terça-feira, 17 de maio de 2011

Eterno mesmo só enquanto dure


Esses dias assisti ao filme "Entrevista com o vampiro", de 1994, em que o vampiro Louis, interpretado por Brad Pitt, revela a história de seus 200 anos de vida como monstro para um jornalista mortal. Assim como o longa "O homem bicentenário", esse filme despertou-me a seguinte reflexão: como deve ser viver para sempre?

Todo mundo já ouviu de alguém mais velho que se deve aproveitar ao máximo a vida, pois ela é muito curta. Talvez esse seja o conselho mais pregado e mais bem aceito de todos. Geralmente ouvimos isso daquela tia coroa e casada há anos, que não usufruiu muito de sua juventude; ou então daquele vovô, hoje adoecido e impotente, mas que nos seus saudosos anos de disposição abraçou o mundo.

Entretanto, no caso da imortalidade, esse conselho obviamente deixaria de fazer sentido. Imagine se você descobrisse que de hoje em diante, por algum motivo, você tenha se tornado imortal. O que você faria? Talvez você fosse achar maravilhoso. Ora, você estaria imune à morte, esta que é um mistério fatídico e sombrio, da qual todos experimentam e têm, pelo menos, um pouco de medo. Imagine viver uma vida infinita, sem o temor do envelhecimento. Imagine viver com a leveza de saber que você jamais irá morrer.

Você poderia deixar de fazer votos anuais e poderia fazer votos para um conjunto de muitos anos: "hum, o que vou fazer neste século?" ou "o que vou fazer neste milênio?". Tudo sem pressa. Você acompanharia a evolução da sociedade, veria talvez o homem povoando outros planetas e, quem sabe, teria contato com ET's, que até hoje não sabemos se existem.

Você poderia viver e fazer muito de tudo; o quanto quisesse de cada coisa. Poderia ser uma pessoa solteira por uns, sei lá, 400 anos, se aventurando amorosamente da forma que bem entender. Imagine quanta coisa poderia sem vivida; cada uma delas infinitamente. Sim, pois infinito dividido por 100 é infinito. Imagine ter, literalmente, uma infinidade de lembranças e de coisas vividas para contar; experimentar todas as sensações que um ser humano é capaz de sentir. Isso sem falar que tudo seria renovado sempre; você teria a oportunidade de recomeçar tudo quantas vezes você quisesse. Magnífico!


Mas não se esqueça que eu pedi para você imaginar que VOCÊ fosse imortal, não as outras pessoas. Seu grande amigo hoje, um dia iria partir. A pessoa que você mais ama no mundo, um dia deixaria você sozinho por aqui. Você, mais cedo ou mais tarde, se tornaria viúvo em todos os seus casamentos. Acabaria aquela ideia do "juntos para sempre". O "para sempre" seria apenas individual.

Você vivenciaria a morte de todas as pessoas que você aprendeu a amar enquanto elas viviam. Em compensação, para os mais vingativos, veria morrer também todos os inimigos. Mas tudo seria volátil demais. Se morresse o melhor amigo, aquele seu grande parceiro que você tanto estimava, anos mais tarde poderia aparecer outro. Mas esse outro também morreria. E depois o outro. E o outro. Infinitamente. E a cada morte, um grande sofrimento.

Você não poderia concluir a importância de uma pessoa ao longo da sua vida chamando-a, por exemplo, de "grande amor da minha vida". Como chamar de grande amor da sua vida alguém que vai morrer e te deixar livre para conhecer outras pessoas em uma vida sem fim? Seriam infinitos grandes amores e infinitos amigos especiais, um após o outro. Mas nenhum deles com a capacidade absoluta de te marcar como o melhor. Em determinado momento, sua vida não teria mais identidade. E, tendo visto e vivido de tudo inúmeras vezes, perderia a graça.

Sob essas condições, eu prefiro ser mortal. Tá certo que seria bom se a gente vivesse mais do que geralmente vivemos. Talvez viver por uns 200 anos. Mas mesmo assim, que fossem 200 anos para todo mundo. Acho que a graça da vida está justamente em não viver para sempre. E termos a consciência de que um dia iremos morrer pode ser parecer um tanto triste se você ficar pensando muito nisso, mas é o principal motivador para vivermos intensamente, conforme os conselhos do tal vovô brocha.

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