sábado, 6 de dezembro de 2014

A pessoa para quem você quer ligar

 

talk please

Sempre achei a troca de cartas algo muito romântico. Troquei algumas quando mais novo. Eu não estava vivendo nenhum romance na época; eram cartas de amizade. Mas, como a amizade é uma forma de amor, não posso dizer que não eram cartas de amor. Aliás, pensando bem, todas as cartas que uma pessoa escreve especialmente para outra são cartas de amor.

Daí veio o telefone. O fixo com fio. Esse ainda bastante romântico. Não era qualquer pessoa que fazia a gente ficar pendurado por vários minutos, e até horas, num telefone fixo, sem poder sair do lugar. Aliás, alguém ainda usa telefone fixo? Era o terror dos pais de adolescentes de alguns anos atrás. A paixão era proporcional ao valor da fatura que vinha no fim do mês. Quanto mais apaixonado, mais alta era a conta. E, na verdade, nem precisava ser adolescente pra isso.

A comunicação ganhou novos ares com o celular e, mais especificamente, com os smartphones. E a impressão que dá é que o amor perdeu espaço para o 3G/4G, ou pelo menos o romantismo. As pessoas se encontram, saem juntas, mas parecem que não estão juntas. Passamos vários minutos olhando para a tela do celular, e às vezes deixamos até de reparar o clima do ambiente que nos cerca e o estado de espírito da pessoa que está conosco. Eu digo isso na primeira pessoa do plural porque eu me incluo nessa, confesso.

Portanto, o que antes era um meio de expressar o amor, hoje se desenvolveu de tal forma que mais parece distrair o amor. Mas eu não quero aqui falar do impacto negativo da tecnologia da comunicação em nossas vidas pessoais, e sim sobre como o seu uso ainda pode dizer muito sobre os nossos sentimentos. A telefonia, a banda larga, o Whatsapp, etc, tudo isso consegue revelar o nosso amor por alguém, mesmo que ele não esteja claro nem para nós mesmos.

O amor fala no nomento em que você pensa e rapidamente liga para alguém só porque aconteceu algo maravilhoso ou terrível contigo. E naqueles momentos em que nada de tão bom ou tão ruim acontece, mas que mesmo assim te faz sentir a necessidade de ligar para determinada pessoa, aí o amor não apenas fala; ele grita. É um teste eficaz: “Aconteceu isso e aquilo; vou ligar e contar pra fulano”. Você ama Fulano.

Tudo o que a gente esconde no coração, no fundo dos nossos pensamentos, vêm à tona muito mais fácil do que foi para tentar esconder. E tolos, não percebemos. Você ama a pessoa para quem você gostaria de mandar uma mensagem na madrugada, ou para quem você gostaria de ligar no meio do dia só para dizer que comprou um novo gadget numa promoção online.

E, em caso de desventuras afetivas, não adianta fazer substituições. A pessoa para quem você quer ligar não será bem substituída por nenhuma outra. Eu entendo que há uma busca por consolo aí, mas esse é um remédio amargo. Alivia, mas não delicia. E ainda faz o consolo perder tempo. A busca por consolo e o egoísmo andam de mãos dadas, mesmo quando há boa intenção.

(In)Felizmente o tempo opera sobre todas as coisas; ele lentamente configura e atualiza contextos. E muda até a pessoa para quem a gente quer ligar. Por isso às vezes nem percebemos quem é ela. Parece um exercício simples e óbvio, mas é incrível como a gente realmente não sabe às vezes! Portanto, faça essa análise de tempos em tempos. Pare e pense: para quem você mais gostaria de ligar agora e contar as novidades dos últimos dias?

E aí você vai descobrir quem ocupa parte do seu coração…

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