está cursando o sétimo período de economia, certo?
- Sim, Sr. Rodrigo.
- Ora, deixa disso. Senhor está no céu. Além de eu achar um tratamento muito antiquado, não sou muito mais velho do que você. Me chame apenas de Rodrigo - sorriu ele.
- Ok, Rodrigo - sorriu ela de volta.

Rodrigo tinha 29 anos. Bonito e inteligente, o moço nunca tivera problemas em sua vida acadêmica e profissional. Quando criança, carregava consigo o título de melhor aluno da classe. Formou-se economista quando já estava empregado. Meses depois, tornou-se gerente. Anos mais tarde, faturou o cargo de diretor. Uma ascensão meteórica.

Entretanto, da mesma forma que os índices de sua vida profissional eram extremamente positivos, os da vida amorosa nunca estiveram tão mal. Após alguns namoros frustrados, Rodrigo, aos 18 anos, conheceu aquela que ele chamava de "mulher da minha vida". Aos 22, já muito seguro de si e do relacionamento, a pediu em casamento. Aos 25, flagrou sua noiva aos beijos com aquele que seria o seu padrinho. Uma tragédia clichê, porém que o abalou profundamente. Nos quatro anos seguintes, Rodrigo nunca mais se envolveu com ninguém.

- Seu currículo é muito bom, Marcela!
- Obrigada.
- How good is your English?
- I speak fluently.
- Very good! Talvez aqui você precise aprender outros idiomas. Possui facilidade com línguas?
- Sim, e adoraria ter a oportunidade de conhecer e lidar com outras línguas.
- Legal... - disse, olhando nos olhos de Marcela.
- ...
- Me fale um pouco de suas experiências anteriores.
- Bem, eu estagiei em uma empresa de consultoria. Eu era responsável por fazer o orçamento dos projetos, dividir tudo em planilhas e atualizar diariamente. Ao final de cada semana, eu emitia um relatório contendo os dados financeiros atualizados de todos os projetos e comentários quanto à viab
ilidade de todos eles.
- Interessante, Marcela. E por que saiu de lá? Terminou o contrato?
- Na verdade, não. É como num relacionamento...
- Num relacionamento? - Rodrigo franziu a testa, demonstrando interesse.
- É... No início é tudo muito bom, nos acrescenta, ficamos felizes. Pode ser que seja eterno, mas nem sempre é duradouro. Às vezes chega uma hora em que tudo de bom já foi extraído dali. Não há mais desafios, não há mais surpresas, torna-se rotineiro e, portanto, cansativo. E então, o melhor a se fazer é partir para algo que nos motive novamente, que nos acrescente por meio de novas experiências...

Rodrigo demorou alguns segundos com o olhar fixo em Marcela e a boca entreaberta antes de prosseguir.

- Entendo...
- Pois é isso. O estágio foi muito legal, cresci muito lá, atingi meus objetivos, mas não via a oportunidade de crescer mais, mesmo que eu fosse efetivada. Meu trabalho pouco mudaria - sorriu Marcela docemente, olhando nos olhos de Rodrigo.
- Ok, er...bom, retomando...
- ...
- Por que deseja trabalhar aqui? - Perguntou Rodrigo, recomposto.
- Bom, o motivo é muito simples. Porque eu sempre quis. Este lugar sempre foi o meu sonho. Sei muita coisa sobre essa empresa. Já pesquisei sobre o setor, e gosto da forma como os trabalhos são desenvolvidos. Tenho certeza de que aqui construirei uma carreira brilhante. Sinceramente, Rodrigo, eu não me vejo fazendo outra coisa a não ser trabalhar neste lugar, aqui... com você.
- Certo... - Rodrigo gargalhou discretamente e estampou um sorriso mais íntimo no rosto - É engraçado como às vezes a gente tem certeza de que nossa vida está em algo... e a projetamos ali...
- Concordo.
- Como você diz, é como num relacionamento...
- Sem dúvida! - riu Marcela - apesar do risco de dar errado, gosto de apostar minhas fichas naquilo que me seduz. O pior arrependimento é aquele de não ter feito...
- Acho que você está certa - disse Rodrigo, demonstrando cada vez mais encanto.
- ...

Marcela, ao perceber que estava sendo admirada, corou-se de vergonha e olhou para a mesa. Rodrigo retomou...

- Bem, Marcela, me diga, como costuma interagir com os colegas de trabalho?
- Procuro a harmonia, sempre. Se pedem minha ajuda, a dou com todo o meu grado. Se tenho dúvidas, pergunto. Se vejo que um problema está se instaurando entre os colegas e se eu achar que posso contribuir para minimizá-lo, interfiro. Caso contrário, fico na minha. Jamais serei a centelha de alguma tensão com alguém. Nunca partirá de mim. E se eu estiver envolvida, farei o possível para dissipá-la. Harmonia, sempre.
- Acho que cabe novamente a analogia... - sorriu Rodrigo.
- Analogia? Ah.... relacionamento?
- Sim! - gargalhou o rapaz, mais à vontade.
- Sim, claro que cabe! - riu Marcela um pouco mais alto, também à vontade - se a gente não buscar a harmonia com a pessoa amada, as coisas não vão pra frente. Apesar de básico, isso é uma coisa que as pessoas esquecem. Às vezes é necessário ceder, como também é necessário ter pulso firme. Muitos relacionamentos acabam porque a pessoa é submissa demais, ou porque é intransigente demais. Deve-se buscar o meio-termo, e só recorrer aos extremos quando realmente necessário.
- Muito bom, Marcela! - Exclamou Rodrigo, rendido - só mais uma pergunta... o que espera ao trabalhar aqui?
- Ser feliz acima de tudo. Estar satisfeita. Sei que terei que enfrentar problemas. Sei que nem todos os dias serão bons. Mas eu quero, ao deitar na cama à noite depois de um dia ruim, ter a percepção de que vale a pena continuar, e me motivar a partir disso. Quero, ao longo de uma semana de trabalho, perceber que ela foi proveitosa, que o saldo foi positivo. Quero estar feliz, mesmo cansada.
- Perfeito, Marcela! Acho que é só...

Levantaram-se. Rodrigo caminhou até Marcela e apertou-lhe a mão.

- Acho que será um prazer ter você aqui conosco - disse ele, olhando para Marcela com doçura.
- Aposto que o prazer será todo meu... - retribuiu.
- Você começa na semana que vem.
- Estarei aqui.

A jovem mulher começou a se sair muito bem em seu estágio. A cada dia, superava as expectativas de seu patrão. Este, por sua vez, cada vez mais ficava encantado com o desempenho da moça e derretia-se em elogios.

Marcela foi efetivada meses depois, no altar na Igreja de Santo Antônio, ali na região. Assinou o contrato na frente de várias testemunhas, entre familiares e amigos. Estava mais linda do que nunca. E feliz.
Depois disso, jamais ficou desempregada. Seu salário era muito bom, fora os benefícios, como vale transporte, vale refeição, assistência médica, dentária, psicológica e muito carinho do chefe, que a amava. Compraram uma casa grande, tiveram filhos. Os anos se passaram e a dedicação e o amor de Marcela pela profissão só cresciam, e cada vez mais sua remuneração era maior, através do imenso amor e respeito que Rodrigo proporcionava a ela.

Marcela conquistou o que tanto desejava. Ao deitar-se na cama, à noite, sorria ao perceber como era feliz e que tudo tinha valido e ainda valia a pena. E o melhor de tudo: Rodrigo não roncava.