quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A metáfora de Cinquenta Tons de Cinza

(Este texto revela um pouco alguns elementos do filme)

Não tenho nenhuma vergonha em assistir certos filmes. Fui ver “Cinquenta Tons de Cinza” sem ter lido os livros (e nem tenho vontade de lê-los), mas sabendo que ele é classificado popularmente como uma história para mulherzinhas. Não importa. Eu estava curioso, me convidaram e eu fui assistir.

Eu tenho certeza que boa parte dos homens que vão ao cinema com suas parceiras ver “50 tons” reviram os olhos em vários momentos, achando aquilo um tanto patético. De fato, é difícil engolir o Dr. Grey: um cara de apenas 27 anos, bonito, sarado, sedutor, bilionário, dono de um império, solteiro. Não é que nós homens tenhamos inveja dele, mas é que o cara é bastante idealizado mesmo. Mais difícil ainda é engolir que ele cria uma ideia fixa pela mocinha da história: uma jovem bonita até, porém comum, pobre, tímida e virgem. Chega a dar vontade de rir.

Se você se apegar a esses elementos literais, provavelmente não vai gostar muito da história. Especialmente se você for homem. Mas eu vi “50 tons” com um olhar diferente, que foi chegando em mim ao longo da exibição. Talvez seja boa vontade minha, mas “50 tons” para mim é um filme metafórico e, por isso, interessante. Por dois motivos.

O primeiro é o processo de envolvimento entre Anastasia e o Dr. Grey. Fica claro desde a primeira cena juntos que o interesse é mútuo. A partir daí, ele faz tudo o que uma mulher poderia sonhar. Ele a leva para passear em seu próprio helicóptero, onde ela se encanta pelas luzes noturnas da cidade. E ainda: restaurantes chiques, presentes caros, dedicação, pegada forte, olhares fixos e intimidadores. Tudo é muito intenso, novo e parece tão irreal que chega a soar um tanto esquisito para a jovem Anastasia.

E não é exatamente assim quando estamos nos apaixonando? Parece tão irreal que chega a ser esquisito. Um esquisito bom. O Dr. Grey e suas armas de conquista são a personificação da intensidade que é uma paixão. De forma geral, Anastasia sente tudo o que todos nós sentimos quando nos apaixonamos (seja você homem ou mulher): ela se encanta, ela sente frio na barriga, ela ganha um um brilho diferente no olhar. Na cena em que ele a leva para voar de aeromodelo (ultraleve, sei lá), ela fica em êxtase quando o aparelho gira no ar e a deixa de cabeça pra baixo. Ela ri frouxo, maravilhada, vivendo algo que nunca havia experimentado antes. E é isso mesmo. Quem já se apaixonou de verdade sabe exatamente do que eu estou falando. E o interessante é que para sentir tudo isso não é preciso tanto luxo e poder como mostrado no filme. O luxo e o poder estão ali como metáfora da explosão grandiosa e interna que é causada pelo processo de apaixonar-se.

O outro motivo que me faz ver “50 tons” como uma história interessante aparece depois desse processo de aproximação entre dois. A mocinha, já totalmente envolvida, se vê no dilema de aceitar ou não o sadismo do rapaz. Tudo o que ele propõe é degradante (fico imaginando o olhar torto de uma feminista ao ver esse filme), mas em nenhum momento você a reprova por se submeter aos testes dele. Pelo contrário, o desenrolar da história leva você a compreendê-la. E se tentarmos novamente uma analogia, podemos ver que as relações têm disso. Quantas vezes a gente não se submete aos caprichos do outro? Quantas vezes, em nome de uma paixão (aliada a um pouco de ingenuidade, talvez), não nos deixamos ser acorrentados e temos nossos corações açoitados, mesmo cientes da dor que isso provoca?

Interessante também é que a Anastasia, ao longo da história, se pergunta e o pergunta várias vezes porque ele quer fazer aquilo. E ele sempre tem uma resposta torta, mas que parece convencê-la momentaneamente. Ela vive um ciclo de “eu não entendo porque você faz isso / eu quero me submeter / eu não estou me sentindo bem / eu não entendo porque você faz isso…”. Ela tem um conceito comum de vida e de relacionamento, e ele vive tentando convencê-la de que o modo dele é legal, usando justificativas pouco plausíveis. Além do mais, ele alterna seu modo de agir: ora ele é namorado, com direito até a eles conhecerem seus respectivos sogros (e ela adora esses momentos), e ora ele é distante, dizendo que não é do tipo que namora. Apaixonada e ciente de que ele está em conflito e sente algo por ela (ele mesmo assume isso), ela fica querendo ver até onde vai aquilo.

Não é exatamente assim? Muitas vezes abrimos mão de nossos conceitos e às vezes até de nossa dignidade para agradar o outro, em troca da manutenção do frio na barriga e do interesse do outro por nós, e até mesmo para ver se, lá na frente, a pessoa muda. Afinal, a pessoa também faz parecer algumas vezes que ela é capaz de ser da forma que queremos que ela seja. Ela gosta da gente. Da forma dela, mas gosta. E isso nos comove e nos alimenta. Mesmo que depois os fantasmas voltem.

Homens ou mulheres… o fato é que estamos/estivemos/estaremos envolvidos em algum momento na vida por uma pessoa um tanto (ou talvez muito)  problemática. E nessas relações, a gente, em picos esporádicos de consciência, se pergunta: “Ora, por que estou fazendo isso? Por que estou aceitando isso? Por que eu ainda estou aqui?”. Até que chega o momento do “basta”, mesmo que ainda exista amor ali.

“50 tons” (o primeiro filme – lembrando que não li os livros e não posso falar pela trilogia inteira) mostra esses dois processos de relacionamento: o encantamento e a submissão. E isso é comum em vários relacionamentos. Não é preciso se envolver com alguém idealizado para se ter esse tipo de experiência. Basta apenas se apaixonar. Portanto, não julgue o filme pela pouca veracidade do Dr. Grey. O personagem é um tanto patético sim, mas não acho que isso seja o mais importante. Para mim, a história vai além, e conta um pouquinho da realidade nossas relações afetivas, mesmo que através de uma relação um tanto irreal. E isso é interessante. Quero ver os próximos filmes.

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