sábado, 17 de setembro de 2011

Chatinho

Eu fui uma criança insuportável. Bom, talvez eu esteja exagerando, afinal meus pais me suportaram. Mas eu fui uma criança bem chatinha. Não era encrenqueiro com as outras crianças, não me metia em situações de perigo, ficava sempre perto dos meus pais. Nem por isso eu era adorável. Minha timidez não fazia de mim uma gracinha, mas sim um mala-sem-alça.

Eu era medroso. Tinha medo das coisas mais triviais possíveis. Uma delas era vestir a camisa. Quando comecei a ir para o colégio, minha mãe me vestia e eu ficava apavorado quando a camisa ficava presa no meu rosto, antes de descer pelos braços. Tinha medo de ser sufocado. E chorava. Fazia a maior cerimônia para ser vestido. Um belo dia, meu pai me deu uma surra por causa disso; surra essa que eu nem lembro mais como foi, mas minha mãe me contou tempos depois que ele ficou com remorso. Meus pais nunca foram de me bater. Não cresci debaixo de porrada. Talvez até merecesse um pouco mais para deixar de ser chato.

E por falar em colégio, esse também foi um problema no início. Ficar afastado da minha mãe era uma hipótese que eu não cogitava. Meu primeiro dia na escola envolveu um choro tão intenso que eu precisei ser arrastado pela professora até a sala de aula. Lembro da expressão minha mãe, morrendo de pena, não querendo me deixar ali. Mas a professora, experiente, insistiu que ela fosse embora, que ficaria tudo bem. Após uma semana de choro, ficou realmente tudo bem. E bem até demais. Passei a adorar o colégio.

Eu não gostava de ficar mais do que alguns metros longe da minha mãe. Isso principalmente na primeira infância (até uns seis anos de idade). Nas festinhas infantis, eu não brincava direito com as outras crianças. Elas iam para longe (da minha mãe) e eu não curtia. Meus pais me incentivavam: “Vai lá brincar, Renan”. Mas eu não queria nem saber. Colo? Só o da minha mãe. Nem meu pai tinha vez, coitado. Muito menos meus tios. Era choro na certa se algum deles tentasse me pegar no colo. Um desespero.

Com o passar de alguns anos fui me permitindo ficar mais longe da minha mãe por mais tempo. Acho que escola tem um papel fundamental aí para qualquer criança. Meu problema então passou a ser não mais ficar longe dela, mas do lar de maneira geral. Por volta dos meus doze anos, eu gostava de dormir na casa dos meus primos nas férias, mas ainda assim não gostava de passar muito tempo longe da minha casa. Três dias era o meu limite. Mais que isso, ficava angustiado e queria voltar. Meus primos curtiam as férias e eu ficava triste. Nunca entendi bem por que eu sentia isso.

Infelizmente minha infância e adolescência terminaram, mas felizmente essas coisas foram embora junto. Hoje em dia sou um jovem bem mais simpático e tenho certeza que agrado a maioria das pessoas. Pelo menos minha família e amigos. Se sou chato, talvez seja em momentos pontuais, como qualquer pessoa é. Ninguém é cool o tempo todo.

Ainda possuo minhas limitações, por exemplo: não sou o cara mais adequado para um amigo levar em uma balada para beber e pegar um monte de mulher. Nada contra, tem vezes que eu até gostaria de ser um pouco assim, mas não é da minha natureza. As pessoas com quem tenho mais afinidade são calmas e, principalmente, ajuizadas. Não falo de pessoas extremamente sérias e metódicas, mas sim de pessoas que sabem ser descontraídas fora do politicamente correto sem estarem a quilômetros de distância dele.

Mas, se ainda assim alguém me acha chatinho o tempo todo, não é mais um defeito meu. Já é uma questão de incompatibilidade. Provavelmente o jeito de ser dessa pessoa também não me agrada.