segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Uma família tradicional


Jorge e Fátima tinham acabado de acordar e conversavam na cama. O casal estava preocupado com o seu filho, Luizinho. Eles tinham também uma filha, Clarinha. Mas a menina mal havia largado as fraldas. Ainda não dava trabalho. Ainda. Mas Luizinho, com 10 anos, já deixava os seus pais muito agustiados devido ao seu comportamento atípico.

Jorge contou a Fátima que, no último evento do Dia dos Pais na escola, a professora havia comentado em particular com ele sobre Luizinho. O menino andava um tanto isolado do restante da turma, principalmente dos outros garotos. Fátima não precisava de mais explicações. Ou não as queria. Ficou praticamente calada. Limitou-se apenas a dizer que talvez fosse bom o menino ir ao psicólogo. Jorge não gostou muito, e saiu da cama. Tinha que ir trabalhar.

Fátima esperou o seu marido sair de casa para então ter coragem de deixar a cama quente. Tomou banho, acordou as crianças, e os três tomaram café da manhã juntos. Enquanto levava as crianças para a escola, Fátima olhou para o filho através do retrovisor interno do carro. Perguntou se ele gostava da professora e dos coleguinhas, e se eles o tratavam bem. O menino respondeu apenas que sim. A mãe não fez mais perguntas.

Após deixar os filhos, Fátima voltou para a casa pensando muito em sua família. Eles haviam prosperado significativamente nos últimos meses devido ao novo cargo de Jorge na empresa. A mulher sonhava que sua família fosse perfeita. E com a vida financeira ficando mais confortável, ela finalmente poderia fazer de sua família um modelo completo; um exemplo de família tradicional. A começar dispensando os serviços de Maria, a diarista, e contratando uma empregada de verdade no lugar.

Maria trabalhava na casa da família duas ou três vezes por semana, dependendo da solicitação de Fátima. Meses atrás, quando eles se mudaram para o novo bairro, Maria foi a melhor e mais rápida recomendação que Fátima recebeu como diarista. Como sentia urgência, Fátima a contratou. Mas a verdade é que a dona-de-casa nunca gostou da serviçal. Fátima a achava uma criatura repugnante. Pensava que era um pecado Maria desfilar seus trapos aos quais chamava de roupas por aquela casa nova e bonita. Achava que Maria não combinava nem com a casa nem com a sua família. Tinha asco de sua aparência. Era feia. E aquela “cor de café” não ajudava. Não era preconceito, dizia. Mas ela não tinha culpa se a mulher possuía um visual asqueroso, que contava ainda com uma verruga imensa e peluda numa das bochechas.

Além do mais, Maria era demasiadamente ignorante. E nem cristã era. Não falava de Deus, de Jesus, nem de igreja. Nada. Talvez fosse até macumbeira. E devia ser, afinal aquela cor e aquele sotaque “de lá de cima do Brasil” faziam Fátima desconfiar. Uma péssima influência para Luizinho, que já andava com hábitos muito estranhos. O fato é que a mulher tinha vários motivos para dispensar Maria; mas desses, só podia falar um. Os outros, guardava para si.

É bem verdade que tudo o que Fátima não queria era uma empregada jovem, tampouco bonita. Não queria despertar o interesse de Jorge. Mas havia conhecido outra mulher na semana anterior; trabalhava como empregada, um pouco mais velha do que ela, e com ótimas referências. A senhorinha se vestia bem, era cheirosa, educada, usava um véu e era tão branquinha que lembrava Nossa Senhora de Fátima, a Maria de devoção da dona-de-casa. Fátima queria contratá-la.

Fátima estacionou o carro e encontrou Maria já na porta de sua casa. Cumprimentou a diarista friamente. Deixou que ela trabalhasse todo aquele dia. Buscou as crianças na escola e depois as levou para as aulas de natação. Quando a tarde caía, Fátima chamou Maria, e a dispensou permanentemente. Alegou que, dois dias atrás, na última visita da diarista, após chegar em casa, tinha visto um pedaço de brigadeiro grudado no sofá. Esse foi o motivo que Fátima usou para justificar sua atitude. Maria ficou nervosa, e com a voz embargada pediu desculpas. Disse que isso não aconteceria novamente e que precisava muito do emprego, pois vivia em situação financeira delicada; tinha três filhos para criar. Mas Fátima estava decidida; não quis saber. Maria então abaixou a cabeça, pegou sua velha bolsa e deixou a casa para sempre.

Jorge saiu do trabalho assim que o sol se pôs. Entrou em seu carro e mandou uma mensagem para Fátima dizendo que trabalharia até mais tarde naquele dia. Recebeu um “ok” como resposta. Ligou o carro e dirigiu por três quarteirões. Parou em frente a um prédio, identificou-se na portaria, e subiu. Foi recebido num apartamento por Gisele, uma bela jovem de 20 e poucos anos.

Gisele não conseguiu conter a alegria quando Jorge apareceu em sua porta. Duvidava que ele pudesse ir até lá. Falou para que ele entrasse depressa. E não demorou muito para que Jorge desse-lhe um beijo caloroso. Na cama, Jorge dizia que nunca havia visto uma mulher como Gisele. Que ela era única. Melhor do que todas as outras com as quais já esteve. Gisele sorria e entregava-se ao desejo.

Após saciarem-se e tomarem banho juntos, Jorge revelou que estava muito preocupado com seu filho, Luizinho. Gisele ouviu atentamente todo o desabafo do pai do menino, disse que já tinha visto casos parecidos, e deu conselhos ao homem. Jorge só desfez o seu semblante de preocupação quando fixou-se novamente nos seios de Gisele ainda desnudos do sexo de poucos minutos atrás. E então a beijou novamente. E novamente mataram seus desejos. E durante o ato, Jorge pensava que duas Fátimas não dariam uma Gisele.

Já era tarde quando Jorge chegou em casa. Ao ver o marido com um buquê de flores, Fátima sorriu um sorriso gelado. Sabia o que significavam as flores. Mas não se importava (mais) com isso. Beijou o marido. A mulher disse que Clarinha já estava dormindo. O pai foi ver a menina e deu-lhe um beijo na testa. Ao voltar, deparou-se com Luizinho agachado na sala, brincando com as bonecas das irmãs, simulando um diálogo feminino entre elas. Fátima estava do outro da sala, e também presenciou a cena. Os pais entreolharam-se, mas não aguentaram se encarar, pois tinham medo de ter certeza da resposta para aquilo nos olhos um do outro.

Jorge aproximou-se devagar de Luizinho, e calmamente pediu que o filho lhe entregasse as bonecas. Luizinho as entregou. Jorge então puxou um carrinho de brinquedo que estava jogado no canto da sala e deu para o menino. Luizinho olhou o brinquedo, o colocou no chão, e levantou. Antes que pudesse fazer outra coisa, sua mãe pediu para que fosse dormir, pois já era tarde. O menino foi.

Jorge olhou para a Fátima mais uma vez. Pediu que a mulher procurasse um bom psicológico para o menino. Ela consentiu com a cabeça. Com ânseio de fugir daquele clima desagradável, Fátima mudou de assunto e disse que havia dispensado Maria naquela tarde. O marido deu de ombros.

Já na cama, Jorge e Fátima, virados de costas um para o outro, pensavam em Luizinho. Ambos compartilhavam as mesmas reflexões naquele mesmo instante. E se houvesse alguma visita naquele noite e ela visse Luizinho com as bonecas? O que as pessoas iriam pensar? Ou melhor, o que as pessoas vão pensar? Eles não podiam aceitar aquilo dentro da família, e estavam dispostos a tentar de tudo para trazer Luizinho de volta para o caminho correto.

Jorge decidiu desviar seus pensamentos. Precisava dormir. Pensou na bela Gisele, e em como ela era fogosa. Seria capaz até de pagar pelo seu corpo se ela pedisse. Enquanto isso, Fátima, também decidida a dormir, pensava agora na senhorinha que contrataria como empregada. Um amor de pessoa. E parecia ser bem mais prendada do que aquela outra. Um exemplo de doméstica; excelente aquisição para sua família. Os dois então sorriram, cada qual em seu lado da cama, mas não conseguiam dormir.

Luizinho pensava, em seu quarto, deitado de costas e de olhos fechados, na viagem que ele e sua família fariam para a Disney no ano que vem; viagem essa que fora prometida por seus pais.

E pensou também que seria legal se Maria fosse. O menino tinha muito apreço pela diarista. Lembrou-se do que fizeram dois dias atrás. Luizinho estava em casa com Maria. Caía uma tempestade lá fora. Seus pais haviam saído. Clarinha estava com na casa da avó. Maria não deixou o menino ligar a TV e nem o videogame por causa dos raios. Ao ver que o tédio havia levado Luizinho a ficar triste por um motivo que ela desconhecia, a diarista decidiu fazer brigadeiro e pediu para ele ajudá-la.

Luizinho ficava com os olhos bem atentos vendo Maria preparar aquela delícia. Sentaram no sofá e comeram de lamber os dedos. Como não podiam ligar a TV, Maria teve a ideia de pegar um rádio de pilha e sintonizar numa estação musical qualquer. E passaram a tarde cantando alto as músicas que tocavam; tão alto que não mais se ouvia o barulho da chuva. Enquanto Maria tentava procurar outras rádios, o menino fingia que sua enorme verruga era o sintonizador. E ambos gargalhavam. Divertiram-se muito. Maria era incrível! Ela bem que poderia ir para a Disney também.

Luizinho também pensou em sua professora preferida, Gisele. Ou melhor, “tia Gisele”, como ele a chamava. A bela professora de 20 e poucos anos gostava muito do menino. E seus pais também gostavam muito dela. Lembrou-se do último evento do Dia dos Pais na escola. Na semana anterior a ele, Gisele ajudou Luizinho a confeccionar um presente para Jorge. No dia do evento, as crianças homenagearam seus pais com uma dança, coreografada pela professora. Todos os papais ficaram admirados com a dedicação da jovem professora.

Luizinho, após a dança e após ter entregue o presente ao pai, levou Jorge para conhecer Gisele. Eles se cumprimentaram e Gisele disse ao pai do menino que Luizinho era uma criança muito especial. Jorge gostou do que a jovem disse, olhou para ela fixamente e sorriu. Luizinho se afastou e deixou o pai e a moça conversando a sós. E assim achou que seria perfeito se sua professora também fosse para a Disney com sua família. Era era muito animada e certamente andaria em todas as montanhas-russas.

Ficariam todos juntos, planejava o menino. Luizinho decidiu naquela noite que proporia essa ideia para os seus pais no dia seguinte. Seu pai, sua mãe, sua irmã, Maria e a tia Gisele. Todos na Disney. Seria o máximo!

Luizinho adormeceu tão logo parou de pensar. Dormiu rápido, dormiu leve. Dormiu um sono divino que somente os puros conhecem.

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