sábado, 3 de setembro de 2016

Pipoca


Lembro-me de uma menina legal com quem eu estava saindo há alguns anos atrás. Convidei-a para ir ao cinema. Aquele já era o nosso terceiro ou quarto encontro. E embora tivéssemos disposição para nos vermos, os encontros não estavam sendo empolgantes. Para nenhum dos dois. A gente até tinha em mente que o outro valia a pena, no sentido de que éramos duas pessoas disponíveis e bem intencionadas, mas esse era o único e insuficiente elemento motivador.

Chegando no cinema, pedimos pipoca. O atendente falou para esperarmos estourar mais. Enquanto o milho cozinhava, a menina me dizia que adorava o barulho da pipoca estourando. Que provocava nela uma sensação gostosa, de alegria. Sorri e concordei. E completei dizendo que o cheiro também era muito bom. Realmente, pipoca combina com tudo o que é bom na vida. Filme, jogos, aniversário, amigos. Pipoca deixa tudo mais leve, até mesmo a tristeza. E apesar de ser algo tão simples, é sempre uma experiência agradável fazer pipoca. Enquanto estoura, tudo em volta vai ficando com o cheiro. Ele toma conta do ambiente. Inebria. As pessoas em volta às vezes ficam enjoadas com o cheiro forte, mas para quem está comendo é sempre muito bom.

Nossa pipoca ficou pronta. Um balde cheio. Colocamos nossas mãos ao mesmo tempo no balde e comemos as primeiras. Nos olhamos. Sem sal. Continuamos nos olhando como se buscássemos no olhar do outro a confirmação de que algo estava estranho ali. De fato, sem sal. A menina pegou um sachê no balcão e despejou sobre o balde. Melhorou.

Segurei a mão dela e caminhamos até a sala do filme. Ela comentou que a minha mão estava fria. Sorri. Sempre foi. Sempre fui. Sentamos em nossos lugares. O braço entre os assentos não suspendia. Mais um elemento dificultador em algo que já não estava muito fácil. Lembro-me de todo o filme. E percebi depois que isso também não era um bom sinal.

Terminou a sessão. Ainda havia pipoca no balde. Voltamos conversando qualquer coisa sem importância e comendo. Não que ainda estivéssemos com vontade da pipoca, mas ela estava ali, sobrando, à toa, estava paga e tínhamos tempo.

Acompanhei a moça até a porta de sua casa. Abracei-a pela cintura e ela envolveu meu pescoço com os seus braços. Nos beijamos. E veja só que curioso: foi o beijo de sal mais sem sal que já dei. E tenho certeza de que ela sentiu algo parecido. Mas não atribuímos culpas. E nem cabia fazer isso ali. Apenas nos despedimos.

Eu voltava segurando ainda o balde de pipoca. E já comia as últimas. Até que elas acabaram e eu pude ver no fundo do balde aqueles milhos parcialmente queimados que não estouram. Sempre tem uns. Recebi uma mensagem da menina. Ela enviou um smile para mim. Respondi com um agradecimento pela companhia, um "boa noite" e enviei um smile de volta. Depois disso nunca mais nos falamos. Nunca mais nos vimos. Desfiz-me do balde. Havia acabado. Alguns milhos simplesmente não viram pipoca.

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