quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pânico de semi-conhecidos


semi conhecido

Você tem pânico de semi-conhecidos? Aliás, você sabe o que é um semi-conhecido? Vamos por partes. Semi-conhecida é aquela pessoa que você geralmente conhece há muito tempo, mas que você sabe muito pouco sobre ela. Você trocou pouquíssimas palavras com ela ao longo da vida, nunca teve intimidade. Ela nunca teve grande importância pra você. É isso.

E por que ter pânico dessas pessoas?

Imagine que você esteja no metrô, e daí encontra um semi-conhecido no vagão. O fato de vocês se conhecerem já cria uma certa pressão social para o cumprimento. Então já começa a ser desagradável aí. “Oi, tudo bom? Como vão as coisas?”. “Tudo bem, e com você?”. “Tudo certo também…”. Cri cri cri. Vai falar o que depois? Porque uma hora esse initial talk vai acabar e você não vai ter mais assunto. Você pode até apelar pro calor que tá fazendo lá fora, mas logo ficará sem cartas na manga.

O problema todo é que é difícil conversar com um semi-conhecido ao mesmo tempo em que você se sente na obrigação (por educação) de fazê-lo. E isso é uma das coisas mais socialmente angustiantes que existem para mim. Eu não sei se é um déficit social que eu possuo, mas é extremamente constragedor encontrar esse tipo de pessoa.

Quando vejo um semi-conhecido na rua vindo em minha direção e passando por mim, não costuma ter muito problema; afinal como vamos nos cruzar, será rápido, um aceno de cabeças normalmente basta e pronto, ele ou ela já passou. Mas quando eu vejo que estou caminhando no mesmo sentido que a pessoa, a coisa já muda de figura. Confesso: quando isso acontece, eu ando devagar para não ultrapassá-la, ou ando bem rápido, do outro lado da rua, para não dar tempo de ser visto e correr o risco de ser abordado. Também já peguei caminho alternativo! É nesse nível.

E quando é na situação do metrô (metrô cheio anda por cima), em que eu estou perto da pessoa, aí não tem jeito. O que resta é aceitar a situação horrível. Não conversar causa muito constrangimento, mas (tentar) conversar também causa. A vontade que dá é descer na estação seguinte e esperar outro trem. E olha, eu não me lembro, mas não duvido nada que eu já tenha feito isso.

Eu fujo de semi-conhecidos com certa frequência desde muito tempo. Se avisto algum, faço o possível para passar despercebido. Podem me achar esquisito; e acho que sou mesmo. Eu não creio que todo mundo seja assim. Mas eu sou. É um desdobramento da minha timidez inicial de tudo.

E eu fico aliviado quando eu os vejo primeiro, porque aí tenho tempo de adotar uma estratégia para não ser visto. Uma vez encontrei um num restaurante. Sentei-me de costas para ele. Numa outra vez, encontrei outra no supermercado. Eu entrei no corredor dos biscoitos, e lá estava ela olhando para uns pacotes de Elma Chips. Não me viu. Ufa. Dei meia volta e fui empurrando o carrinho para longe. Parei no corredor dos produtos de higiene. Eu estava precisando de pasta de dente mesmo.

Eu poderia adotar a estratégia do cruzamento na rua, e apenas acenar a cabeça para todos os casos em vez de fugir. Mas é que existem semi-conhecidos e semi-conhecidos. Você sabe que não estão todos no mesmo saco. Alguns de fato mereceriam mais do que um simples cumprimento de longe, mas ao mesmo tempo você também sabe que não tem bagagem para papear muito. É complicado.

Mas o pior é quando o semi-conhecido te ve primeiro e é alguém que não tem a mesma fobia que você. Pior ainda: quando é um que te cumprimenta com empolgação, como se para ele você fosse mais do que um simples semi-conhecido. Nossa, é de matar! “Ooooiii, e aí? Sua mãe tá boa?”. “Tá ótima! Eu é que não tô bem! Deixa eu enfiar a minha cabeça num buraco aqui rapidinho”. “Tá indo pra lá também?”. “Estava, mas agora que eu te vi acho que vou voltar”. É o que eu penso na hora.

O chato disso tudo é que eu devo me passar por metido. Algumas pessoas reclamam que me viram na rua e que eu nem falei nada. Mas nesse caso geralmente é só distração mesmo. Muitas vezes eu não reparo mesmo as pessoas. Mas pode ter certeza: se eu te olhei no instante em que você me olhou também, eu vou falar com você. Com fobia ou não, mas vou.

Agora, se eu te vi, bateu fobia, e eu não sei se você me viu, então posso acabar fugindo mesmo de você. Mas aí não há o que reclamar né? Se você me encontrar e eu não falar com você, você não vai saber que eu estou fugindo, e poderia, assim como eu, ter tomado a iniciativa da abordagem. Ou será que você tem pânico de semi-conhecidos também?

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