segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Centenários


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Neste fim de semana fui ao aniversário de 100 anos de uma tia em Leopoldina, Minas Gerais. Tia Baldoína nasceu em 1912 (mesmo ano em que o Titanic afundou), viu o Brasil se encher de imigrantes, a república ser consolidada como forma de governo, o longo período de Getúlio Vargas no poder, a realidade da ditadura militar, a capital do Brasil se transferir do Rio de Janeiro para Brasília, a televisão ser criada e virar mania mundial, entre tantas outras transformações.

Eu não faço ideia do que seja viver por 100 anos. Eu, com meus 25, já acho que possuo várias lembranças da vida. Sinto-me velho por viver hoje de forma diferente como eu vivia há 15 anos atrás, em que os videogames funcionavam com fios e cartuchos, não havia internet e o Kinder Ovo custava apenas 1 real. Eu também brincava de pique na rua. Hoje em dia já não vejo as crianças brincarem disso. Aliás, mal vejo crianças brincando na rua. Muitas coisas já mudaram na minha percepção. Imagina para a tia Baldoína…

Quando meu pai nasceu, tia Baldoína já era uma cinquentona. Os jovens da minha idade consideram que uma pessoa de 50 anos já está perto da velhice. E não deixa de ser verdade. Meu pai cresceu, viveu toda uma vida, já está com 50 anos e cabelos quase todos brancos, e a tia Baldoína continua aí. É algo que eu, sinceramente, não consigo conceber muito bem.

O que deve sentir uma pessoa de 100 anos de idade? Dores. Ok. Mas e além disso? O que passa pela cabeça de uma pessoa tão idosa assim? Alzheimer. Mas tia Baldoína não tem isso, graças a Deus. Considerando alguém saudável que nem ela, que tipo de reflexão e balanço da vida os centenários fazem? Talvez os tantos anos nas costas fazem com que eles nem consigam refletir tanto sobre essa e outras coisas.

O cérebro não é capaz de somente acumular informações; memórias também são perdidas ao longo da vida. Creio que os centenários têm em suas mentes um resumão de suas vidas, contendo não exatamente todos os fatos memoráveis, mas os mais importantes e definitivos. No fim das contas, em termos de quantidade, eles devem ter tantas lembranças quanto um jovem como eu. Talvez menos, já que estamos falando de um cérebro idoso. Isso talvez explique o fato de eu já me achar velho devido a tantas lembranças que (acho que) possuo.

Mas e em termos de qualidade? O respeito aos idosos se justifica exatamente aí. Não apenas por serem seres humanos, mas por serem seres humanos que presenciaram muitos anos de transformações em todos os âmbitos, mesmo que hoje possuam apenas uma memória pontual das coisas. Suas memórias seletivas são preciosas por fazerem referências a coisas muito distantes, das quais não vimos e nem nunca veremos.

Uma coisa é você ler ou aprender na sala de aula como eram os costumes da sociedade na década de 20, por exemplo. Outra coisa é você ouvir sobre isso de alguém que viveu nessa década. É muito mais gostoso e deslumbrante. Fora que o idoso, principalmente o centenário, conviveu com parentes bem lá de trás da sua árvore genealógica, dos quais você passou bem longe de conhecer e que foram a semente da sua existência. Isso para mim é muito interessante.

Eu não sei se quero viver 100 anos. Eu digo que sim, se for para completá-los com a cabeça lúcida e ser razoavelmente saudável. Mas também digo que não, quando penso na dependência em que ficarei de outras pessoas. O melhor mesmo é deixar isso pra lá, já que isso está fora do meu controle mesmo. Não morrer cedo pode depender muito da gente (dos nossos hábitos e escolhas na vida), mas viver 100 anos não. Tia Baldoína e todos os outros centenários merecem muitos aplausos.

***

Que 2013 seja um ano repleto de fatos tão bons que eles cheguem a ser memoráveis!
Que no futuro (quem sabe aos 100 anos de idade) possamos lembrar de 2013 como um ano maravilhoso para o qual gostaríamos de voltar e viver tudo novamente!

brinde

Um comentário:

Carlos Ferreira disse...

Tia Baldoína - 102 anos de muita vida.
(29/12/1912-12/01/2015).