segunda-feira, 27 de julho de 2015

As estátuas


Felipe estava cansado da sua vida da forma como ela era. Vivia na mesma casa desde que nascera, frequentava sempre os mesmos lugares da cidade. Até da faculdade estava cansado. Aqueles corredores frios, aquelas pessoas pouco afetuosas. Já não se sentia tão apaixonado pela namorada. Tinha um amigo de infância, Jonatas, com o qual havia brigado por pura saturação de convivência.

Aceitou viajar com os pais e irmã mais nova nas férias para um litoral distante. Pensou que poderia ser um tédio, mas resolveu arriscar. Dentro do chalé alugado, rodeado por muita natureza e pouquíssima civilização, sua mãe preparava um bolo de cenoura, receita que ele adorava desde pequeno. Mas Felipe estava com o olhar distante. Disse que iria dar uma volta pelo local, e saiu apressadamente.


O rapaz caminhou por uma região próximo ao chalé, formada por pequenos penhascos diante dos quais o mar se ajoelhava. Uma brisa fria soprava em seu rosto. Gostou da sensação. Inspirou-se. Olhou para o céu e desejou ventos de mudança. Conhecia muita gente que estava vivendo coisas diferentes e incríveis, e aquilo o incomodava. Sentia-se profundamente insatisfeito com tudo. Queria mudar também.

Depois de alguns minutos de introspecção, Felipe avistou no horizonte, bem na ponta do penhasco, algo que parecia ser uma pequena estátua. Aproximou-se curioso. Era a estátua de um garotinho, com a metade do seu tamanho, que fitava aquele mar infinito. O que diabos uma estátua de um menininho fazia ali, no meio do nada?, pensou. Ficou de frente para ela tomando todo o cuidado para não cair lá embaixo. Admirou-se com a expressão do menino. Era um olhar de sonho, de desejo. Mais do que isso até. De obsessão. De busca incansável por algo que estava no longíquo horizonte daquele mar todo, e que parecia tão misterioso. Felipe então virou-se para o mar, encantou-se com aquela vista panorâmica e percebeu que sentia o mesmo que o menino. Ele também buscava algo. O que era exatamente, ele não sabia.

Foi então que Felipe fixou seu olhar em uma ilha, e percebeu que ela estava exatamente na direção para onde a pequena estátua olhava. Felipe achou interessante e pensou que talvez houvesse alguma coisa naquela ilha, e que a estátua tivesse sido posta ali justamente como uma pista. Adorava mistérios, mesmo os inventados. E seus olhos se encheram de real encatamento quando avistou, lá embaixo, aos pés do penhasco e numa estreita faixa de areia, um pequeno barco a motor amarrado a uma pedra. Não era possível! Não havia ninguém ali! Olhou para o céu, olhou para trás, e novamente para o céu, e entendeu que aquilo se travava de uma providência divina. E, subitamente, desejou de forma obcecada saber o que havia lá.

Desceu pelas pedras, e alcançou o barco. Havia combustível. E também havia reserva de combustível dentro do barco, junto com um galão de água. Sorriu, e olhou novamente para o céu. Não tinha nada a perder. Aquilo tudo estava ali para ele, já não tinha mais dúvidas! Ligou o motor e partiu em sua aventura.

Com o barco em movimento, deslumbrou-se com os raios de sol que, alternadamente, apareciam, beijavam o mar, e desapareciam entre as nuvens brancas. Viu gaivotas indo na mesma direção, e viu até o esguichar de uma baleia; ficou maravilhado. Nunca tinha visto uma ao vivo.  O dia estava lindo. Uma mão manejava o motor, e a outra se abria para sentir o ar que cortava o seu corpo. Seus cabelos voavam. Sua camisa parecia que iria rasgar a qualquer momento e que seria levada pelo vento. E Felipe achou tudo incrível.

O rapaz não se importou e não saberia dizer quanto tempo havia demorado para que finalmente chegasse à ilha. Consumiu um pouco de água durante o trajeto, mas ainda havia muita no galão. Também havia combustível para voltar, e não se preocupou. O lugar era belo, e parecia que nunca alguém havia chegado ali. Parecia uma ilha selvagem. Saltou do barco e pisou na areia branca e fofa da praia. Viu palmeiras que pareciam ter sido plantadas propositalmente lado a lado. Viu árvores de topo o tipo. Com exceção das palmeiras, não havia um padrão. Todas frutíferas. E naquele momento todas carregadas com suas frutas. Viu goiabeiras, bananeiras e até parreiras, o que era esquisito, pois achava que uvas não nasciam em qualquer lugar. Mas não pensou muito nisso. Pegou um pouco de tudo. Comeu. Deliciou-se.

Viu ainda uma pequena foz; era o deságue de um riacho que vinha lá de dentro, do meio das árvores. Adorava tomar banho de rio. Pensou que talvez houvesse um poço cristalino ali por dentro. Que lugar maravilhoso! Sorriu. E adentrou as árvores com os lábios adociçados pelas frutas que havia comido e com os olhos brilhando de encantamento.

Enquanto caminhava, ouvia cada vez mais forte o barulho do que parecia ser uma cachoeira. Sim, uma cachoeira! Apressou os passos como pode, esquivando-se dos galhos e das teias de aranha. E de repente viu, entre um emaranhado de galhos de uma inconveniente árvore, um grande poço sobre o qual caía uma bela cachoeira. Foi difícil passar por aqueles galhos, se arranhou um pouco, mas Felipe conseguiu. Mergulhou, voltou à superfície, cuspiu água e deu um grito de euforia. Ficou debaixo da cascata, abriu os passos enquanto gargalhava, em êxtase. A água forte caía sobre sua cabeça. Felipe sentia-se o rei daquele lugar.

Decidiu voltar. Havia memorizado o caminho de volta à praia. Deveria passar de novo pelo amaranhado de galhos da árvore inconveniente. Ao afastar um galho leve, um outro maior veio pelo lado e o golpeou na barriga. Sentiu forte dor. Mas não se importou e seguiu seu caminho. Tropeçou algumas vezes em raízes escondidas. O retorno não foi fácil. Chegou à praia mancando e sentindo dor, mas satisfeito. Entraria no barco e não precisaria mais andar até que chegasse no continente. Mas o barco não estava no lugar onde havia deixado.

Olhou para os dois lados da praia. E então viu o que parecia ser o barco junto às pedras. Totalmente destruído! Tinha deixado o barco na areia. Não havia ondas grandes o suficiente que pudessem tê-lo arrastado de volta para a água. O que o teria afastado em direção às pedras? E por que estava destruído? Entrou em total desespero.

Suas mãos tremiam e Felipe começou a chorar. Olhou em volta e não viu nada que lhe pudesse ser útil, nem ninguém. Tentou se comunicar pelo celular, mas não havia sinal ali. Até que ele viu uma outra estátua. Não havia reparado nela quando chegou à ilha. A estátua estava na areia. Representava o mesmo menino, que fitava o mar em direção ao continente. Felipe ajoelhou-se e voltou a chorar. Era macabro. Não queria acreditar que aquilo pudesse ser verdade.

Felipe olhou para baixo e viu toda a sua desgraça cair na areia em forma de lágrimas e do sangue que escorria de sua barriga, perfurado pelo galho que o havia atingido. Felipe arrastou-se com dificuldade para perto da estátua. E reparou que a expressão do menino era diferente daquele outro. Possuía um olhar que não era de desejo, mas de um misto de saudade e angústia. Um anseio triste. E entendeu que havia ido longe demais. Olhou para o céu e viu um avião cruzar as nuvens. E desejou ser um dos passageiros.

Antes de conformar-se com o seu destino, olhou novamente o seu telefone, e dessa vez reparou algumas ligações perdidas de horas atrás enquanto ainda estava no penhasco, do outro lado. Eram de sua mãe. Junto às ligações perdidas, havia algumas mensagens. A mãe chamava o filho de volta para comer o bolo de cenoura, àquela altura já pronto.

Desenganado, Felipe já não tinha mais lágrimas para chorar. Seu rosto estava encharcado de todas elas. Ficou de frente para a estátua, abraçou-a pelo pescoço, e fechou os olhos. E de repente viu o chalé no qual sua família estava hospedado e sentiu o cheiro do bolo de cenoura. Viu seus pais rindo e sua irmã sendo adoravelmente pentelha. Pensou no Jonatas, seu melhor amigo, e em como ele parecia triste pela briga. Mesmo assim, certamente seria Jonatas o primeiro a saber de sua aventura. E certamente ele adoraria ouvir. Pensou também na sua namorada, e percebeu que ainda era sim apaixonado por ela. Pensou até nas aulas chatas da faculdade. E agora, tudo escapava tão rapidamente…

Virou novamente para o mar, fitou o continente, e permanceu agachado e com a cabeça encostada na estátua. A essa altura, um filete de seu sangue se encontrava com o mar calmo, como a foz do riacho. E desejou mais do nunca sua antiga vida de volta. Até que, enfim, não desejou mais nada.

A noite caiu, o novo dia amanheceu, e podia-se ver um cadáver de olhos abertos repousado na pequena estátua. A expressão era idêntica a do menino, mas diferente desta, não seria para sempre. Os abutres tratavam de devorar a carne disponível.

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