segunda-feira, 2 de maio de 2011

A estagiária


Marcela tinha apenas 22 anos, mas era muito mais mulher do que qualquer outra com o dobro de sua idade. Não que fosse maliciosa; na realidade, Marcela carregava consigo a doçura de uma menina, mas era decidida como uma senhora. Traçava planos de curto, médio ou longo prazo e os cumpria com a mesma facilidade com que se banhava. Além disso, era linda. Pele branca, lábios carnudos e vermelhos, cabelos longos e levemente ondulados, olhar vivo, aberto e cobiçoso.


Certo dia, Marcela viu na internet o anúncio de uma vaga de estágio na empresa que tanto desejava trabalhar, e melhor ainda, na sua área. Não pensou duas vezes antes de comunicar o interesse pela vaga e marcar o dia da entrevista com um dos gestores.

- Sente-se, Marcela, por favor.
- Obrigada.
- Pois bem... você está cursando o sétimo período de economia, certo?
- Sim, Sr. Rodrigo.
- Ora, deixa disso. Senhor está no céu. Além de eu achar um tratamento muito antiquado, não sou muito mais velho do que você. Me chame apenas de Rodrigo - sorriu ele.
- Ok, Rodrigo - sorriu ela de volta.

Rodrigo tinha 29 anos. Bonito e inteligente, o moço nunca tivera problemas em sua vida acadêmica e profissional. Quando criança, carregava consigo o título de melhor aluno da classe. Formou-se economista quando já estava empregado. Meses depois, tornou-se gerente. Anos mais tarde, faturou o cargo de diretor. Uma ascensão meteórica.

Entretanto, da mesma forma que os índices de sua vida profissional eram extremamente positivos, os da vida amorosa nunca estiveram tão mal. Após alguns namoros frustrados, Rodrigo, aos 18 anos, conheceu aquela que ele chamava de "mulher da minha vida". Aos 22, já muito seguro de si e do relacionamento, a pediu em casamento. Aos 25, flagrou sua noiva aos beijos com aquele que seria o seu padrinho. Uma tragédia clichê, porém que o abalou profundamente. Nos quatro anos seguintes, Rodrigo nunca mais se envolveu com ninguém.

- Seu currículo é muito bom, Marcela!
- Obrigada.
- How good is your English?
- I speak fluently.
- Very good! Talvez aqui você precise aprender outros idiomas. Possui facilidade com línguas?
- Sim, e adoraria ter a oportunidade de conhecer e lidar com outras línguas.
- Legal... - disse, olhando nos olhos de Marcela.
- ...
- Me fale um pouco de suas experiências anteriores.
- Bem, eu estagiei em uma empresa de consultoria. Eu era responsável por fazer o orçamento dos projetos, dividir tudo em planilhas e atualizar diariamente. Ao final de cada semana, eu emitia um relatório contendo os dados financeiros atualizados de todos os projetos e comentários quanto à viab
ilidade de todos eles.
- Interessante, Marcela. E por que saiu de lá? Terminou o contrato?
- Na verdade, não. É como num relacionamento...
- Num relacionamento? - Rodrigo franziu a testa, demonstrando interesse.
- É... No início é tudo muito bom, nos acrescenta, ficamos felizes. Pode ser que seja eterno, mas nem sempre é duradouro. Às vezes chega uma hora em que tudo de bom já foi extraído dali. Não há mais desafios, não há mais surpresas, torna-se rotineiro e, portanto, cansativo. E então, o melhor a se fazer é partir para algo que nos motive novamente, que nos acrescente por meio de novas experiências...

Rodrigo demorou alguns segundos com o olhar fixo em Marcela e a boca entreaberta antes de prosseguir.

- Entendo...
- Pois é isso. O estágio foi muito legal, cresci muito lá, atingi meus objetivos, mas não via a oportunidade de crescer mais, mesmo que eu fosse efetivada. Meu trabalho pouco mudaria - sorriu Marcela docemente, olhando nos olhos de Rodrigo.
- Ok, er...bom, retomando...
- ...
- Por que deseja trabalhar aqui? - Perguntou Rodrigo, recomposto.
- Bom, o motivo é muito simples. Porque eu sempre quis. Este lugar sempre foi o meu sonho. Sei muita coisa sobre essa empresa. Já pesquisei sobre o setor, e gosto da forma como os trabalhos são desenvolvidos. Tenho certeza de que aqui construirei uma carreira brilhante. Sinceramente, Rodrigo, eu não me vejo fazendo outra coisa a não ser trabalhar neste lugar, aqui... com você.
- Certo... - Rodrigo gargalhou discretamente e estampou um sorriso mais íntimo no rosto - É engraçado como às vezes a gente tem certeza de que nossa vida está em algo... e a projetamos ali...
- Concordo.
- Como você diz, é como num relacionamento...
- Sem dúvida! - riu Marcela - apesar do risco de dar errado, gosto de apostar minhas fichas naquilo que me seduz. O pior arrependimento é aquele de não ter feito...
- Acho que você está certa - disse Rodrigo, demonstrando cada vez mais encanto.
- ...

Marcela, ao perceber que estava sendo admirada, corou-se de vergonha e olhou para a mesa. Rodrigo retomou...

- Bem, Marcela, me diga, como costuma interagir com os colegas de trabalho?
- Procuro a harmonia, sempre. Se pedem minha ajuda, a dou com todo o meu grado. Se tenho dúvidas, pergunto. Se vejo que um problema está se instaurando entre os colegas e se eu achar que posso contribuir para minimizá-lo, interfiro. Caso contrário, fico na minha. Jamais serei a centelha de alguma tensão com alguém. Nunca partirá de mim. E se eu estiver envolvida, farei o possível para dissipá-la. Harmonia, sempre.
- Acho que cabe novamente a analogia... - sorriu Rodrigo.
- Analogia? Ah.... relacionamento?
- Sim! - gargalhou o rapaz, mais à vontade.
- Sim, claro que cabe! - riu Marcela um pouco mais alto, também à vontade - se a gente não buscar a harmonia com a pessoa amada, as coisas não vão pra frente. Apesar de básico, isso é uma coisa que as pessoas esquecem. Às vezes é necessário ceder, como também é necessário ter pulso firme. Muitos relacionamentos acabam porque a pessoa é submissa demais, ou porque é intransigente demais. Deve-se buscar o meio-termo, e só recorrer aos extremos quando realmente necessário.
- Muito bom, Marcela! - Exclamou Rodrigo, rendido - só mais uma pergunta... o que espera ao trabalhar aqui?
- Ser feliz acima de tudo. Estar satisfeita. Sei que terei que enfrentar problemas. Sei que nem todos os dias serão bons. Mas eu quero, ao deitar na cama à noite depois de um dia ruim, ter a percepção de que vale a pena continuar, e me motivar a partir disso. Quero, ao longo de uma semana de trabalho, perceber que ela foi proveitosa, que o saldo foi positivo. Quero estar feliz, mesmo cansada.
- Perfeito, Marcela! Acho que é só...

Levantaram-se. Rodrigo caminhou até Marcela e apertou-lhe a mão.

- Acho que será um prazer ter você aqui conosco - disse ele, olhando para Marcela com doçura.
- Aposto que o prazer será todo meu... - retribuiu.
- Você começa na semana que vem.
- Estarei aqui.

A jovem mulher começou a se sair muito bem em seu estágio. A cada dia, superava as expectativas de seu patrão. Este, por sua vez, cada vez mais ficava encantado com o desempenho da moça e derretia-se em elogios.

Marcela foi efetivada meses depois, no altar na Igreja de Santo Antônio, ali na região. Assinou o contrato na frente de várias testemunhas, entre familiares e amigos. Estava mais linda do que nunca. E feliz.
Depois disso, jamais ficou desempregada. Seu salário era muito bom, fora os benefícios, como vale transporte, vale refeição, assistência médica, dentária, psicológica e muito carinho do chefe, que a amava. Compraram uma casa grande, tiveram filhos. Os anos se passaram e a dedicação e o amor de Marcela pela profissão só cresciam, e cada vez mais sua remuneração era maior, através do imenso amor e respeito que Rodrigo proporcionava a ela.

Marcela conquistou o que tanto desejava. Ao deitar-se na cama, à noite, sorria ao perceber como era feliz e que tudo tinha valido e ainda valia a pena. E o melhor de tudo: Rodrigo não roncava.

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