segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amor aprendido


Dia desses eu estava conversando com uma senhora que me disse algo muito interessante: “Eu me casei usando a razão. Eu tinha 30 anos, queria ter uma família e me sentia preparada”. Fiquei meio sem jeito, mas não resisti e a questionei sobre o amor. Ela sorriu e disse que o marido era muito preocupado com isso também e que vivia perguntando para ela, de tempos em tempos, se ela já conseguia amá-lo. E ela sempre dizia para ele ficar tranquilo, que o amor viria com o tempo. “Até que veio”, ela concluiu.

Confesso que admiro essa senhora por sua racionalidade. Primeiro por saber o que queria, e somente no momento que julgou adequado, mudou o seu estilo de vida e assumiu responsabilidades familiares. Segundo porque tinha a certeza de que o amor não era necessário naquele momento e que com o tempo passaria a amar o seu marido. Ela hoje tem mais de 60 anos e continua casada com o mesmo homem. Com um semblante feliz, ela não parece se arrepender de nada.

Ultimamente eu tenho tomado conhecimento de alguns desses casos de “amores aprendidos”. E, por nunca ter tido uma experiência com esse tipo de amor, eu me pergunto se isso realmente seria possível. Eu sei que a serenidade em uma relação muitas vezes (talvez na maioria das vezes) é algo que vem com o tempo. Mas seria possível que alguém, ao escolher uma pessoa, relacionar-se com ela sem sentir nada muito especial e insistir no envolvimento, invariavelmente em algum momento seria brindado com o amor, que chegaria para selar essa união?

Pode ser que o amor aprendido seja muito mais um sentimento profundo de amizade - com alguma pitada de comodismo e medo - do que um sentimento de amor conjugal propriamente dito. Afinal, uma hora as pessoas se acostumam e até que fica bom fazer parte daquela relação. Há tantos casos de pessoas que se relacionam por causa da insuportável ideia de viverem sozinhas. Difícil dizer em quais situações isso seria bom ou ruim. Depende muito de cada uma, e da vida que cada uma leva. Parece uma opção infeliz, mas a gente não sabe a história de vida das pessoas.

Por outro lado, cada amor talvez possa ser entendido como um tipo de amor aprendido. A diferença estaria no quão rápido seria esse aprendizado, que dependeria dos diferentes contextos onde o amor acontece: as personalidades das pessoas envolvidas, o momento da vida de cada uma, a disponibilidade de ambas, suas afinidades, a atração que sentem uma pela outra. Alguém que tenha muitas afinidades com uma pessoa estaria propenso a aprender a amar essa pessoa de uma forma  mais rápida do que se não houvessem tantas afinidades. Nesse caso, seria aquilo que chamamos de paixão simplesmente uma forma muito rápida de aprendizado do amor?

E por falar em paixão, é importante dizer que nós somos criados assistindo filmes, novelas e lendo romances que descrevem o amor em sua forma arrebatadora, fazendo a gente crer que a paixão é um ingrediente necessário para solidificar do amor. Mas será que precisa mesmo ser assim? Não seria o amor aprendido um amor tão legítimo quanto um amor de cinema, só que sem a intensidade de uma paixão prévia?

Não estou querendo desmerecer o arrebatamento dos corações. Muito longe disso. Existem pessoas que no mesmo mês em que se conheceram já estão trocando olhares apaixonados, declarações, confidências, e que a cada encontro só aumenta o desejo incontrolável de se verem cada vez mais. E eu não consigo imaginar algo mais bonito do que a oportunidade divina de viver isso. Eu considero realmente esse tipo de experiência um presente de Deus, e sei que infelizmente muitas pessoas passam pela existência sem conhecer esse pulsar de vida que, de tão intenso, é capaz de mudar tudo por completo e nos levar ao extremo da felicidade humana.

Mas será que o desejo de viver algo tão profundo e intenso não deixa as pessoas por aí perdidas buscando alguém que, finalmente e sem muita demora, atenda às expectativas e aplaque de vez a solidão? Na era digital, onde existem inúmeras maneiras de conhecer inúmeras pessoas com poucos cliques, as pessoas não querem mais perder tempo com alguém que de cara não agrada muito. Por que insistir na pessoa X se existe uma pessoa Y na tela do smartphone que pode ser que mexa muito mais com o coração?

Por um lado, existem muitas opções. Por outro, falta foco. Preza-se o dinamismo. Despreza-se a paciência.

Mas a verdade é que o amor imediato (ou a paixão – eles se confundem muitas vezes) infelizmente não é garantia de que as coisas vão dar certo. Assim como a tentativa de aprender a amar alguém também não é garantia de que as coisas vão dar errado, tornando uma relação necessariamente fadada à conveniência e pouco feliz.

Eu acho que nunca serei maduro o suficiente para entender muitas coisas. Eu precisaria de uma eternidade para entender o que os seres humanos são capazes de sentir e de que maneira são capazes se sentir. Mas, como eu ouvi certa vez, e como a tal senhora com quem conversei pôde vivenciar, o amor talvez seja, em alguns casos, muito mais uma questão de decisão do que de sorte.

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